sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ciberexistência, comunicação, educação (Parte II - Final)

Enio Moraes Júnior

A construção do cidadão planetário por meio da escola e da mídia: eis o ponto que considero chave da discussão sobre a ciberexistência. Claro que não aprendemos apenas na escola. A família, os amigos e a religião, por exemplo, trazem também em si formas de aprendizagem e de conhecimento, mas é à escola que tem cabido, desde os gregos, o papel institucional de motivadora, seletora, hierarquizadora e construtora desse conhecimento. Por isso, é especialmente dentro dela que gostaria de refletir com vocês a formação desse cidadão; desse cidadão planetário.
Para começar eu gostaria de fazer algumas críticas à nossa escola ocidental contemporânea, tomando como referência o seu papel motivacional, seletivo, hierarquizador e construtor.
Em primeiro lugar, suspeito que a nossa escola não motiva seus professores e muito menos, e por extensão, seus alunos. Ocorre que a motivação é algo fundamental no ensino: "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele", escreveu Arendt (FERRARI, 2004).
Penso também que o seu papel seletivo de saberes é ultrapassado, acomodado e conservador.
Entendo que a hierarquização que ela realiza em relação aos conteúdos é humanamente indulgente, preconceituoso e perverso.
Por fim, entendo que o seu produto final, o que a escola contemporânea – na maioria das vezes – tem construído são seres – e aí eu incluo não apenas alunos, mas também professores, diretores, funcionários e mais: seres humanos, de uma forma geral, já que em boa medida somos produto das escolas – lenientes; acomodados à tragédia e ao sofrimento do outro a tal ponto que sequer percebemos que esse outro somos nós mesmos.
Em outras palavras: ao invés de pessoas planetárias, a escola tem produzido – na maior parte das vezes – seres individualistas... E isso põe em risco a vida do e no planeta e arrisca também, como conseqüência, a própria vida humana.
Qual o caminho para que a escola abra-se, utilizando as novas tecnologias digitais e suas formas de existência, para a cidadania planetária? Proponho seis pistas para pensarmos e discutirmos.
Uma das questões em que tenho pensado ultimamente, um conceito sobre o qual tenho refletido nos últimos meses é o de tecno-ideologia. Parto do princípio de que cabe ao homem dominar a técnica, não o contrário.
Isso me faz lembrar o mito de Ícaro, que fala de um homem deslumbrado pela técnica a tal ponto que pensa que não é mais mortal, deslumbra-se e morre vítima da técnica, da sua falta de domínio sobre ela. Ícaro é um jovem para quem o pai, Dédalo, criara assas para que ele pudesse escapar de uma prisão injusta, mas morre vítima desse invento paterno. Da mesma forma, as novas tecnologias, produto do invento humano que pode efetivar uma nova forma de democracia e cidadania, corre o risco de implicar indivíduos que sucumbam às suas próprias redes e técnicas.
Embora hoje já estejamos falando da hiperescola, ainda que ela possa legitimar-se em breve como uma nova compreensão de educação escolar, é importante termos cuidado para que a técnica não vire ideologia. Para isso, é necessário que as escolas ensinem a técnica para que ele seja dominada, que a escola coloque o seu aluno no comando das mídias digitais: dos computadores, das máquinas digitais, da internet. Os computadores e sua rede mundial podem ter um uso positivo, cidadão, na construção de uma nova forma de vida democrática global. É disso que fala o Pierre Lévy no livro Ciberdemocracia.
Em segundo lugar, podemos pensar que a base desse conhecimento está no respeito à condição humana dentro da própria escola. Carl Rogers e Paulo Freire, dois grandes teóricos da educação do século XX, refletem muito bem sobre essa questão. Para Rogers, o ensino deve ser centrado na pessoa do estudante, mas Freire avança nesse aspecto ao entender essa centralidade também no sentido da realidade que cerca esse estudante. Assim, ambos podem ser tranqüilamente retomados no sentido de pensarmos uma educação que mobilize humanamente o que se é em nome do humano. Tornar-se Pessoa, de Rogers, e Pedagogia do Oprimido, de Freire, deveriam ser relidos com atenção para que esses ensinamentos pudessem ser aplicados hoje.
Em terceiro lugar, é importante que repensemos que conhecimento estamos construindo e para que. Em outras palavras: que mundo queremos para os próximos anos? Se pensarmos em construir pessoas para o mercado, estaremos cada vez menos construindo a vida. Pelo contrário: estaremos colocando em risco a vida do planeta. E isso é muito sério.
As estatísticas climáticas não deixam dúvida em relação a isso. O conhecimento que podemos estimular hoje faz parte de uma antropolítica em que o ser humano é colocado acima dos interesses mercadológicos. Edgar Morin tem falado muito sobre essa questão, sobretudo no livro Os sete saberes necessários à educação do futuro.
Em quarto lugar, é hora de repensarmos, problematizarmos a educação. E problematizá-la é exatamente problematizarmo-nos. A educação, meus caros, não está fora de nós, ela sempre esteve – como de certa forma já nos alertaram Rogers e Freire – aqui perto, dentro de nós.
Se não olharmos para nós mesmos, jamais estaremos olhando para modelos ou tentativas assertivas de educação. Nesse sentido, é fundamental que nos reconheçamos, nos aceitemos, nos respeitemos e nos amemos na nossa diversidade de credos, orientações sexuais, culturais etc. É o que Muniz Sodré trata como o ‘infinitamente diverso’ em A ignorância da diversidade.
A ignorância está vinculada a um conceito de verdade diante da qual tudo se classifica e existe. O que destoa dela deve ser excluído. Em outras palavras: pensar a educação como algo que vem de dentro é pensar em incluir o outro, o outro-planetário, na sua infinita diversidade, ao invés de excluí-lo.
Em quinto lugar, é importante darmos à educação o seu inestimável papel nos processos de socialização humana e sustentabilidade planetária. Ela está no começo de tudo. O homem sem a intelectualidade para compreender a complexidade do mundo é um homem que não compreende também a necessidade de defesa do planeta e da vida. Esse homem forma-se exatamente na escola. Os demais processos, como a midiatização, a participação política e sua intervenção no mundo através do trabalho são – e aqui eu aproprio-me e parodio uma reflexão do canadense Marshall McLuhan: esses processos são extensões do que somos, e o que somos é, fundamentalmente, extensão da educação que temos.
Por fim, uma outra questão para a qual merece ser chamada atenção diz respeito ao diálogo. Tudo, absolutamente tudo que dizemos, que escrevemos, são pontos de vista. Então, o conhecimento deve ser permanente, em perspectiva, um “vir a ser” constante. Para isso, é preciso que tenhamos a consciência de que a melhor colaboração que podemos dar ao outro e ao mundo é a fala aberta ao diálogo, e não o dogmatismo. Isso é fundamental para a educação: abertura, diálogo.
A os meios de comunicação têm também um papel especial na construção do diálogo. Na era das tecnologias comunicacionais, a internet deve ser um espaço para fóruns de discussões locais, regionais e globais. E, na medida em que o seu uso – tanto do ponto de vista técnico como político – caminhe no sentido de uma democratização, de realização de uma ciberdemocracia constituída por indivíduos formalmente educados e bem informados. Eis aí, cidadãos planetários, a nossa responsabilidade.

