domingo, 5 de maio de 2013

Olhos que brilham

Enio Moraes Júnior 
(Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa)
A difícil concorrência com as tecnologias e a aparentemente inglória batalha contra o Facebook em sala de aula: eis uma luta diante da qual não basta tentar inibir o uso dos computadores nas aulas. Os tablets, os ifones e os celulares sempre estão por perto, nas mãos de alguns alunos que, basta uma distração do professor, deslizam seus ágeis dedos pelo teclado dos aparelhos. Quem ensina e quem estuda sabe bem do que estou falando...
Mas e daí, como enfrentar esse tipo de questão de forma propositiva? A educação, além de seus aspectos intelectuais, tem uma esfera importante: a dimensão relacional. Talvez esse tenha sido um dos principais pontos que aprendi com meu coorientador de doutorado, o premiado e reconhecido educador português João Formosinho, da Universidade do Minho. Parte da tese sobre formação de jornalistas que defendi na USP há dois anos, e que acaba de ser lançada em livro, trata exatamente dessa questão.
Esse aspecto diz respeito à forma como professor e alunos se relacionam em sala de aula e como estendem essa relação para além dela. Em outras palavras, a dimensão relacional refere-se à maneira como esses dois atores constroem o que há de mais nobre no processo educativo: o sentido de uma educação para a vida, para a construção do indivíduo holístico, pleno, feliz.
Paciência, estratégia e cautela
Assim, como professor, tenho procurado investir em um processo pedagógico baseado na troca de confiança com os alunos. Menos proibição e mais estímulo à responsabilidade de cada uma das partes. Conversa, diálogo e parcerias pedagógicas entre professor e turma. O que tenho buscado, como educador, não é apenas que os estudantes se sintam obrigados a prestar atenção às aulas e desperdicem menos energia distraindo-se nas redes sociais. É algo mais importante: é que eles se responsabilizem pelo que vieram fazer em sala de aula – aprender jornalismo – e que, de resto, se responsabilizem por suas vidas e por seu futuro. Mas reconheço: o êxito desse tipo de prática nem sempre é fácil de ser alcançado.
Numa sociedade em que as pessoas resistem a amadurecer, como têm observado especialistas da área comportamental, como Contardo Calligaris, e diante das quais as tecnologias e as redes sociais parecem um braço importante da “adolescentização”, o processo educativo de verdade é um caminho que exige paciência, estratégia e cautela. “Não desista desse caminho, Enio. A educação é um pouco isso também”, diria meu coorientador. Mas como fazer? Eis uma das questões diante das quais tenho me colocado desde que comecei a pesquisar formação de jornalistas, ainda no mestrado na USP, em 2003, e que levei para o doutorado, defendido em 2011.
Durante oito anos, entrevistei cerca de sessenta pessoas, entre alunos, educadores e professores de Jornalismo. Tive algumas pistas: ser transparente nos critérios avaliativos, integrar teoria e prática no processo educativo e estimular o aluno a discutir e responsabilizar-se por sua própria formação são algumas direções.
Meus olhos também brilham
Apesar do trabalho que parece inglório, algumas vezes, em outra parte dos casos, tenho tido experiências recompensadoras. Acompanhar a desenvoltura de alguns alunos em experiências laboratoriais ou no mercado de trabalho tem rendido boas emoções e muita satisfação. Inevitavelmente, é claro, são aqueles que mais se responsabilizam por sua formação e comprometem-se, de fato, com as aulas, que se dão melhor no trabalho e na vida. E não estou falando de dinheiro, mas de algo mais fundamental: de um certo brilho nos olhos.
A aluna que está escrevendo perfis, cada vez mais desenvolta, o estudante de dedicação exemplar que foi para a revista, o garoto apaixonado por futebol que foi fazer cobertura radioesportiva, o aluno e a aluna que entenderam o que é responsabilizar-se por sua formação (e por sua vida) e que foram para a emissora de TV. Estão todos aprendendo, mas com os olhos cheios de brilho, de vida, de futuro. Recentemente, um aluno entregou-me uma reportagem sua que saiu publicada em um pequeno jornal do interior paulista. Um texto perfeito (eu sou professor de produção de textos jornalísticos), tão bem escrito que me encheu de orgulho. Estava tudo lá: bom título, bom lide, aspas oportunas, bom fecho para a matéria.
Embora tenha colhidos pistas, nesses anos todos pesquisando formação de jornalistas, ainda não cheguei a uma fórmula sobre como ensinar e como cumprir minha tarefa de fazer os olhos de todos os meus alunos brilharem. Talvez isso seja impossível e, certamente, tem muito a ver com outros aspectos de formação humana de cada um deles. Ou talvez isso seja mágica... De minha parte, entretanto, vou continuar tentando, mesmo que tenha que enfrentar cotidianamente as armadilhas que hoje se colocam à educação, como o uso displicente do Facebook e das tecnologias em sala de aula, por parte de alguns alunos, a cada distração do professor.
“Desafios sempre estiveram por aí, Enio. Enfrente-os”, diria Formosinho. E vale a pena enfrentá-los. Afinal, nada mais recompensador do que o brilho nos olhos dos estudantes que aprendem responsabilizando-se por sua formação, por sua felicidade, por seu futuro. E confesso: é diante do encontro com esse tipo de aluno que meus olhos brilham também.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Reflexões sobre a formação do jornalista

