Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Mídias Sociais: Bom negócio para a reputação das empresas

Enio Moraes Júnior e Fabiana Oliva

As mídias sociais não são, em si, uma novidade. Porém seu uso e seus recursos ainda inspiram desafios e incertezas para um mundo que ainda convive com as primeiras gerações que cresceram usando a internet e as tecnologias digitais.
O publicitário Wagner Fontoura (2008) caracteriza de forma precisa essas mídias, relacionando seu fundamental aporte tecnológico:

Mídias sociais são tecnologias e práticas on-line, usadas por pessoas (isso inclui as empresas) para disseminar conteúdo, provocando o compartilhamento de opiniões, idéias, experiências e perspectivas (e eis o seu 1º grande diferencial). Seus diversos formatos, atualmente, podem englobar textos, imagens, áudio, e vídeo. São websites que usam tecnologias como blogs, mensageiros, podcasts, wikis, videologs, ou mashups (aplicações que combinam conteúdo de múltiplas fontes para criar uma nova aplicação), permitindo que seus usuários possam interagir instantaneamente entre si e com o restante do mundo.

Articulada entre empresa-empresa, empresa-consumidor (mesmo potencialmente) e consumidor-consumidor, a comunicação mediada por essas mídias constitui redes sociais virtuais que podem significar um bom negócio tanto para as corporações como para os consumidores.

Estratégias empresariais

Um dos elementos propulsores do sucesso das mídias sociais é, certamente, a convergência midiática. Se, há poucos anos, telefone celular, rádio e televisão eram mídias distintas, de algum tempo para cá elas têm convergido cada vez mais.
O cientista Henry Jenkins (2008), do MIT (Massachusetts Institute of Technology) observa que isso tem permitido que os consumidores utilizem essas tecnologias para ter uma participação mais intensa no fluxo da comunicação, um maior controle sobre ela e uma maior interação como outros consumidores.
Ainda que as mídias sociais tenham surgido sem uma prioritária preocupação corporativa e que clientes e consumidores tenham – no bom ou no mau sentido – colocado muitas empresas nas redes sociais por meio do uso dessas mídias, o ramo empresarial tem percebido que não pode ficar fora desse universo. Mais que isso: muitas corporações e empresas de diferentes segmentos têm elaborado estratégias para atuar nesse setor.

Solução precisou vir logo

O Orkut e o YouTube ainda são as mídias sociais mais conhecidas e usadas no Brasil. Mas o Facebook e o Twitter têm também chamado atenção e sido usadas por grandes parcelas da população brasileira.
A maneira como o longa Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, ganhou recentemente repercussão na mídia, ilustra bem esse caso. Depois que o trailer promocional do filme passou a ser divulgado no YouTube, empresas começaram a procurar a produtora Pequena Central, do ator Marco Nanini e do produtor Fernando Libonati, para patrocinar o projeto.
Em entrevista ao jornal O Globo (VENTURA, 2009), o diretor afirmou que a divulgação no YouTube não foi intencional e falou da dificuldade inicial de conseguir patrocínio para o projeto, quadro que mudou a partir da divulgação nessa mídia: "Depois que as imagens foram parar no YouTube, o panorama começou a mudar. Começou um minimovimento de procura."
Em outros países, as mídias sociais também têm desbancado e inovado estratégias de empresas e negócios. Nos Estados Unidos uma famosa empresa de alimentos quase poderia ter entrado em crise quando um conjunto de funcionários divulgou no YouTube um vídeo que comprometia, do ponto de vista da higiene, o produto vendido. Os acessos e comentários ao videopost foram tantos e tão negativos para a imagem da empresa que a solução precisou vir logo.

O público-alvo

Em poucos dias, o dono da empresa postou no mesmo YouTube um vídeo reforçando sua identidade e revigorando sua a imagem. Em todo caso, foi um risco para a marca.
Esse comportamento reforça o pensamento do consultor de empresas Mario Rosa (2006: 81):

Muitas vezes não nos distanciamos o suficiente dos acontecimentos diários para perceber neles o quanto o nosso modo de ver, e de ser visto, sofreu uma poderosa transformação nos últimos anos, graças a uma combinação inédita de tecnologia disseminada, à disposição potencialmente de qualquer um de nós.

No entanto, do ponto de vista corporativo, não basta entrar na rede, apresentar-se como uma empresa ou flamular sua marca no Orkut, no YouTube, no Facebook ou no Twitter, por exemplo. É importante dizer também o que se está fazendo ali e conquistar simpatizantes e clientes para a marca.
A palavra-chave para isso é planejamento, que pode ser discutido considerando quatro etapas. Uma das primeiras ponderações que a empresa pode fazer nesse sentido é sobre o público que vai atingir. Os dados trazidos por algumas entidades, como o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.BR), permitem aferir que os usuários da internet no país, muitos dos quais transitam nessas redes sociais, são jovens de classe A e B – com um crescente aumento de usuários na classe C – e com grau de escolaridade bem amplo, que varia do ensino fundamental ao superior.

