quinta-feira, 18 de maio de 2006

PCC: Mais que duzentos reais

Enio Moraes Júnior

Toda a confusão causada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo teve um só estopim: duzentos reais pagos e recebidos com a idéia de que a corrupção no País é algo corriqueiro e impune. Segundo o jornal Folha de S.Paulo (18/06), o ex-funcionário da Câmara Arthur Vinicius Silva, que atuava na sala de áudio da CPI, teria vendido aos advogados do PCC Maria Cristina de Souza e Sérgio Wesley da Cunha a íntegra do depoimento sigiloso prestado pelos delegados da Polícia Civil de São Paulo Godofredo Bittencourt e Rui Ferraz Fontes, do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Tráfico de Armas.
A íntegra do depoimento, gravada em dois CDs pelo funcionário, foi vendida aos advogados pela modesta quantia duzentos reais, menos de um salário mínimo, mas cujas proporções assustariam se as conseqüências fossem medidas tomando essa mesma referência. O funcionário, técnico de som, disse que estava numa situação financeira difícil e que ganhava mal. Os dois advogados, suspeitos de terem repassado por audioconferência o depoimento a membros do PCC, podem ser presos.
No entanto, o que chama atenção nesses fatos é a ‘naturalidade’ como os acordos, as ilicitudes e os conchavos parecem ser feitos. Por trás de tudo isso, às vezes tenho a impressão de que há a certeza de que as coisas não terão maiores conseqüências e, sendo assim, a impunidade está garantida. Parece tratar-se apenas de mais um oportunismo, mais um ‘jeitinho’ para se resolver as coisas e se conseguir o que se quer – sejam os duzentos reais ou a informação sigilosa – mesmo que para isso se tenha que passar por cima da Justiça e pelos direitos dos cidadãos.
Corrupção e impunidade são como fogo e pólvora. Juntos, formam a química perfeita das explosões que há anos vêm acometendo a vida política brasileira. Licitações de obras públicas que privilegiam parentes, a naturalidade de caixas dois em eleições, vossas excelências rindo e dançando cinicamente aqui ou acolá etc.
São essas as referências que um funcionário – terceirizado – da Câmera tem para o que ele acha ser um pequeno delito. Não é isso que têm nos provado as CPIs de Brasília e parte das elites e das autoridades do País?
Ao lado de toda bandalheira instaurada pela impunidade existe muita pobreza, fome, miséria, e faltam escolas e saúde, por exemplo. Mas falta, sobretudo, exemplos a serem seguidos. Faltam homens e mulheres públicos a serem admirados. E não falo de heróis ou astros da TV, mas de instituições que estejam a serviço dos cidadãos; de pessoas que as representem.
Creio que parte dos crimes do PCC e dessas corruptelas – que são bombas que nos sobressaltam, produto do encontro inevitavelmente destrutivo da pólvora com o fogo, seja uma resposta formas de violência praticadas pelas elites econômicas nacionais e por suas representações políticas que reagem com o mais completo descaso ou faz-de-conta em relação a uma população cada vez mais miserável e sem referência de cidadania e punição. E assim dão o exemplo.
Numa sociedade onde imperam a miséria e a impunidade, esses duzentos reais pagos e recebidos valem mais que o dinheiro em si. Valem o sentimento de participar do jogo, de seguir o exemplo e por isso achar que somos tão espertos quanto aqueles que nos representam. Mesmo que não os admiremos.

Um comentário:

Mariana Júlia Adessa disse...

Caro prof. Enio Moraes Júnior, fui sua aluna há alguns anos, não sei se lembra de mim... Mas quero dar os parabéns pela iniciativa desse site, que em muito lembra nossas discussões em sala. Parabéns, gostaria que o povo brasileiro tivesse tqmbém esse respeito pelo próximo!