segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Os direitos humanos e a diversidade na comunicação neotecnológica global (Parte 02)


Enio Moraes Júnior



Segundo o relatório divulgado no início deste ano pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado à ONU, é possível deter o aquecimento global se o processo de redução das emissões for iniciado antes de 2015. De acordo com o documento, para combater o aquecimento, a humanidade terá de diminuir de 50% a 85% as emissões de gás carbônico até a metade deste século.
Ainda que existam algumas ressalvas quanto aos seus aspectos mercantilistas, o Protocolo de Kyoto, um acordo assinado por diversos países em 1997, na cidade de Kyoto, no Japão, traduz muito bem a gravidade das questões climáticas na Terra. Embora haja críticas ao modo mercantil como o Protocolo trata a natureza e o planeta, uma questão tem ficado cada vez mais clara: a emergência e a consolidação daquilo que alguns autores contemporâneos têm chamado de cidadania planetária.
Nesse novo contexto global, a existência humana na Terra é marcada por uma única condição: a vida do próprio planeta. Temos nos deparado diariamente com esse fato nos jornais e as estatísticas e prognósticos de destruição do planeta têm sido tão constantemente anunciados quanto ameaçadoras, ou melhor: responsabilizadoras.
Embora seja na civilização dos gregos e na dos romanos (séculos IX e VIII a.C) que a cidadania desenvolva o importante alicerce da dimensão política, é na Idade Moderna (séculos XIII a XVIII), com o fortalecimento dos Estados-nação, que ela ganha seu contorno mais significativo: a defesa dos direitos humanos e da democracia, em cuja base está a nacionalidade.
Hoje, entretanto, a cidadania passa a ter uma abrangência global, entendida numa perspectiva planetária. No seio dessa concepção está exatamente o entendimento de que qualquer mal que seja feito ao meio ambiente, em qualquer nação ou continente, tem implicações não apenas locais, mas globais; afeta o mundo todo, o planeta.
Exercer, portanto, uma cidadania planetária é defender o planeta e isso pode ser colocado como condição atávica da existência humana acima de toda e qualquer nacionalidade. Essa concepção tem uma relação muito próxima com o conceito de globalização.
A conhecida globalização econômica e suas conseqüências trazem vantagens e desvantagens. Embora persistam a pobreza e uma má e injusta distribuição de renda no planeta, é irrefutável a idéia de que hoje nós acessamos com maior facilidade informações sobre outras regiões do país, sobre países, povos e culturas. Nesse sentido, podemos participar de forma mais articulada – no que diz respeito ao background de informação que temos – de processos ligados à defesa da Terra e do outro. Esse outro, por sua vez, deixa de ser um outro politicamente regionalizado, do mesmo país, e passa a ser um outro planetarizado, o que alguns autores têm chamado de outro-universal.