Credibilidade e confiabilidade

Conhecer mais detalhadamente esse público é um diferencial para a marca que agora busca atingi-lo. A partir daí ela pode fincar sua identidade e imagem por meio de uma agenda e de uma linguagem que o atinja.
Uma segunda questão: essas mídias sociais são extremamente interativas e pressupõem diálogo. Não adianta uma estratégia que não forneça feedback ao seu inter-agente. O diálogo é a chave desse processo. Não apenas os elogios, mas também as reclamações devem ser bem vindas. Elas devem ser lidas, ouvidas e consideradas. Muitas vezes elas podem vir de forma indireta, com textos ou vídeos contendo brincadeiras e achaques de aparente mau gosto.
A estratégia não é cerrar-se, recusar-se a analisar a mensagem. Pelo contrário, é hora de entender o que se passa com a marca. E mais: quanto mais acessos e posts de comentários apoiando a crítica, mais atenta a empresa deve ficar, avaliar o posicionamento do público e a qualidade do próprio produto ou serviço.
Em terceiro lugar, a estratégia não admite apenas que se fique no nível da crítica ou do retorno polido, por mais bem intencionado que seja. É importante que a empresa faça investimentos para melhorar o produto ou serviço e garantir a satisfação do cliente. Assim, ela reforça a credibilidade e a confiabilidade da marca. As mídias sociais, nesses casos, podem funcionar também com um bom espaço de brainstorm.

Estímulo à criação e à humanização

Por fim, é importante que as empresas atentem para o fato de que o desafio trazido pelas tecnologias não está só no seu uso, mas no que se pode aprender e construir com suas ferramentas, utilizando-as como meios de "aprender a aprender". Como afirma Roseli Figaro (2008: 11):

Trabalhar é, todo o tempo, trabalhar junto. O outro está presente seja como parceiro de trabalho, seja representado pelas normas e prescrições da hierarquia, seja pelo conhecimento técnico e tecnológico acumulado ou pela experiência registrada na linguagem.
Trabalhar é gerir o uso de si por si mesmo e de si pelo outro, estabelecendo redes de comunicação, formando laços de confiabilidade, construindo valores.

Aplicar as tecnologias e as mídias sociais no âmbito da comunicação empresarial como um estímulo à criação e à humanização. Este pode ser um dos caminhos para possibilitar à Comunicação Social e aos seus profissionais ferramentas para a construção de um melhor relacionamento entre empresas e pessoas.

Bibliografia
FIGARO, Roseli. Comunicação e Trabalho: binômio teórico produtivo para as pesquisas de recepção. XVII Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. São Paulo: Universidade Paulista, junho de 2008. Disponível aqui, acesso: 05 de junho de 2008.
FONTOURA, Wagner. A Hora e a Vez das Mídias Sociais. In: BoomBust. Disponível aqui, acesso: 02 de dezembro de 2008.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. Tradução: Suzana Alexandria. São Paulo: Editora Aleph, 2008.
ROSA, Mario A Reputação na Velocidade do Pensamento. São Paulo: Geração Editorial, 2006.
VENTURA, Mauro. "Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, causa polêmica antes mesmo da estreia". In: O Globo, 13 de maio de 2009, Disponível aqui, acesso: 07 de junho de 2009.

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Sobre as crianças do noticiário

Imagem e texto: Enio Moraes Júnior

Os grandes fraudadores não roubam dinheiros nem ouros, roubam corações, esperanças e futuros. Outro dia eu vi nos olhos do menino o olhar do futuro, do porvir. Passado pouco tempo surpreendi-me: eis que o porvir não veio, e se veio o atropelou e o atordoou com tal violência que seu olhar parecia ter secado, como secam os rios sem peixes e os peixes sem rio; como vãos são os animais sem pasto, os canaviais sem cana e as dores sem lágrimas.
Margeei-o. Cheguei perto e perguntei seu nome e ele sequer lembrava mais. Fui embora intrigado, assustado. Tempos depois não o via mais.
Sua feição parecia desaparecer, seu nome simples parecia não querer ser pronunciado e, no seu lugar, uma vastidão desmemoriada de ausências, de silêncios, de cegueiras.
Percebi que aquele ali havia partido para sempre e que o olhar do futuro fora corroído por puras ganâncias e arrogâncias. Eu lhe havia dado uns livros para que aprendesse; uns jornais para que lesse; umas músicas para que escutasse; umas sementes de girassóis para que plantasse. De nada adiantaram. Nada se fez, nada germinou.
Decepcionado, recolhi-me. Nada se fez presente; o futuro não chegou para o menino que se esfumaçava ausentando-se silencioso, cego.
Fraude.

substantivo feminino. qualquer ato ardiloso, enganoso, de má-fé, com o intuito de lesar ou ludibriar outrem, ou de não cumprir determinado dever; logro (Houaiss).

Quando pensei com atenção, o futuro que havia visto nos olhos do menino era uma grande fraude que haviam plantado sob seus pés para, iludindo o hoje, convencê-lo de que haveria futuro.
Fraude. Não sei ao certo se lhe roubam dinheiros ou ouros. Acho que nem! Mas tem que lhe tiraram os corações, as esperanças, os futuros.
Noticiário cruel! Talvez eu preferisse nem saber sobre o que me conta das crianças! Fraude.