Beatriz Trezzi Vieira (publicado originalmente no Jornal da USP em 08/03/13)
No livro Formação de jornalistas – Elementos para uma pedagogia de ensino do interesse público, publicado pela Editora Annablume, o professor Enio Moraes Júnior buscou refletir e propor parâmetros para um modelo pedagógico de ensino do interesse público na formação dos profissionais de jornalismo.
A pesquisa, que é resultado do doutorado em Ciências da Comunicação obtido em 2011 na Escola de Comunicações e Artes da (ECA) da USP, tem como universo entrevistas com professores de Jornalismo de quatro instituições brasileiras e portuguesas, bem como a análise da estrutura curricular dos cursos de Jornalismo nos dois países. As instituições pesquisadas no Brasil foram a Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e a Universidade Federal de Sergipe. Em Portugal, a pesquisa foi feita nas Universidades do Minho e Nova de Lisboa. Entre os entrevistados está o educador português João Formosinho, professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade do Minho, um dos principais defensores de uma formação ética que priorize as relações humanas, em contraponto ao modelo de “educação de massa”, que, no entender do educador, atualmente é adotado pelas instituições de ensino superior.
Enio Moraes Júnior é jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas e, atualmente, leciona no curso de Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo.
O que o motivou a fazer a pesquisa?
Enio Moraes Júnior – A ideia de pesquisar formação de jornalistas nasceu de uma necessidade colocada pela minha própria carreira, como professor de jornalismo. Como acontece com a maior parte de nós, que somos professores de jornalismo no Brasil, geralmente partimos para a sala de aula com conhecimentos do que é jornalismo, seja do ponto de vista teórico ou prático, mas quase sem conhecimentos na área de educação. Por conta disso, em um determinado ponto da minha carreira, senti necessidade de entender melhor essa área para melhorar minha prática docente e, na medida do possível, socializar isso. Por sua vez, a ideia de encontrar o lugar da cidadania e do interesse público nessa formação veio por conta de uma noção muito clara que eu sempre tive na minha formação e prática como jornalista: a de que é o interesse público, o interesse do cidadão, que deve nortear o trabalho da imprensa.
Quais as principais conclusões da pesquisa junto às instituições pesquisadas?
E.M.J. – Ao todo foram entrevistados professores de quatro instituições de ensino de jornalismo: duas no Brasil, a Faculdade Cásper Líbero e a Universidade Federal de Sergipe, e duas em Portugal, a Universidade do Minho e a Universidade Nova de Lisboa. Como eu digo na conclusão da pesquisa, que eu prefiro chamar de “considerações finais”, porque é um resultado que ainda dá margem a muitas outras pesquisas, a grande contribuição da tese que agora vira livro é sistematizar alguns elementos sobre o ensino do jornalismo.
Quais são esses elementos?
E.M.J. – Eu destacaria, em primeiro lugar, a necessidade de valorizar os conhecimentos vindos das ciências sociais e humanas, interdisciplinarizando-os, de forma clara, na própria prática laboratorial. Eu destacaria também algo que é relativamente recente: a necessidade de estimular no aluno de jornalismo uma convivência mais produtiva e mais ética com as mídias sociais, que hoje são um importante canal de informação para o cidadão. Mas há também alguns aspectos que apareceram e que, pelo que eu percebo, os professores de jornalismo prestam pouca atenção. Nesse sentido, eu destacaria a importância da dimensão relacional da formação do jornalista. Ou seja: não são apenas nos conteúdos passados para o aluno que reside o ensino do jornalismo. A própria maneira como o professor lida com esse estudante, em sala de aula, é um importante elemento formativo. Esse é um canal por meio do qual o aluno assimila o respeito pelo outro, a capacidade de discutir uma pauta ou ouvir um entrevistado, por exemplo. Além disso, no caso daqueles docentes que estão no “batente” da profissão, o seu próprio posicionamento nesse espaço profissional é também um aspecto relevante e que termina por influenciar o estudante. Sua conduta ética pode se tornar, para esse aluno, uma inspiração, uma porta para um aprendizado acerca da responsabilidade social da profissão.