Ciberexistência e respeito à diversidade
O outro-universal é, por sua vez, todos os outros; a própria diversidade humana. A possibilidade de existirmos, portanto, numa nova esfera e dimensão na vida terrena, de constituirmos paralelamente à vida social cotidiana, uma sociedade em rede, com novas formas de socialização, abre os precedentes para um novo olhar e conhecimento sobre esse outro-universal, sobre a diversidade humana e sobre o planeta.
É especialmente curioso que a palavra ciberexistência seja formada pelo prefixo CIBER, em inglês CYBER, que significa “piloto, dirigente” e EXISTÊNCIA, existir. Isso pode indicar que ciberexistir significa dirigir a própria vida ou pelo menos ter em mãos os instrumentos que possibilitem isso de forma mais efetiva. Assim, ciberexistir abre novos precedentes para, a partir das tecnologias, especialmente da internet, trazer a vida a uma nova dimensão informacional e cognitiva das pessoas e do mundo. Ciberexistir, portanto, deve implicar exatamente a defesa dessa condição humana que começa com a defesa da própria vida do planeta.
A ciberexistência é um conceito no qual tenho pensado para entender a vida em sua dimensão contemporânea e neotecnológica. Tenho apoiado-me especialmente em dois autores. Um deles é Muniz Sodré, que no livro Antropológica do Espelho reflete sobre uma nova dimensão humana trazida pelas mídias – o bios midiático. Segundo o autor, nas sociedades contemporâneas globalizadas a mídia assumiu um poder de intensidade tal que é por meio dela que os indivíduos relacionam-se – vinculam-se – no espaço social.
Essa vinculação, como observa o outro autor, Manuel Castells, em Sociedade em Rede, traz-nos a uma nova forma de vida social na qual estamos enredados. Um ponto importante no pensamento do autor é que a sociedade em rede é uma forma de sociedade que construímos e que vivenciamos a partir da sociedade real, física.
A ciberexistência “bios midiatizada e enredada” de hoje é, portanto, produto da existência física cotidiana. Não há sentido, portanto, em imaginarmos e preservarmos uma vida ciber, sem preservarmos a vida física do e no planeta. Para ciberexistirmos, midiatizados e em rede, precisamos preservar a nossa própria existência terrena. Portanto, é função do ciberexistente, a defesa da sua própria condição humana de existência. E por essa defesa passa, irrefutavelmente, a defesa do planeta.
É importante darmos à educação e à comunicação o seu inestimável papel nos processos de socialização humana e sustentabilidade planetária. O homem sem a intelectualidade para compreender a complexidade do mundo é um homem que não compreende também a necessidade de defesa do planeta e da vida. Esse homem forma-se exatamente na escola e nos processos midiáticos. Os demais processos, como a participação política e a intervenção no mundo através do trabalho são – parodiando uma reflexão do canadense Marshall McLuhan – extensões do que somos, e o que somos é, fundamentalmente, extensão da educação e da informação que temos.
Tudo, absolutamente tudo que dizemos, que escrevemos, são pontos de vista. Então, o conhecimento deve ser permanente, em perspectiva, um “vir a ser” constante. Para isso, é preciso que tenhamos a consciência de que a melhor colaboração que podemos dar ao outro e ao mundo é a fala aberta ao diálogo, e não o dogmatismo.
A mídia e a comunicação neotecnológica têm também um papel especial na construção do diálogo fundamentado no respeito à diversidade humana. Na era das tecnologias comunicacionais, a internet deve ser um espaço para fóruns de discussões locais, regionais e globais. E, na medida em que o seu uso – tanto do ponto de vista técnico como político – caminhe no sentido de uma democratização, de realização de uma ciberdemocracia constituída por indivíduos formalmente educados e bem informados.
A dimensão ciber deve nos conduzia à tentativa de valorizar a vida por meio da valorização do ser humano e do planeta. A ciberexistência só tem sentido se pensarmos na existência. As novas tecnologias não podem ser pensadas sem pensarmos também na própria vida humana e na vida do planeta. A educação e a comunicação para uma cidadania planetária são o caminho para potencializarmos esse engenho humano na defesa do próprio homem e da sua diversidade.

Referências bibliográficas
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
_____. Internet e sociedade em rede. IN: MORAES, Denis de (org). Por uma Outra Comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
LÉVY, Pierre. Ciberdemocracia. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
_____. Pela ciberdemocracia. IN: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho. Petrópolis: Vozes, 2002.
_____. A ignorância da diversidade. Coleção ‘A invenção do contemporâneo’. Série ‘As novas ignorâncias’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 48 min.

2 comentários:

Joana disse...

Olá Enio. Parabéns pelo blog!!!
Estou me formando em jornalismo e gostaria de pedir sua autorização para a utilização de 2 artigos seus, publicados no Observatório, na revista-convite da minha formatura. Meu e-mail para contato é juboeno@yahoo.com.br.

Obrigada!

µßio disse...

Muy interesante.
Sobre los derechos humanos,
también tenemos que trabajar en España
y sobre eso he escrito una líneas.
que espero sean de su agrado
¡Saude!