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Murais e tudo mais






Um lugar especial para a família,
para os amigos, para as pessoas
Foto e texto: Enio Moraes Júnior





Rezo e ajo todo dia
Para que o mundo seja azul-esverdeado
Para que o sol amanheça amarelo-dourado
E que a lua anoiteça num branco-silenciado, amado

Para que todas as cores do mundo
Caibam nos nossos corações vagabundos
Para que todas as caras do mundo
Sorriam seus risos de contentamento mais profundo

Rezo e ajo todo dia
Para que a vida seja desimpedida
Para que a morte seja só uma partida-querida
Para que a felicidade seja consentida

Para que as dores do mundo
Não existam tão-mais
Para que o aprendizado
Não se faça doloroso demais

Rezo e ajo todo dia
Para que os adultos relaxem em seus sais
Para que as crianças durmam em paz
E para que você esteja sempre nos meus murais

Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Ciberexistência, comunicação, educação (Parte I)


Enio Moraes Júnior
Orkut, uma das comunidades virtuais mais acessadas no Brasil: crianças, jovens e adultos unidos em torno de discussões - muitas vezes pouco produtivas - no novo espaço público. Mas uma certeza: pessoas e vozes que se redimensionam, ciberexistem


Gostaria de começar essa nossa conversa, na qual pretendemos discutir a presença das novas tecnologias em nossas vidas, ou melhor, a presença das nossas vidas nas mídias neotecnológicas – fenômeno esse que chamo de ciberexistência – apoiando-me em três conceitos chave: cidadania planetária, mídias digitais e educação.
Em primeiro lugar, acho importante situarmos que a existência humana nesse planeta é marcada por uma única condição: a vida do próprio planeta. Temos nos deparado diariamente com esse fato nos jornais. Mas as estatísticas e prognósticos de destruição do planeta têm sido tão constantemente anunciados quanto ameaçadoras, ou melhor: responsabilizadoras.
Segundo o relatório divulgado em maio pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado à ONU, é possível deter o aquecimento global se o processo de redução das emissões for iniciado antes de 2015. De acordo com o documento, para combater o aquecimento, a humanidade terá de diminuir de 50% a 85% as emissões de gás carbônico até a metade deste século.
Ainda que existam algumas ressalvas quanto aos seus aspectos mercantilistas, o Protocolo de Kyoto, um acordo assinado por diversos países em 1997, na cidade de Kyoto, no Japão, traduz muito bem a gravidade das questões climáticas na Terra.
O documento prevê a redução de poluentes ambientais como os gases que produzem o efeito estufa, o que significa que os países têm metas de não-poluição a cumprir. Aqueles que superarem o cumprimento dessas metas podem vender parcelas excedentes aos países que ficaram abaixo das metas por meio dos créditos de carbono.
Embora haja críticas ao modo mercantil como o Protocolo trata a natureza e o planeta, uma questão tem ficado cada vez mais clara: a emergência e a consolidação daquilo que alguns autores contemporâneos têm chamado de cidadania planetária.

A cidadania planetária é condição humana atávica. O conceito perde gradativamente a sua significação inicial – cujo grande marco é a Revolução Francesa – de cidadania nacional. Embora seja nas civilizações dos gregos e dos romanos (séculos IX e VIII a.C) que a cidadania desenvolva o importante alicerce da dimensão política que encubia nobres e proprietários a participarem do destino cidade, é na Idade Moderna (séculos XIII a XVIII), com o fortalecimento dos Estados-nação, que ela ganha seu contorno mais significativo. A partir daí ela implica a defesa dos direitos humanos e da democracia, em cuja base está a nacionalidade.
Hoje, entretanto, a cidadania passa a ter uma abrangência global, sendo entendida como uma cidadania planetária. No seio dessa concepção está exatamente a concepção de que qualquer mal que seja feito ao meio ambiente, em qualquer nação ou continente, tem implicações não apenas locais, mas globais; afeta o mundo todo, o planeta. Daí falarmos numa cidadania planetária.
Por exemplo, quando nos preocupamos com a questão da Amazônia, embora haja críticas de que os reais interesses da América (dos Estados Unidos) seja com a água da região, para além disso, o mundo todo – os países da América Latina, da Europa, da Ásia e da África – estão na verdade preocupados com a preservação do meio ambiente, da fauna, da flora e como a vida e a sustentabilidade do planeta.
Segundo o relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, um dos maiores problemas do Brasil na emissão de gases é o desmatamento. Os resultados da pesquisa mostram que as queimadas conseqüentes da destruição das florestas significam 75% das emissões brasileiras.
Exercer, portanto, uma cidadania planetária é defender o planeta e isso pode ser colocado como condição atávica da existência humana acima de toda e qualquer nacionalidade.

Mas o que podemos falar sobre as mídias digitais, a globalização e a ciberexistência? Aqui chegamos num segundo ponto que, aparentemente, tem pouco a ver com esse primeiro, a cidadania planetária. Nesse momento da discussão é importante observarmos que o sentido ecológico de uma cidadania planetária irmana-se, do ponto de vista econômico, de uma polêmica globalização.
Por que polêmica? Porque se, por um lado, a globalização tem sido acusada de distanciar as pessoas no nível sócio-econômico, enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres, por outro, ela também tem nos aproximado e, por trás dessa aproximação, está exatamente o papel dos meios de comunicação, das mídias digitais e das novas tecnologias.
A globalização traz vantagens e desvantagens, e é irrefutável a idéia de que hoje nós acessamos com maior facilidade informações sobre outras regiões do país, sobre países, povos e culturas. Nesse sentido, podemos participar de forma mais articulada – no que diz respeito ao background de informação que temos – de processos ligados à defesa do outro e do planeta. Esse outro, por sua vez, deixa de ser um outro politicamente regionalizado, do mesmo país, e passa a ser um outro planetarizado, o que alguns autores têm chamado de outro-universal.

