quinta-feira, 13 de abril de 2006

Ensinar cidadania é ultrapassar as “grades” curriculares

Enio Moraes Júnior

O princípio da cidadania contemporânea está a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, produto das revoluções Inglesa, Americana e Francesa do século XVIII e fundamenta-se na formação dos Estados-nacionais. Hoje, no entanto, uma discussão que vem avançando diz respeito à cidadania planetária, que implica numa noção de comunidade e interação mundial em que todas as pessoas são responsáveis pelo futuro e pela vida do planeta. Assim, a cidadania ganha uma nova dimensão e passa, ainda que seja também nacional, a ser global, universal.
Ser cidadão não é apenas pertencer a uma nação, mas ter consciência de fazer parte do destino do mundo e, por isso, ter compromissos e responsabilidades com ele, seja em seus aspectos polícias, sociais ou ambientais. A cidadania implica, assim, numa interação constante e incessante entre direitos e deveres de cada indivíduo para consigo, para com o outro e para com o planeta.
Embora possa ser discutida e estimulada no espaço familiar, nas relações sociais, pelos veículos de comunicação etc., a cidadania tem na escola um importante campo de discussão. No caso específico da formação superior do jornalista, embora os currículos universitários contemplem o assunto e conceitos correlatos como direitos humanos, democracia, ética e responsabilidade social, um dos aportes mais importantes da formação cidadã está na relação que os professores estabelecem com os alunos. Foi isto que revelou a pesquisa que resultou na dissertação de mestrado A Formação Cidadã do Jornalista no Brasil, que acabo de concluir na Escola de Comunicações e Artes – ECA – da Universidade de São Paulo.
O estudo de caso da formação de estudantes de Jornalismo da ECA indicou que cidadania é mais que um conteúdo a ser ensinado curricularmente: ela é trabalhada principalmente nos referenciais pedagógicos, na didática e, enfim, na relação que o docente estabelece com seus alunos.
O cientista norte-americano Carl Rogers, que em suas pesquisas uniu psicologia e educação, já falava, nos anos 60, sobre o ensino centrado no estudante. Para ele, o aluno não poderia ser visto pelo professor como um copo vazio. Com uma clara sintonia com o pensamento de Paulo Freire, a educação rogeriana potencializa os conhecimentos e as experiências do educando.
Para Rogers, o processo de aprendizagem pode ser facilitado se o professor for ‘congruente’. Ou seja, implica que ele tenha uma consciência plena das atitudes que assume. Numa perspectiva rogeriana, portanto, o professor não seria um exercício abstrato das exigências curriculares ou um canal através do qual o saber passa através das gerações.
Tanto para Freire como para Rogers, o docente não pode ser um mero instrumento de aplicação do currículo, mas um sujeito ativo e coerente com o que ensina e comprometido com um projeto de formação que respeita o educando. A educação tomada nesse sentido tem potencializado a formação de jornalistas comprometidos com os direitos humanos, com o planeta e, sobretudo, responsáveis por sua formação e por sua carreira. Esse é, de forma geral, o melhor caminho para a formação de pessoas críticas e cidadãs.
O contrário disso seriam reprodutores das exigências de mercado incapazes de esboçar críticas à ideologia dominante e defender os interesses, de fato, públicos. Eis a pior prática do jornalismo: não aquela que corrompe propositalmente o sentido cidadão e público da profissão, mas aquela que age dessa forma por despreparo intelectual ou desaviso do jornalista.
A esse respeito o professor Manuel Carlos Chaparro, da USP, considera que, além do domínio técnico da profissão (boa redação, manuseio de equipamentos etc), o jornalista formado pelas universidades deve ser um profissional com aptidões intelectuais, “capaz de apreender, atribuir significados e dar exposição social confiável (isto é, independente, crítica e honesta) aos conflitos discursivos da atualidade”.
Se para Freire, a educação é elemento fundamental para a libertação de cada indivíduo e, para Rogers, ela é essencial na potencialização de cada educando, tratando especificamente do caso específico do Jornalismo, Chaparro conclui que uma boa formação une à técnica uma sólida base humanística e, portanto, compromisso e respeito por si e pelo outro. A pesquisa A Formação Cidadã do Jornalista no Brasil aponta que essa ação começa em sala de aula como compromisso do professor e é imprescindível para o papel cidadão que o jornalista passa a atribuir à sua profissão.
Na condição de professor, respeitar o aluno como cidadão é um estímulo fundamental para os estudantes aceitarem responsabilizarem-se por suas vidas, por sua formação e por sua profissão. O papel do professor tem sido fundamental, enfim, para que o educando conquiste sua cidadania e saiba também o que é respeitar, do ponto de vista dessa mesma cidadania, o público da informação jornalística para o qual ele deve trabalhar e a quem, de fato, ele deve servir.

Um comentário:

Consultora Educacional disse...

Gosto muito dos artigos de seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver meu Curso de Informática à Distância. Emily Nascimento.