quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Globalizações, humanização e responsabilidade profissional


Cadeiras vazias: qual o espaço dos seres humanos na sociedade de consumo global? (Foto: Enio Moraes Júnior)

Enio Moraes Júnior

Segundo a filósofa Monique Canto-Sperber, não podemos falar em globalização como uma espécie de UNIFICAÇÃO do mundo. É necessário que os valores regionais sejam preservados a partir da construção de um MOVIMENTO CRÍTICO que valorize a DIVERSIDADE humana e regional. Para ela, uma efetiva globalização deve implicar um MUNDO COMUM em que as diferentes culturas relacionem-se a partir das suas tradições, não que estejam submetidas a uma cultura dominante. Pouco empolgada com os lucros econômicos e buscando um sentido mais humanista para a globalização, ela observa (BARRET-DUCROCQ, 2004: 50):

Nosso mundo é um mundo onde a pobreza e a miséria constituem o lote de uma parte considerável das populações, mesmo dentro dos países desenvolvidos. Mais que pela ausência de recursos, a miséria se mede pela ausência de perspectivas de futuro ou de oportunidades de ação. (...)
Dispor de meios para transformar recursos em verdadeiras capacidades de agir requer um mínimo de educação, exige viver em um mundo que ofereça reais possibilidades de desenvolvimento de si e supõe que a cultura à qual se pertence tenha podido formar em cada um a faculdade de adaptar-se.

É nesse cenário de contradições entre sentidos humanos e materiais, entre pessoas e coisas, entre empresas e pessoas que os profissionais das diferentes habilitações de Comunicação Social precisam pensar sua atuação. A busca pelo lucro deve caminhar ao lado de uma efetiva responsabilidade social.
A nova configuração mundial implica, assim, desafios para o papel da comunicação e dos seus profissionais. O fluxo informativo, agora mais veloz e dinâmico, assim como as decisões e a produção do capital, tem que corresponder a uma qualificação também do nível de relacionamento entre as diversas instâncias da hierarquia humana envolvidas numa economia global que precisa fazer-se mais solidária. Diante disso, a mídia e os seus profissionais do século XXI, apoiados nas tecnologias digitais, precisam ganhar um novo e único sentido: o do ser humano, respeitando, na sua diversidade, o seu direito à vida com dignidade.
Buscando entender os obstáculos desse caminho, Benjamim Barber (2003) tem usado uma metáfora para discutir a intolerância e o desrespeito à diversidade em duas diferentes esferas. Para ele, no mundo contemporâneo e globalizado, à JIHAD – a busca de uma identidade local (regional) que implica o dever de dominação do outro em nome da aceitação desses valores – opõe-se o McMUNDO – a busca de uma cultura global que implica a dominação do outro em nome da proliferação do capital econômico.
Enquanto a Jihad dissemina MICROGUERRAS LOCAIS, o McMundo acena com uma MACROPAZ GLOBAL. Como resultado desse embate difícil, com uso de armas VIDEOLÓGICAS GLOBAIS e VIDEOLÓGICAS LOCAIS e desrespeito à INTERDEPENDÊNCIA ECOLÓGICA, vença quem vencer, talvez a única coisa que reste seja uma PÓS-DEMOCRACIA.
Tenho defendido (2007A) que na sociedade neotecnológica os conflitos que determinam a comunicação social e o jornalismo como espaço de cidadania não são exatamente retirados da pauta da produção da informação, mas deixam de ser percebidos pela recepção, tomada por uma nova cultura da pressa e da superficialidade: a HIPERCULTURA que, segundo Stephen Bertman (1998: 181), funciona num contínuo abastecimento a curto prazo:

A hipercultura é uma cultura que facilmente se torna maçadora e que rapidamente aturde as pessoas, uma cultura em que o divertimento se transforma e deixa de ser um momento ocasional de distração de pessoas ou de grupos e passa a ser uma forma de vida, que ocupa todos os interstícios entre os períodos de trabalho. Esgotando rapidamente as reservas de energia, uma hipercultura exige constantemente ser abastecida.

Em alguma medida respaldando a vida hiperculturalizada, Manuel Castells (MORAES, 2003) faz uma leitura das implicações da internet para a sociedade contemporânea. Para ele, a internet não é em si uma nova forma de sociedade, mas potencialmente representa e age como um instrumento, um meio de uma nova forma de organização social a que ele denomina SOCIEDADE EM REDE.
Para o autor, a internet não é um projeto político de dominação do capital e da ideologia norte-americana já que desde a sua origem ela foi multinacional e aberta à autogestão. No entanto, a geografia da internet pode ser tomada sob dois pontos de vista: dos usuários – normalmente dispersos no globo – e dos provedores – concentrados nos centros de tecnologia e conhecimento mundiais. Mas de acordo com Castells, a divisão social promovida pela internet não é aquela entre quem tem e quem não tem acesso a ela, mas entre aqueles que têm condições de utilizar o conhecimento que ela disponibiliza para “aprender a aprender” e aqueles que não o têm. A partir daí, na numa nova economia, as relações econômicas mudaram com a internet.
Agora o que se expande não são mais os produtos, característica da produção fordista, mas a volatilidade do capital financeiro. Isso propicia uma nova forma de sociabilidade, não excluindo as formas antigas. A vida em rede sociabiliza preferencialmente laços sociais “fracos” como aqueles entre vizinhos ou conhecidos.
Por outro lado, os movimentos sociais ocupam a internet e globalizam suas demandas, mas “aterrizam” localmente. Isso repercute, segundo Castells, na política. Assim como acontece com os movimentos sociais, a política, ao virtualizar-se, ganha uma dimensão global, mas perde terreno regional e continua a afastar-se do cidadão. A internet é apenas um instrumento a serviço da política, não pode mudá-la, adverte o autor.
Até que ponto os governos podem controlar a internet e, nela, a privacidade de seus cidadãos? Para Castells, ela continua livre. Ao mesmo tempo, para o autor, em um mundo de interação e informação generalizada, urge ser reforçada a credibilidade dos meios de comunicação como a única forma de sobrevivência social da mídia.