A ciberexistência implica a emergência de uma nova forma de sociedade. A possibilidade de existirmos, portanto, numa nova esfera e dimensão na vida terrena, de constituirmos paralelamente à vida social cotidiana, uma sociedade em rede, com novas formas de socialização, abre os precedentes para um novo olhar e conhecimento sobre esse outro-universal e sobre o planeta. Acho curioso que a palavra ciberexistência seja formada pelo prefixo CIBER, em inglês CYBER, que significa “piloto, dirigente” e EXISTÊNCIA, existir. Isso me leva a pensar que ciberexistir significa dirigir a própria vida ou pelo menos ter em mãos os instrumentos que possibilitem isso de forma mais efetiva.
Assim, ciberexistir é exatamente, a partir das tecnologias, especialmente da Internet, trazer a vida a uma nova dimensão informacional e cognitiva das pessoas e do mundo. Ciberexistir, portanto, deve implicar exatamente a defesa dessa condição humana que começa com a defesa da própria vida do planeta.
A ciberexistência é um conceito em que tenho pensado para entender a vida em sua dimensão contemporânea e neotecnológica. Tenho apoiado-me especialmente em dois autores. Um deles é Muniz Sodré, que no livro Antropológica do Espelho reflete sobre uma nova dimensão humana trazida pelas mídias – o bios midiático. Segundo o autor, nas sociedades contemporâneas globalizadas a mídia assumiu um poder e intensidade tais, que é por meio dela que os indivíduos relacionam-se – vinculam-se – no espaço social.
Essa vinculação, como observa o outro autor, Manuel Castells, em Sociedade em Rede, traz-nos a uma nova forma de vida social na qual estamos enredados. Um ponto importante no pensamento do autor é que a sociedade em rede é uma forma de sociedade que construímos e que vivenciamos a partir da sociedade real, física.
A ciberexistência bios midiatizada e enredada de hoje é, portanto, produto da existência física cotidiana. Não há sentido, portanto, imaginarmos e preservarmos uma vida ciber, sem preservarmos a vida física do e no planeta. Para ciberexistirmos, midiatizados e em rede, precisamos preservar a nossa própria existência terrena. Portanto, é função do ciberexistente, a defesa da sua própria condição humana de existência. E por essa defesa passa, irrefutavelmente, a defesa do planeta.

A educação e a comunicação são fundamentos da ciberexistência e da defesa da vida e do planeta. E é exatamente aí que eu chego ao terceiro ponto que gostaria de expor: como construir um caminho para que o ser ciberexistente interfira sobre o outro e sobre o planeta como defensor de uma cidadania planetária, a única que nos interessa hoje?
Talvez existam várias maneiras de se construir esse caminho, mas um parece-me essencial: por meio da intelectualidade que pode ser construída na educação e na mídia. Somente o ser intelectualizado, educado e informado, pode abandonar a acachapante leniência do ser hiperculturalizado, que é um ser apressado, superficial e individualista, e agir não apenas como consumidor de idéias e produtos, mas sobretudo como cidadão da Terra.
No começo deste mês o site americano Sience Daily, divulgou os resultados de uma pesquisa da GfK Public Affairs e da Universidade Yale que constatou que mais de 70% dos americanos estão dispostos a pagar mais impostos para custear iniciativas do governo para reduzir o aquecimento global. De acordo com o estudo, 74% dos americanos poderiam apoiar a criação de leis determinando que todas as novas casas fossem mais eficientes em termos de energia e 72% deles disseram que apoiariam um aumento nas taxas mensais sobre as residências, caso o governo passasse a subsidiar a instalação de geradores de energia solar.
Não é suficiente aos países e aos seus povos serem consumidores, é fundamental sermos cidadãos!

NOTA: As partes I e II dessa discussão correspondem a uma transcrição editada de palestra proferida pelo autor no XI Encontro de Letras da Faculdade São Bernardo do Campo (São Bernardo do Campo – SP), em 10 de outubro de 2007.

Ciberexistência, comunicação, educação (Parte II - Final)

