quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pauta constrói informação a serviço da cidadania

Antonio Rocha Filho e Enio Moraes Júnior (texto publicado originalmente no Observatório da Imprensa em 30/07/2013 )
Os séculos e a experiência do homem a respeito da vida em sociedade foram reformulando o significado da cidadania. Entretanto, ela permanece em nossas memórias mais afáveis ou aguerridas como a potencialidade do ser humano para a realização da vida em comunidade. Para a filósofa de origem alemã Hannah Arendt, é a ação de cada um que caracteriza a vida comunitária. E essa ação nada mais é do que a capacidade de perceber que cada ato de cada indivíduo repercute sobre as outras pessoas, ganhando dimensão social. E isso tem muito a ver com jornalismo.
Na atividade cotidiana da imprensa, cada ação do trabalho de reportagem e de divulgação dos fatos é antecedida por uma ação que talvez seja um momento ímpar na rotina jornalística: a pauta. Talvez surjam daí as grandes reportagens e as grandes ideias que dão fala, voz e vez ao cidadão, fazendo com que o jornalismo cumpra de forma consciente o seu compromisso com a cidadania. Afinal, como dizia o pauteiro Luciano Moraes ao referir-se à rotina da imprensa, “no começo de tudo está a pauta”.
Embora, na prática, os profissionais das redações adotem conceitos de cidadania, há pouquíssima reflexão, nesses espaços, sobre o papel do jornalista e do jornalismo no contexto da vida social. Questões como o direito do leitor à informação completa, à forma de abordar e apresentar determinados temas e as múltiplas versões para os fatos aparecem com frequência nos discursos que defendem, nas redações, um fazer jornalístico ideal. Da mesma forma, os direitos humanos, principalmente quando se fala de acusações contra algum personagem da notícia, além de questões éticas na apuração da reportagem são sempre alvos de discussões entre jornalistas. Entretanto, apesar de fazer, no dia a dia, o que seria uma discussão sobre questões de cidadania, na maioria das grandes redações a prática não parte de uma consciência do jornalista sobre as relações sociais.
A pauta na formação do jornalista
A atividade cotidiana da imprensa acaba sendo desenvolvida de forma tão mecânica que editores e repórteres esquecem que o jornalista tem um papel social e que, ao cobrir ou publicar um fato, está no pleno exercício dessa função. Ademais, há casos em que a perversa lógica industrial que está por trás da produção das notícias nos jornais e sites atropela qualquer questão ética. Especialmente nas grandes redações, o que importa é colocar a notícia de pé e publicar. E aí, o jornalista que não esquece o compromisso da imprensa com a cidadania e com o cidadão precisa ter habilidade para garantir um mínimo de qualidade e estômago para suportar quando as coisas não andam como devem andar.
Um amálgama para ligar o que se pensa sobre o jornalismo e o que se faz no jornalismo talvez seja exatamente a pauta. É essa ação, é esse input que está “no começo de tudo” que vai determinar a sequência da atividade da reportagem. Afinal, é o momento em que se podem discutir as questões éticas e de cidadania de cada notícia e as implicações da cobertura para a vida dos cidadãos.
Para professores de jornalismo, levar o pensar e o fazer da pauta para a sala de aula pode ser uma questão ainda mais enriquecedora. Como apresentar aos alunos a importância da cidadania na produção das notícias? Assim como pode acontecer nas redações, um caminho coerente parece estar no momento de discussão da pauta. Por essa razão, ela precisa ser mais valorizada não apenas nas redações, mas também na própria formação do jornalista.
Um mundo mais democrático
Do ponto de vista do compromisso da imprensa com a cidadania, talvez o decisivo momento da pauta possa ser o fiel da balança entre o jornalismo que se julga estar fazendo e aquele que se deve fazer e entre o jornalismo que se julga ensinar e aquele que deve ser ensinado.
Com é possível refletir a partir da provocação de Arendt, a pauta constitui uma ação. Dessa forma, ela tem desdobramentos importantes na vida social, seja informando os cidadãos ou formando profissionais. E mais que isso: por alicerçar a atividade da imprensa, ela é fundamental no exercício de um jornalismo empenhado na construção de um mundo mais democrático e melhor.