Gente e mercado

Pensando a comunicação no contexto mercadológico, Franz-Oliver Giesbert (BARRET-DUCROCQ, 2004) parte dos acontecimentos de 11 de setembro para discutir a informação na sociedade globalizada. Num planeta cada vez com maior oferta de informação, tomada como mercadoria, o autor reflete sobre a necessidade de uma MÃO FRATERNA, de tolerância e respeito humano, na condução e acionamento da comunicação social no planeta.
Aproximando-me do pensamento do autor (2007B), tenho tocado na questão ao propor o conceito de CIBEREXISTÊNCIA apoiando-me no conceito de uma CIDADANIA PLANETÁRIA, a quem têm se referido pensadores como Edgar Morin e Moacir Gadotti. Penso que a dimensão ciber – as novas formas de interação possibilitadas pelas tecnologias digitais – deve nos conduzir à tentativa de valorizar a vida por meio da valorização do ser humano e do planeta.
A socióloga Dominique Scnapper discute a cidadania na era global destacando que a vida política não tem sentido apenas ao ajudar os homens a produzirem riquezas, mas deve, sobretudo, despertar e defender valores humanos.
Scnapper, articulando seu pensamento ao da filósofa Canto-Sperber, entende que nesse caminho há de ser preservada no espaço da vida globalizada uma VONTADE COMUM em que exista um LUGAR POLÍTICO de discussões públicas para o encaminhamento de uma VONTADE POLÍTICA e respeito às LIBERDADES POLÍTICAS. Segundo ela (BARRET-DUCROCQ, 2004: 79), “a política não pode consistir somente em ajudar os homens a produzir riquezas e redistribuí-las aos diversos grupos sociais; ela deve, primeiro e sobretudo, trazer consigo valores e uma vontade comuns”.
No espírito dessas contribuições, o antropólogo Harris Memel-Fotê propõe, analisa e dialoga sobre a possibilidade de o século XXI engendrar uma MUNDIALIZAÇÃO HUMANA. Aproximando-se da crítica política presente no pensamento Barber, da perspectiva humanística presente em Giesbert e denunciando as contradições econômicas e sociais da globalização, ou mundialização, como se refere ele, Memel-Fotê observa (BARRET-DUCROCQ, 2004: 314):

(...) existe outro sentido no qual a mundialização econômica pode ser humana. Sem dúvida ela não é humana naquilo que um contemporâneo denominou “o retorno da cultura recalcada”, retorno que se apresenta ou sob a forma de uma explosão identitária com purificação étnica, prática genocida ou terrorismo (Ruanda, Bósnia), ou sob a forma de integrismo religioso (islamismo na Argélia, no Sudão, no Irã, no Afeganistão, bramanismo e budismo na Índia etc.). Apesar desse caráter mortífero do despertar do recalcado, algo de humano permanece no fundo dessa barbárie: a resistência, a recusa oposta à alienação mercantil e à dominação, duas formas de expressão, uma e outra, da liberdade dos indivíduos e das coletividades e do direito deles à vida.

Resta aos profissionais de comunicação socialmente responsáveis construir esse espaço de respeito e preservação do ser humano diante das desigualdades e desumanidades geradas por um modelo de globalização em que prolifera apenas o capital de alguns poucos grupos em regiões específicas do globo. Cabe a cada um assumir no seu ofício, na profissão que escolheu, a defesa física do planeta em que vivemos e essa defesa é, mais que em qualquer outro momento da história, a defesa do ser humano.
Para isso, é preciso que tenhamos a consciência de que a melhor colaboração que podemos dar ao mundo e ao outro é a fala aberta ao diálogo, não o dogmatismo. E os meios de comunicação e seus profissionais têm também um papel especial na construção desse diálogo. Na era das tecnologias comunicacionais, a internet pode ser um espaço para fóruns de discussões locais, regionais e globais. E, na medida em que o seu uso – tanto do ponto de vista técnico como político – caminhe no sentido de uma sociedade antropolítica, como diz Morin (MORAES, 2003), ela constituirá indivíduos bem educados e bem informados.

Principais referências bibliográficas
BARRET-DUCROCQ (org). Globalização para quem?: uma discussão sobre os rumos da globalização. São Paulo: Futura, 2004.
BARBER, Benjamim. Jihad X McMundo. Rio de janeiro: Record, 2003.
BERTMAN, Stephen. Hipercultura: o preço da pressa. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da terra. Série Brasil Cidadão. São Paulo: Pierópolis, 2000.
MORAES, Denis de (org). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
MORAES JR., Enio (A). A Hipercultura e os Conflitos do Jornalismo como Espaço de Cidadania. Trabalho apresentado no XXX Congresso Intercom. 2007.
_____ (B). Ciberexistência, Comunicação, Educação. Material apostilado. São Paulo, 2007.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.

Um comentário:

Thata disse...

Nossa adorei este texto.
Professor eu fiz em versão de blog também:http://mundoemrede.blogspot.com/
se puder entre lá!
Beijos