Enio Moraes Júnior

A construção do cidadão planetário por meio da escola e da mídia: eis o ponto que considero chave da discussão sobre a ciberexistência. Claro que não aprendemos apenas na escola. A família, os amigos e a religião, por exemplo, trazem também em si formas de aprendizagem e de conhecimento, mas é à escola que tem cabido, desde os gregos, o papel institucional de motivadora, seletora, hierarquizadora e construtora desse conhecimento. Por isso, é especialmente dentro dela que gostaria de refletir com vocês a formação desse cidadão; desse cidadão planetário.
Para começar eu gostaria de fazer algumas críticas à nossa escola ocidental contemporânea, tomando como referência o seu papel motivacional, seletivo, hierarquizador e construtor.
Em primeiro lugar, suspeito que a nossa escola não motiva seus professores e muito menos, e por extensão, seus alunos. Ocorre que a motivação é algo fundamental no ensino: "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele", escreveu Arendt (FERRARI, 2004).
Penso também que o seu papel seletivo de saberes é ultrapassado, acomodado e conservador.
Entendo que a hierarquização que ela realiza em relação aos conteúdos é humanamente indulgente, preconceituoso e perverso.
Por fim, entendo que o seu produto final, o que a escola contemporânea – na maioria das vezes – tem construído são seres – e aí eu incluo não apenas alunos, mas também professores, diretores, funcionários e mais: seres humanos, de uma forma geral, já que em boa medida somos produto das escolas – lenientes; acomodados à tragédia e ao sofrimento do outro a tal ponto que sequer percebemos que esse outro somos nós mesmos.
Em outras palavras: ao invés de pessoas planetárias, a escola tem produzido – na maior parte das vezes – seres individualistas... E isso põe em risco a vida do e no planeta e arrisca também, como conseqüência, a própria vida humana.
Qual o caminho para que a escola abra-se, utilizando as novas tecnologias digitais e suas formas de existência, para a cidadania planetária? Proponho seis pistas para pensarmos e discutirmos.
Uma das questões em que tenho pensado ultimamente, um conceito sobre o qual tenho refletido nos últimos meses é o de tecno-ideologia. Parto do princípio de que cabe ao homem dominar a técnica, não o contrário.
Isso me faz lembrar o mito de Ícaro, que fala de um homem deslumbrado pela técnica a tal ponto que pensa que não é mais mortal, deslumbra-se e morre vítima da técnica, da sua falta de domínio sobre ela. Ícaro é um jovem para quem o pai, Dédalo, criara assas para que ele pudesse escapar de uma prisão injusta, mas morre vítima desse invento paterno. Da mesma forma, as novas tecnologias, produto do invento humano que pode efetivar uma nova forma de democracia e cidadania, corre o risco de implicar indivíduos que sucumbam às suas próprias redes e técnicas.
Embora hoje já estejamos falando da hiperescola, ainda que ela possa legitimar-se em breve como uma nova compreensão de educação escolar, é importante termos cuidado para que a técnica não vire ideologia. Para isso, é necessário que as escolas ensinem a técnica para que ele seja dominada, que a escola coloque o seu aluno no comando das mídias digitais: dos computadores, das máquinas digitais, da internet. Os computadores e sua rede mundial podem ter um uso positivo, cidadão, na construção de uma nova forma de vida democrática global. É disso que fala o Pierre Lévy no livro Ciberdemocracia.
Em segundo lugar, podemos pensar que a base desse conhecimento está no respeito à condição humana dentro da própria escola. Carl Rogers e Paulo Freire, dois grandes teóricos da educação do século XX, refletem muito bem sobre essa questão. Para Rogers, o ensino deve ser centrado na pessoa do estudante, mas Freire avança nesse aspecto ao entender essa centralidade também no sentido da realidade que cerca esse estudante. Assim, ambos podem ser tranqüilamente retomados no sentido de pensarmos uma educação que mobilize humanamente o que se é em nome do humano. Tornar-se Pessoa, de Rogers, e Pedagogia do Oprimido, de Freire, deveriam ser relidos com atenção para que esses ensinamentos pudessem ser aplicados hoje.
Em terceiro lugar, é importante que repensemos que conhecimento estamos construindo e para que. Em outras palavras: que mundo queremos para os próximos anos? Se pensarmos em construir pessoas para o mercado, estaremos cada vez menos construindo a vida. Pelo contrário: estaremos colocando em risco a vida do planeta. E isso é muito sério.
As estatísticas climáticas não deixam dúvida em relação a isso. O conhecimento que podemos estimular hoje faz parte de uma antropolítica em que o ser humano é colocado acima dos interesses mercadológicos. Edgar Morin tem falado muito sobre essa questão, sobretudo no livro Os sete saberes necessários à educação do futuro.
Em quarto lugar, é hora de repensarmos, problematizarmos a educação. E problematizá-la é exatamente problematizarmo-nos. A educação, meus caros, não está fora de nós, ela sempre esteve – como de certa forma já nos alertaram Rogers e Freire – aqui perto, dentro de nós.
Se não olharmos para nós mesmos, jamais estaremos olhando para modelos ou tentativas assertivas de educação. Nesse sentido, é fundamental que nos reconheçamos, nos aceitemos, nos respeitemos e nos amemos na nossa diversidade de credos, orientações sexuais, culturais etc. É o que Muniz Sodré trata como o ‘infinitamente diverso’ em A ignorância da diversidade.
A ignorância está vinculada a um conceito de verdade diante da qual tudo se classifica e existe. O que destoa dela deve ser excluído. Em outras palavras: pensar a educação como algo que vem de dentro é pensar em incluir o outro, o outro-planetário, na sua infinita diversidade, ao invés de excluí-lo.
Em quinto lugar, é importante darmos à educação o seu inestimável papel nos processos de socialização humana e sustentabilidade planetária. Ela está no começo de tudo. O homem sem a intelectualidade para compreender a complexidade do mundo é um homem que não compreende também a necessidade de defesa do planeta e da vida. Esse homem forma-se exatamente na escola. Os demais processos, como a midiatização, a participação política e sua intervenção no mundo através do trabalho são – e aqui eu aproprio-me e parodio uma reflexão do canadense Marshall McLuhan: esses processos são extensões do que somos, e o que somos é, fundamentalmente, extensão da educação que temos.
Por fim, uma outra questão para a qual merece ser chamada atenção diz respeito ao diálogo. Tudo, absolutamente tudo que dizemos, que escrevemos, são pontos de vista. Então, o conhecimento deve ser permanente, em perspectiva, um “vir a ser” constante. Para isso, é preciso que tenhamos a consciência de que a melhor colaboração que podemos dar ao outro e ao mundo é a fala aberta ao diálogo, e não o dogmatismo. Isso é fundamental para a educação: abertura, diálogo.
A os meios de comunicação têm também um papel especial na construção do diálogo. Na era das tecnologias comunicacionais, a internet deve ser um espaço para fóruns de discussões locais, regionais e globais. E, na medida em que o seu uso – tanto do ponto de vista técnico como político – caminhe no sentido de uma democratização, de realização de uma ciberdemocracia constituída por indivíduos formalmente educados e bem informados. Eis aí, cidadãos planetários, a nossa responsabilidade.