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Antonio Rocha Filho e Enio Moraes Júnior são, respectivamente, jornalista, pós-graduado em Comunicação com o Mercado e professor do curso de Jornalismo da ESPM e jornalista, doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA / USP, professor do curso de Jornalismo da ESPM-SP e autor do livro Formação de Jornalistas: elementos para uma pedagogia de ensino do interesse público, da editora Annablume, 2013

domingo, 5 de maio de 2013

Olhos que brilham

Enio Moraes Júnior 
(Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa)
A difícil concorrência com as tecnologias e a aparentemente inglória batalha contra o Facebook em sala de aula: eis uma luta diante da qual não basta tentar inibir o uso dos computadores nas aulas. Os tablets, os ifones e os celulares sempre estão por perto, nas mãos de alguns alunos que, basta uma distração do professor, deslizam seus ágeis dedos pelo teclado dos aparelhos. Quem ensina e quem estuda sabe bem do que estou falando...
Mas e daí, como enfrentar esse tipo de questão de forma propositiva? A educação, além de seus aspectos intelectuais, tem uma esfera importante: a dimensão relacional. Talvez esse tenha sido um dos principais pontos que aprendi com meu coorientador de doutorado, o premiado e reconhecido educador português João Formosinho, da Universidade do Minho. Parte da tese sobre formação de jornalistas que defendi na USP há dois anos, e que acaba de ser lançada em livro, trata exatamente dessa questão.
Esse aspecto diz respeito à forma como professor e alunos se relacionam em sala de aula e como estendem essa relação para além dela. Em outras palavras, a dimensão relacional refere-se à maneira como esses dois atores constroem o que há de mais nobre no processo educativo: o sentido de uma educação para a vida, para a construção do indivíduo holístico, pleno, feliz.
Paciência, estratégia e cautela
Assim, como professor, tenho procurado investir em um processo pedagógico baseado na troca de confiança com os alunos. Menos proibição e mais estímulo à responsabilidade de cada uma das partes. Conversa, diálogo e parcerias pedagógicas entre professor e turma. O que tenho buscado, como educador, não é apenas que os estudantes se sintam obrigados a prestar atenção às aulas e desperdicem menos energia distraindo-se nas redes sociais. É algo mais importante: é que eles se responsabilizem pelo que vieram fazer em sala de aula – aprender jornalismo – e que, de resto, se responsabilizem por suas vidas e por seu futuro. Mas reconheço: o êxito desse tipo de prática nem sempre é fácil de ser alcançado.
Numa sociedade em que as pessoas resistem a amadurecer, como têm observado especialistas da área comportamental, como Contardo Calligaris, e diante das quais as tecnologias e as redes sociais parecem um braço importante da “adolescentização”, o processo educativo de verdade é um caminho que exige paciência, estratégia e cautela. “Não desista desse caminho, Enio. A educação é um pouco isso também”, diria meu coorientador. Mas como fazer? Eis uma das questões diante das quais tenho me colocado desde que comecei a pesquisar formação de jornalistas, ainda no mestrado na USP, em 2003, e que levei para o doutorado, defendido em 2011.
Durante oito anos, entrevistei cerca de sessenta pessoas, entre alunos, educadores e professores de Jornalismo. Tive algumas pistas: ser transparente nos critérios avaliativos, integrar teoria e prática no processo educativo e estimular o aluno a discutir e responsabilizar-se por sua própria formação são algumas direções.
Meus olhos também brilham
Apesar do trabalho que parece inglório, algumas vezes, em outra parte dos casos, tenho tido experiências recompensadoras. Acompanhar a desenvoltura de alguns alunos em experiências laboratoriais ou no mercado de trabalho tem rendido boas emoções e muita satisfação. Inevitavelmente, é claro, são aqueles que mais se responsabilizam por sua formação e comprometem-se, de fato, com as aulas, que se dão melhor no trabalho e na vida. E não estou falando de dinheiro, mas de algo mais fundamental: de um certo brilho nos olhos.
