segunda-feira, 13 de março de 2006

Jornalismo brasileiro é uma boa pauta para o cinema nacional

Enio Moraes Júnior

Eis um casamento que deu certo: jornalismo e cinema. Desnecessário faz-se falar de produções clássicas como “Cidadão Kane” (Citzen Kane, EUA/1941), que imortalizou o nome de Orson Wells, que produziu, dirigiu e protagonizou o filme baseado na vida do magnata e empresário de comunicações norte-americano William Randolph Hearst, e “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole, EUA/1951), produzido e dirigido por Billy Wilder e estrelado por Kirk Douglas no papel do ambicioso jornalista Charles Tatum, que transforma um pequeno incidente numa mina de carvão no Novo México (EUA) numa chance de ganhar dinheiro e prestígio.
No final dos anos 90, filmes como “O Informante” (The Insider, EUA/1999), de Michael Mann, e “O Quarto Poder” (Mad City, EUA, 1997), de Costa-Gravas, não deixam dúvidas sobre isto. O primeiro, baseado numa história real ocorrida em 1994 e com irrepreensíveis atuações de Al Pacino e Russel Crowe, conta o drama do jornalista Lowell Bergman (Pacino) e do ex-executivo da indústria de tabaco Jeff Wigand (Crowe) ao se verem envolvidos em conflitos morais e éticos ao tentar denunciar pela rede CBS que a empresa de cigarros está colocando substâncias cancerígenas em seus produtos.
“O Quarto Poder”, com o também sempre bom Dustin Hoffman e John Travolta, leva o telespectador até o museu de uma cidade do interior do EUA, Madeline, para mostrar como, para alguns profissionais da imprensa, um dia normal e sem novidades pode transformar-se num redemoinho quando um repórter – Max Brackett (Hoffman) – resolve usar um incidente na vida de um homem comum – Sam Baily (Travolta) – em benefício de sua carreira.
Neste início de 2006 o cinema americano nos brinda com outras duas boas pérolas da união jornalismo e cinema. “Capote” (Capote, Canadá - EUA/2005), de Bennet Miller, e “Boa Noite, Boa Sorte” (Good Night, Good Luck, EUA – Japão – França - Inglaterra/2005), de George Clooney. Ambos inscrevem-se numa leva de filmes que estão sendo produzidos em Hollywood e que sutilmente abordam uma marca constante entre os americanos nestes tempos pós-11 de setembro e “caça ao terror”. Há, nos EUA e no resto do mundo, uma questão no ar: será que estamos certos? Estamos, de fato, tornando o mundo melhor?
“Capote” e a excelente interpretação de Philip Seymour Hoffman permitem aos jornalistas colocar na balança o que é mais importante: seu compromisso consigo e com sua carreira ou com o interesse público? “Boa Noite, Boa Sorte”, uma prova da qualidade do trabalho de Clooney, vai na mesma linha apresentando os entraves da CBS contra o macartismo tendo à frente o jornalista Edward R. Murrow, reforçado por uma trilha sonora de alta qualidade.
A verdade é que tanto “Capote” quanto “Boa Noite”, ao trazerem à tona jornalistas, políticos e empresários, ressuscitam fantasmas e histórias parecidas com os de Kane (“Cidadão”) e Tatum (“Montanha”) também trazidos à baila pelos personagens Brackett e Baily (“Quarto”) e Bergman e Wigand (“Informante”). É como se as discussões sobre ética e dever da imprensa nunca tivesse abandonado o espaço privilegiado dos debates norte-americanos sobre a vida em sociedade.
Talvez se esse tipo de produção estrangeira inspirasse a levar às telas do cinema brasileiro as proezas e os conflitos do jornalismo nacional, a nossa sociedade se tornasse mais afinada e informada sobre o papel do jornalismo e, por outro lado, fizesse os jornalistas pensarem e ficarem em alerta sobre seus compromissos com o público. Ao longo desses séculos de jornalismo, temos muita coisa ruim a ser denunciada, mas ao mesmo tempo, muita coisa boa a ser mostrada.
Obviamente, existem algumas produções que podem ser aqui ser mencionadas. “Vlado – 30 Anos Depois” (Brasil, 2005), de João Batista de Andrade, é um exemplo. O filme tem, sem dúvida, um valor inestimável e no que pretende ser – documentário – funciona muito bem. Mas é o povo, a sociedade brasileira que precisa se ver na tela grande, interagida com o jornalismo.
Uma experiência neste sentido é o premiado “Cidade de Deus” (Brasil/2002), de Fernando Meirelles, que conta a história do jovem Buscapé (Alexandre Rodrigues) que encontra no fotojornalismo uma forma de sobreviver e denunciar as mazelas da violenta vida numa favela carioca. No entanto, os exemplos de roteiros baseados em fatos reais, ainda são raros e por isso, a força do debate sobre o jornalismo nacional, ainda é pouco expressiva.
Por outro lado, a literatura nacional parece que já há algum tempo se deu conta do espaço e da possibilidade dessa discussão. Só para citar alguns exemplos, “Minha Razão de Viver” (Ed. Record, 1987), de Samuel Weiner, que conta a trajetória do jornal Última Hora e suas relações com o governo Vargas na primeira metade do século XX e, mais recentemente, “10 Reportagens que Abalaram a Ditadura” (Ed. Record, 2005), organizado por Fernando Molica e com reportagens de jornalistas como Luiz Cláudio Cunha e Ricardo Kotscho, produzidas nos anos militares, mostra a corajosa luta travada pelo jornalismo investigativo contra a ditadura.
O livro “Dossiê Herzog: Prisão, Tortura e Morte no Brasil”, de Fernando Pacheco Jordão (Ed. Global, 2005), lançado inicialmente em 1979, pode ser uma interessante inspiração para adaptação de um roteiro sobre a vida e a luta do jornalista Vladimir Herzog, este iugoslavo naturalizado brasileiro morto covardemente aos 38 anos pela ditadura militar em 1975.
A literatura nacional tem nos contado muitas histórias sobre jornalistas e jornalismo. E o cinema brasileiro, a exemplo do que vem fazendo o cinema norte-americano, precisa cantá-las também, estimulando um debate sobre a imprensa local, seus nomes, seus acertos e seus erros. Neste último caso, esclarecer na telona o desleixo da imprensa no caso Escola Base poderia ser (entre outros) um bom começo. Alguém se habilita?

Um comentário:

Rafael Stemberg disse...

Realmente, cinema e jornalismo são um casamento perfeito.E o texto mostra todas as peculiaridades desta parceria.
Parabéns, o blog está ótimo.