A dimensão ciber deve nos conduzia à tentativa de valorizar a vida por meio da valorização do ser humano e do planeta. A ciberexistência só tem sentido se pensarmos na existência. As novas tecnologias não podem ser pensadas sem pensarmos também na própria vida humana e na vida do planeta. A educação e a comunicação para uma cidadania planetária são o caminho para potencializarmos esse engenho humano na defesa do próprio homem. Nesse sentido, à escola e aos meios de comunicação cabem algumas tarefas. Cabe-lhes desfazer os riscos da tecno-ideologia, potencializar o humano, questionar o conceito de conhecimento e o significado da educação, considerar a educação a base do que somos e valorizar o diálogo, valorizando também, nesse contexto, o papel da comunicação social e das novas mídias.

Referências bibliográficas
BERTMAN, Stephen. Hipercultura. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
_____. Internet e sociedade em rede. In: MORAES, Denis de (org). Por uma Outra Comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
FERRARI, Márcio. Hanna Aredt: uma defensora da autoridade em classe. Revista Nova Escola. Ed. 169. janeiro / fevereiro 2004. Disponível em: http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/169_fev04/html/pensadores. Acessado em 21 de julho de 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LÉVY, Pierre. Ciberdemocracia. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
_____. Pela ciberdemocracia. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
_____. Por uma mundialização plural. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
_____. Educação na Era Planetária. Coleção ‘Universo do Conhecimento’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 50 min.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.
SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho. Petrópolis: Vozes, 2002.
_____. A ignorância da diversidade. Coleção ‘A invenção do contemporâneo’. Série ‘As novas ignorâncias’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 48 min.

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

O tamanho do mundo, café e torta de chocolate



Enio Moraes Júnior


Um dia desses fui visitar um casal de amigas, a Karen e a Alê. Uma delas, a Karen, tem uma filhinha, Juliana, a Ju, de mais ou menos cinco anos de idade. Elas estavam na cozinha passando um café e me deixaram na sala proseando com a Juliana.
Conversa vai, conversa vem, eu falava dos meus planos de férias e de algumas viagens quando de repente, intempestivamente, fui interpelado pela Ju:

- Mas qual é o tamanho do mundo?

Congelei. “Criança tem cada pergunta!”, pensei comigo e fiquei imaginando o que responder. Resolvi desconversar, enrolar a pobrezinha:

- Ah, Ju, o mundo é grande, muuuuito grande.

Disse isso meio sem certeza de que estava dando a resposta certa. Em poucos segundos minha desconfiança foi confirmada: a menina fitava-me com um olhar inquisidor como quem devia estar pensando: “Mais um adulto que não sabe de nada... Mais um adulto que me decepciona...”.
Enquanto sentia o cheiro do café que vinha lá de dentro, pensei em buscar na Internet um número, uma proporção, mas achei que não era um dado como esse que estava em questão. Afinal, eu e aquela menina não estávamos discutindo ciências exatas, mas filosofávamos. Respirei fundo e tentei novamente:

- O mundo é do tamanho das coisas que a gente conhece.

Os olhos da Ju brilharam, sua boca ficou entreaberta. Por alguns instantes pensei que vinha uma nova inquietação... E veio:

- Ah! Então é por isso que a gente precisa saber das coisas?

Ufa! Fiquei aliviado e feliz porque havia conseguido entrar naquele universo tão peculiar que é o universo de uma criança de cinco e poucos anos e me fazer entender:

- É isso mesmo, quanto mais a gente conhece as coisas, os lugares e até as pessoas, maior o mundo fica.
- Então quando eu ficar grande como você o mundo vai ser maior?
- Vai.
- Mesmo?

Ela franziu a testa, colocou uma mão nos quartos, mordeu os beiços como quem pensa: “eureka!” e ficou me olhando. Eu também a olhava ali, naquele momento de descoberta, até que fomos interrompidos pela Karen:

- Enio, o café tá pronto! Traz a Ju que tem torta de chocolate também.

Naquela cozinha eu e a Ju tínhamos três certezas: a de que havíamos criado uma cumplicidade ao compartilharmos nossas idéias sobre o tamanho do mundo, a de que os nossos mundos, a partir daquela conversa, haviam se tornado maiores e uma terceira certeza: café com torta de chocolate num final de domingo chuvoso, acompanhado de bons amigos, é uma maravilha!

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

Para preparar uma aula de amor

Vencendo paradigmas, a educação deve ser um bom casamento a três: professor, aluno e escola (Imagem: reprodução fotográfica de obra de arte)


Enio Moraes Júnior


“O que é necessário, hoje em dia, para preparar uma boa aula?”, resmungou uma colega, professora de um curso de graduação em Comunicação Social em São Paulo. E continuou: “Já tentei de tudo e aqueles alunos não conseguem se interessar”. Ela relatava que já havia levado vídeos, fotos, jornais e cases publicitários para analisar em sala de aula e nada: nenhum fiozinho de resposta, de agrado.
Mas como era apenas um desabafo, deixei que ela falasse, ouvi atentamente. Despedimo-nos e seguimos nossos caminhos para as aulas do segundo horário. Mas não tirei aquele desabafo, aquela inquietação da cabeça.
Pensei que as novas tecnologias, o novo mundo, têm ensejado muitas discussões sobre o novo perfil do aluno, as novas práticas docentes: discutem-se do valor da imagem ao do uso da internet; do poder da interatividade ao uso de recursos multimídia em sala de aula. Mas o fato é que muito pouco tem sido discutido a respeito do professor.
Quem é esse profissional, como ele deve preparar-se para os desafios de novas concepções pedagógicas e didáticas? Que crises ele enfrenta e como isso interfere – e ao mesmo tempo é interferência – da relação que ele estabelece com os aluno e com a escola (donos, diretores etc)? Afinal, o processo ensino-aprendizagem é uma via de muitas mãos, e os todos os lados têm que estar em sintonia.
Além disso, qual o acesso que os professores têm às novas tecnologias de comunicação e de informação, hoje tão celebradas em sala de aula? Como as escolas – sejam públicas ou privadas, de ensino fundamental, médio ou superior – têm estimulado no professor esse novo perfil? Qual o suporte material e profissional que elas têm dado aos seus docentes?
Com base nas conversas que tenho tido com alguns professores e com alunos de pós-graduação, que também são professores – para quem ministro aulas de Educação e Tecnologias da Comunicação em algumas escolas em São Paulo –, arrisco uma resposta: os professores, sobretudo os das escolas públicas, têm pouco ou nenhum acesso às novas tecnologias e as escolas, sejam públicas ou privadas, têm negligenciado as condições técnicas e materiais desse acesso aos docentes.