A aluna que está escrevendo perfis, cada vez mais desenvolta, o estudante de dedicação exemplar que foi para a revista, o garoto apaixonado por futebol que foi fazer cobertura radioesportiva, o aluno e a aluna que entenderam o que é responsabilizar-se por sua formação (e por sua vida) e que foram para a emissora de TV. Estão todos aprendendo, mas com os olhos cheios de brilho, de vida, de futuro. Recentemente, um aluno entregou-me uma reportagem sua que saiu publicada em um pequeno jornal do interior paulista. Um texto perfeito (eu sou professor de produção de textos jornalísticos), tão bem escrito que me encheu de orgulho. Estava tudo lá: bom título, bom lide, aspas oportunas, bom fecho para a matéria.
Embora tenha colhidos pistas, nesses anos todos pesquisando formação de jornalistas, ainda não cheguei a uma fórmula sobre como ensinar e como cumprir minha tarefa de fazer os olhos de todos os meus alunos brilharem. Talvez isso seja impossível e, certamente, tem muito a ver com outros aspectos de formação humana de cada um deles. Ou talvez isso seja mágica... De minha parte, entretanto, vou continuar tentando, mesmo que tenha que enfrentar cotidianamente as armadilhas que hoje se colocam à educação, como o uso displicente do Facebook e das tecnologias em sala de aula, por parte de alguns alunos, a cada distração do professor.
“Desafios sempre estiveram por aí, Enio. Enfrente-os”, diria Formosinho. E vale a pena enfrentá-los. Afinal, nada mais recompensador do que o brilho nos olhos dos estudantes que aprendem responsabilizando-se por sua formação, por sua felicidade, por seu futuro. E confesso: é diante do encontro com esse tipo de aluno que meus olhos brilham também.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Reflexões sobre a formação do jornalista

Beatriz Trezzi Vieira (publicado originalmente no Jornal da USP em 08/03/13)
No livro Formação de jornalistas – Elementos para uma pedagogia de ensino do interesse público, publicado pela Editora Annablume, o professor Enio Moraes Júnior buscou refletir e propor parâmetros para um modelo pedagógico de ensino do interesse público na formação dos profissionais de jornalismo.
A pesquisa, que é resultado do doutorado em Ciências da Comunicação obtido em 2011 na Escola de Comunicações e Artes da (ECA) da USP, tem como universo entrevistas com professores de Jornalismo de quatro instituições brasileiras e portuguesas, bem como a análise da estrutura curricular dos cursos de Jornalismo nos dois países. As instituições pesquisadas no Brasil foram a Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e a Universidade Federal de Sergipe. Em Portugal, a pesquisa foi feita nas Universidades do Minho e Nova de Lisboa. Entre os entrevistados está o educador português João Formosinho, professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade do Minho, um dos principais defensores de uma formação ética que priorize as relações humanas, em contraponto ao modelo de “educação de massa”, que, no entender do educador, atualmente é adotado pelas instituições de ensino superior.
Enio Moraes Júnior é jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas e, atualmente, leciona no curso de Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo.
O que o motivou a fazer a pesquisa?
Enio Moraes Júnior – A ideia de pesquisar formação de jornalistas nasceu de uma necessidade colocada pela minha própria carreira, como professor de jornalismo. Como acontece com a maior parte de nós, que somos professores de jornalismo no Brasil, geralmente partimos para a sala de aula com conhecimentos do que é jornalismo, seja do ponto de vista teórico ou prático, mas quase sem conhecimentos na área de educação. Por conta disso, em um determinado ponto da minha carreira, senti necessidade de entender melhor essa área para melhorar minha prática docente e, na medida do possível, socializar isso. Por sua vez, a ideia de encontrar o lugar da cidadania e do interesse público nessa formação veio por conta de uma noção muito clara que eu sempre tive na minha formação e prática como jornalista: a de que é o interesse público, o interesse do cidadão, que deve nortear o trabalho da imprensa.
Quais as principais conclusões da pesquisa junto às instituições pesquisadas?