A dimensão ciber deve nos conduzia à tentativa de valorizar a vida por meio da valorização do ser humano e do planeta. A ciberexistência só tem sentido se pensarmos na existência. As novas tecnologias não podem ser pensadas sem pensarmos também na própria vida humana e na vida do planeta. A educação e a comunicação para uma cidadania planetária são o caminho para potencializarmos esse engenho humano na defesa do próprio homem. Nesse sentido, à escola e aos meios de comunicação cabem algumas tarefas. Cabe-lhes desfazer os riscos da tecno-ideologia, potencializar o humano, questionar o conceito de conhecimento e o significado da educação, considerar a educação a base do que somos e valorizar o diálogo, valorizando também, nesse contexto, o papel da comunicação social e das novas mídias.

Referências bibliográficas
BERTMAN, Stephen. Hipercultura. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
_____. Internet e sociedade em rede. In: MORAES, Denis de (org). Por uma Outra Comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
CHAPLIN, Charles. Modern Times (Adaptation: "Really Modern Times"). EUA, 1936. Trecho disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=c8LxscnmdNY&feature=related. Acessado em 21 de julho de 2007.
FERRARI, Márcio. Hanna Aredt: uma defensora da autoridade em classe. Revista Nova Escola. Ed. 169. janeiro / fevereiro 2004. Disponível em: http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/169_fev04/html/pensadores. Acessado em 21 de julho de 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LÉVY, Pierre. Ciberdemocracia. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
_____. Pela ciberdemocracia. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
_____. Por uma mundialização plural. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
_____. Educação na Era Planetária. Coleção ‘Universo do Conhecimento’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 50 min.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.
SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho. Petrópolis: Vozes, 2002.
_____. A ignorância da diversidade. Coleção ‘A invenção do contemporâneo’. Série ‘As novas ignorâncias’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 48 min.

3 comentários:

Flávio Vicente disse...

Ênio, indiscutivelmente a fórmula infalível para construirmos um mundo cidadão é a ABERTURA (quase sempre dolorosa) às idéias alheias e a LUTA (desafio individual) infindável contra os nossos dogmas que trazemos arraigados na alma - frutos da educação que tivemos e do meio no qual vivemos. Passamos a vida toda tentando nos educar, imagina então o desafio que é educar O OUTRO! Parabéns pelos pontos-de-vistas e pelas fendas que você construiu com este artigo! Abraços e até mais

Flávio Mello disse...

Bom, querido...

agora eu li... rs... bom...

gostei muito, idéias que tento seguir como educador... não vou contra nenhum dos seus passos... achei muito bem escrito... gostei mesmo... a pegada - veio jornalistico, chamou-me muito atenção... escreve bem.

vou fazer uma resenha, pois costudo fazer assim para meus estudos... e vou publicá-la no meu blog... assim que permitir claro... acho que essas idéias quando fazem surgir outras, e suas idéias com isso ganham vida, nos levam a ter novas teorias e novas visões de mundo... num efeito dominó.

no mais

brilhante.

Flávio Mello

Maria Júlia Pontes disse...

Ênio,
Gostei muito do seu artigo, interessante assim como suas aulas.
Vou dar umas voltas por aqui sempre que possível.
bjos