Autocrítica, aprendizagem, articulação – Retomando o desabafo da minha colega, diria que, hoje em dia, para se preparar uma boa aula é necessário autocriticar-se, aprender sempre e articular forças.
Autocriticar-se é pensar que os tempos estão mudando e que precisamos mudar também, é estar insatisfeito e lidar com isso – talvez seja nessa etapa que esteja minha colega. Mas essa inquietação deve ser percebida e trabalhada de forma positiva, propositiva. Algo de útil deve ser feito com ela, e o melhor a fazer é aprender...
Na sociedade do conhecimento, lidar com as mudanças é aprender a mudar, é assumir que o aprendizado não tem fim, é e deve ser permanente. Mas nesse caminho, é preciso articular outros atores. Os alunos e as escolas têm que ser chamados a assumir suas tarefas, seu compromisso e responsabilidade com a aprendizagem.
Cabe ao aluno ser parceiro do professor na construção das “boas aulas”, mas para isso ele precisa ser convidado, estimulado, por esse professor, a tomar parte nesse processo. Além disso, cabe às escolas realizar investimentos não apenas em tecnologias, mas na aprendizagem e adaptação do professor, para que isso possa retornar ao aluno.
Mas não se pode perder de vista que a palavra educação – que vem do latim educãre (alimentar, criar) e educere (conduzir para fora, tirar) – continua remetendo a um estímulo (alimento) para trazer à tona (condução). Por isso, seja no pensamento dos clássicos greco-romanos, de autores mais recentes, como Carl Rogres ou até mesmo Paulo Freire e Edgar Morin, o ato educativo continua a merecer um ingrediente fundamental das boas receitas: amor.
Mas ressalte-se: não o amor piegas que leva ao comodismo ou à leniência, mas o amor do compromisso com o outro, com o outro-universal, como diz Morin. Esse amor, que é amor-compromisso, amor-responsabilidade, também não é unilateral, não pode ser uma tarefa árdua e sofrida que cabe ao professor.
Trata-se de um amor que precisa ser, na mesma medida, correspondido. É também compromisso e responsabilidade do aluno e da escola que o acolhe para a tarefa que, em tese, lhe é confiada: ensinar. Juntas, articulados no amor-compromisso e no amor-responsabilidade, professores, alunos e escolas encontrarão, inquietos e criativos, o melhor caminho para preparar uma boa aula.

Terça-feira, 11 de Março de 2008

A vida simples de algum lugar




Os cavalos, parte do trabalho de Capilé: o cotidiano do interior traduzido no artesanato
(Foto: Enilson Vieira Moraes)


Enio Moraes Júnior

Ofício que “eles ‘aprendero’ com os pais e ‘ensinaro’ pros fios”, as marcas da cultura ceramista estão por toda a cidade. Quilos e quilos de argila úmida transportada em dezenas de carroças puxadas por jegues ou cavalos circulam pela cidade enquanto as janelas das casas se abrem, muitas delas já com esculturas à mostra, para mais uma sexta-feira de trabalho e comércio. Assim é o amanhecer do dia, ainda cedo, pouco mais de cinco da manhã, na pacata cidadezinha do Nordeste brasileiro.
Santana do São Francisco é uma pequena cidade do interior sergipano, com uma população estimada em 6.323 habitantes (dados do IBGE) que vivem basicamente dos recursos oferecidos pelas águas do rio São Francisco. A cidade, que até 1992 chamava-se Carrapicho, está localizada na região do Baixo São Francisco e desenvolve atividades como a pesca e a agricultura, mas “tem nada” que a faça mais conhecida nacionalmente que a sua produção artesanal de cerâmica de barro.
Sandro de Zequinha, Capilé, Maria, José, João e mais uma dezena de artesãos colocam, de fato, a mão na massa e dela criam, esculpem e reinventam, cada um a seu jeito, com seu talento, as suas próprias peças.

- Mas ‘coidado’, moço!, advertiu-me uma senhora robusta, de roupas simples, mas bem arrumada, a quem pedi informações sobre os ceramistas da cidade. “É que aqui tem muito ‘cabra’ que gosta de copiar ‘as invenção’ dos outros. E isso já me disseram que ‘num’ é arte”.

Numa das primeiras casas visitadas, vejo que crucifixos, imagens de Nossa Senhora Aparecida e de São Jorge dividem a mesma prateleira com esculturas de Oxum e de Oxossi. Todos eles, por sua vez, num mesmo móvel ao lado de canecas de cerveja cinzeiros, vasos para flores e oferendas.