E.M.J. – Ao todo foram entrevistados professores de quatro instituições de ensino de jornalismo: duas no Brasil, a Faculdade Cásper Líbero e a Universidade Federal de Sergipe, e duas em Portugal, a Universidade do Minho e a Universidade Nova de Lisboa. Como eu digo na conclusão da pesquisa, que eu prefiro chamar de “considerações finais”, porque é um resultado que ainda dá margem a muitas outras pesquisas, a grande contribuição da tese que agora vira livro é sistematizar alguns elementos sobre o ensino do jornalismo.
Quais são esses elementos?
E.M.J. – Eu destacaria, em primeiro lugar, a necessidade de valorizar os conhecimentos vindos das ciências sociais e humanas, interdisciplinarizando-os, de forma clara, na própria prática laboratorial. Eu destacaria também algo que é relativamente recente: a necessidade de estimular no aluno de jornalismo uma convivência mais produtiva e mais ética com as mídias sociais, que hoje são um importante canal de informação para o cidadão. Mas há também alguns aspectos que apareceram e que, pelo que eu percebo, os professores de jornalismo prestam pouca atenção. Nesse sentido, eu destacaria a importância da dimensão relacional da formação do jornalista. Ou seja: não são apenas nos conteúdos passados para o aluno que reside o ensino do jornalismo. A própria maneira como o professor lida com esse estudante, em sala de aula, é um importante elemento formativo. Esse é um canal por meio do qual o aluno assimila o respeito pelo outro, a capacidade de discutir uma pauta ou ouvir um entrevistado, por exemplo. Além disso, no caso daqueles docentes que estão no “batente” da profissão, o seu próprio posicionamento nesse espaço profissional é também um aspecto relevante e que termina por influenciar o estudante. Sua conduta ética pode se tornar, para esse aluno, uma inspiração, uma porta para um aprendizado acerca da responsabilidade social da profissão.
De maneira geral, como os cursos de jornalismo contribuem para a formação cidadã e voltada para o interesse público?
E.M.J. – A ideia do interesse público e da cidadania está presente no próprio documento que norteia a formação dos nossos jornalistas: as Diretrizes Curriculares. Sendo assim, penso que de maneira geral os cursos valorizam, sim, essa formação. Sempre me incomodou muito uma tendência a se falar de formação do jornalista a serviço do mercado como uma oposição à formação a serviço do cidadão, como se essas duas instâncias fossem excludentes uma em relação à outra. E o que eu percebi também neste estudo é que elas são complementares e igualmente importantes na sociedade que temos hoje.
Qual é o principal diferencial das instituições de ensino de jornalismo no Brasil e em Portugal?
E.M.J. – Eu não percebo muitas diferenças. Entretanto, o que mais chamou minha atenção é a forma como os portugueses estão se relacionando, hoje, com o Tratado de Bolonha, que unifica o ensino superior em grande parte dos países da Europa. Eles estão altamente críticos, sobretudo, à redução da duração dos cursos superiores de quatro para três anos. No Brasil, nosso ciclo ainda dura quatro anos, mas os conteúdos das formações são muito próximos. A diferença entre lá e cá, e isso é muito claro na Universidade do Minho, é que os portugueses foram estimulados a aglutinar teoria com prática desde os primeiros anos do curso. Aqui no Brasil ainda há uma tendência – embora eu ache que já muito questionada – a uma teorização seguida da prática.
Qual a principal proposta da pesquisa?
E.M.J. – A ideia da pesquisa é estimular jornalistas, professores e estudantes da área a debater e qualificar a formação profissional. Eu acho que nós precisamos, no Brasil e em alguns países que habilitam jornalistas, seja em cursos superiores ou em pós-graduações, estar atentos a essa questão. Temos muitos nomes, como José Coelho Sobrinho, que foi meu orientador de mestrado e doutorado na USP, pensando e formando gente interessada em discutir formação de jornalistas. Há também muitos espaços, como fóruns de professores e congressos de jornalistas envolvidos com isso. A ideia da pesquisa é exatamente fomentar essa discussão no sentido de qualificar a formação dos nossos jornalistas. Eu acho que, quanto mais séria e qualificada for a imprensa de um lugar, melhor para os cidadãos e para a cidadania. E isso passa diretamente, em minha opinião, pela qualidade da formação que nós estamos dando aos nossos jornalistas.
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Beatriz Trezzi Vieira, especial para o Jornal da USP