Enio Moraes Júnior
Há duas ou três semanas, no início de maio, um grupo de alunos de jornalismo que está produzindo um fanzine - "Jornalismo De Fatto" (já estão na quarta edição) - convidou-me para participar como ombudsman. Avaliei o material com muito prazer, de especialmente pela inciativa do grupo e lembrei-me que, quando eu era estudante de jornalismo, há dez anos, também tive o meu jornal: "Em Aberto"(!).
Mas sem muito mais conversa, para que a iniciativa do grupo sirva de exemplo - sei que muitos dos meus alunos acessam este espaço - passo a dividir com os leitores deste blog o texto que escrevi.
O grande mérito de Jornalismo De Fatto é, sem duvida, o exercício da liberdade de expressão. Neste sentido, o jornal traz à tona diversas falas. No entanto, essas falas precisam ser contextualizadas em matérias mais bem apuradas e textos mais bem costurados. Afinal de contas, o trabalho do jornalista está pautado na difusão da notícia correta e completa, capaz de conduzir o público a agir em nome dos seus direitos.
"Raízes do Brasil" é superficial e generalista do início ao fim – “tantas dificuldades”; “gama de oportunidades” etc – e por isso o texto parece incompleto. Falta-lhe fôlego. "Drama de uma mãe" esbarra no ‘drama’ indicado no título, que fica claro no tratamento ‘chavão’ dado ao amor materno incondicional. Ao invés de reforçar o estigma afetivo, talvez fosse mais interessante discutir os caminhos para as mães reagirem judicialmente às agressões que seus filhos sofrem em infernos como as febens.
"Admirável mundo novo" traz uma entrevista com uma ex-BBB. O texto informa que a moça, moradora da periferia paulistana, teve sua imagem exposta no programa, gerou alguma discussão e saiu sem levar o prêmio. O que há de novo? Pelo contrário, a entrevista apenas reforça e reproduz as velhas curiosidades midiáticas.
O princípio do jornalismo é a notícia que gera debate e muda a vida das pessoas. Segundo o professor e pesquisador da USP Manuel Carlos Chaparro, jornalismo funde Ética, Técnica e Estética, constituindo uma tríade inseparável. Do ponto de vista estético, achei interessante os títulos adotarem referências a obras nacionais. Mas é bom nos perguntarmos até que ponto essa técnica não prejudica a fidelidade ao assunto e, portanto, compromete eticamente a informação.
Jornalismo De Fatto é uma excelente idéia que tende a melhorar à medida que amadureça seu projeto editorial e as respostas a questões como ‘o quê’ e ‘para quem escrevo’ fiquem mais claras. E isso não é querer demais, mesmo que seja de um grupo de alunos que ainda está no terceiro semestre de jornalismo, até porque eles têm mais ousadia, dedicação e coragem do que muita gente que já está organizando a formatura. Parabéns, De Fatto!
Berlim
Há 10 anos