- Bata palma aí que ela aparece, disse a senhora que havia advertido sobre os copiadores e me acompanhou por todo percurso que fiz na cidade, embora não quisesse dizer o nome ou o que fazia ali.
- Acho que não tem ninguém. Saíram e deixaram a porta aberta. Como pode?
- Aqui ‘tem problema isso não, homi’. Depois você volta.

Assim é a vida em Santana, sem grandes segredos. Alguns cidadãos ganham a vida com o transporte da argila ou da lenha utilizadas na produção da cerâmica, enquanto outros comercializam o artesanato nas próprias casas, muitas delas transformadas em oficinas. Mas o que chama mesmo a atenção é o trabalho cuidadoso dos artesãos que dão forma à argila e solidificam a história, a beleza e as angústias do povo ribeirinho que vive às margens do São Francisco.

- Ô de casa, chego batendo palmas e anunciando minha entrada casa à dentro.

Concentrado no trabalho de molda das peças, que parece pesado e exige paciência, Sandro de Zequinha olha com a cabeça levemente abaixada e a testa franzida:

- Pois não?

Herdou a profissão de artesão do pai, com quem trabalha em uma das oficinas da cidade. Tem quarenta anos de idade, que parecem bem menos, embora isso possa contradizer as possibilidades de danos físicos de um trabalho num local abafado e insalubre. “É que aqui eu trabalho com a natureza”, justifica.
Sandro passa cerca doze horas por dia moldando peças que depois de trabalhadas são colocadas em um forno à lenha para queimar e finalmente serem pintadas. “Não tem barro melhor do que esse daqui não. Ele é macio, olhe só” – diz, revirando a argila. “É bom para queimar e para pintar. No Brasil não há igual”.

- Mas o que você conhece do Brasil; da argila dos outros lugares?
Ele desconversa:
- Nada, quer dizer, quase nada, o pessoal é que fala...

Meio ambiente - Embora emblemática da relação que o homem ainda pode manter com a natureza, a relação entre o São Francisco e a população de Santana do São Francisco tem hoje uma grande ameaça: a degradação do rio e do meio ambiente. O receio dos ambientalistas é que esse processo comprometa a cultura e a sobrevivência de populações que utilizam o seu potencial.
Mas segundo a Prefeitura, que contabiliza que cerca de 60% da população vive do artesanato, está em negociação a elaboração de um projeto em parceria com órgãos como o Departamento de Engenharia Agronômica (DEA) da Universidade Federal e Sergipe e o Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para a plantação de eucalipto para ser usado na queima do barro nas proximidades do município. O objetivo é baratear os custos e minimizar as conseqüências da extração de lenha das matas ciliares.
“Dizem que isso aqui ‘tá tudo acabando’, mas ‘sei não’, a gente sempre dá jeito de seguir na caminhada”. Mas o fato é que de todas as implicações da produção artesanal de Santana, o impacto ambiental da retirada de argila também seja uma preocupação presente entre os artesãos locais. Segundo o presidente da Associação de Artesãos de Carrapicho, Edílson Fortes, há, sim, retirada da lenha de áreas de preservação. “Temos receio da situação que estamos criando para nós e para o rio, mas estamos trabalhando em cima das nossas necessidades”, diz com a experiência, a sobriedade e a preocupação de quem, aos 55 anos, conta também outros 55 de lida com a cerâmica e a argila do São Francisco.
Edílson está otimista com a parceria entre a Prefeitura e os professores da Universidade. Acha que tudo pode ser resolvido e que os artesãos podem colaborar. Despeço-me e volto à casa em que havia ido no começo da manhã.

- Bata palma de novo que ela aparece.

Um jovem senhor, de olhar simples mas passos firmes, vem até a parte da frente da casa. Wilson de Carvalho, o Capilé, tem 38 anos e é provavelmente o mais conhecido artesão santanense. Hoje, com o uso da lenha, ele garante uma renda mensal de 600 reais é contra a devastação e a favor dos projetos de reflorestamento de eucaliptos, mas reclama da burocracia. “Minha preocupação é que esse projeto fique engavetado. Se não for tomada uma posição de maior respeito e consciência, a idéia não vai adiante”.
Gostei da sua ponderação, gostei do povo santanense e da sua arte. Do lado de fora da porta, o movimento das pessoas nas ruas havia acalmado, já era quase hora do almoço e lembrei-me que uma das regras das cidades do interior é refeição com hora marcada.

- Interessante esse povo daqui, esse povo do barro!, observei pensando que falava comigo mesmo, mas tive resposta:
- Tudo isso é coisa que “eles ‘aprendero’ com os pais e ‘ensinaro’ pros fios, respondeu-me a senhora que ainda permanecia atrás de mim.

Olhei com um ar de curiosidade, e ela continuou:

- Assim é a vida de todo lugar, ‘né não’?, falou batendo em retirada, com as mãos cruzadas sobre a região lombar, como fazem as pessoas simples depois de uma tarefa concluída. Era como se a minha surpreendente companheira de reportagem soubesse que o nosso trabalho tivesse terminado.
Era quase meio-dia e o sol insistia em brilhar. Se assim é a vida em todo lugar eu não saberia, àquela hora, argumentar, mas certamente gostaria que a vida naquela cidadezinha às margens do São Francisco continuasse a ser vivida assim, com a sabedoria, a coragem e a simplicidade daqueles artesãos e daquela senhora.

(Matéria reeditada a partir de reportagem original deste autor publicada na revista Com Ciência Ambiental).