De maneira geral, como os cursos de jornalismo contribuem para a formação cidadã e voltada para o interesse público?
E.M.J. – A ideia do interesse público e da cidadania está presente no próprio documento que norteia a formação dos nossos jornalistas: as Diretrizes Curriculares. Sendo assim, penso que de maneira geral os cursos valorizam, sim, essa formação. Sempre me incomodou muito uma tendência a se falar de formação do jornalista a serviço do mercado como uma oposição à formação a serviço do cidadão, como se essas duas instâncias fossem excludentes uma em relação à outra. E o que eu percebi também neste estudo é que elas são complementares e igualmente importantes na sociedade que temos hoje.
Qual é o principal diferencial das instituições de ensino de jornalismo no Brasil e em Portugal?
E.M.J. – Eu não percebo muitas diferenças. Entretanto, o que mais chamou minha atenção é a forma como os portugueses estão se relacionando, hoje, com o Tratado de Bolonha, que unifica o ensino superior em grande parte dos países da Europa. Eles estão altamente críticos, sobretudo, à redução da duração dos cursos superiores de quatro para três anos. No Brasil, nosso ciclo ainda dura quatro anos, mas os conteúdos das formações são muito próximos. A diferença entre lá e cá, e isso é muito claro na Universidade do Minho, é que os portugueses foram estimulados a aglutinar teoria com prática desde os primeiros anos do curso. Aqui no Brasil ainda há uma tendência – embora eu ache que já muito questionada – a uma teorização seguida da prática.
Qual a principal proposta da pesquisa?
E.M.J. – A ideia da pesquisa é estimular jornalistas, professores e estudantes da área a debater e qualificar a formação profissional. Eu acho que nós precisamos, no Brasil e em alguns países que habilitam jornalistas, seja em cursos superiores ou em pós-graduações, estar atentos a essa questão. Temos muitos nomes, como José Coelho Sobrinho, que foi meu orientador de mestrado e doutorado na USP, pensando e formando gente interessada em discutir formação de jornalistas. Há também muitos espaços, como fóruns de professores e congressos de jornalistas envolvidos com isso. A ideia da pesquisa é exatamente fomentar essa discussão no sentido de qualificar a formação dos nossos jornalistas. Eu acho que, quanto mais séria e qualificada for a imprensa de um lugar, melhor para os cidadãos e para a cidadania. E isso passa diretamente, em minha opinião, pela qualidade da formação que nós estamos dando aos nossos jornalistas.
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Beatriz Trezzi Vieira, especial para o Jornal da USP

sábado, 12 de maio de 2012

Webjornalismo, uma janela para a imprensa

Enio Moraes Júnior
(Texto originalmente publicado na Revista Alterjor, da USP)

Magaly Prado é de uma geração que nasceu, cresceu, graduou-se e começou a trabalhar sem sequer pensar que um dia poderia existir algo chamado internet. Aliás, a geração de jornalistas a que pertence Magaly pautou, apurou e publicou muita informação sem Google, Twitter ou Facebook. Entretanto, hoje, essa mesma geração conhece bem as armadilhas e as facilidades do jornalismo produzido com auxílio das tecnologias digitais. E Magaly Prado, autora de Webjornalismo, não é uma exceção.

Com uma linguagem coloquial, a obra é endereçada a usuários e interessados em web, gente que não vacila diante das ebulições provocadas pelo ciberespaço. Se, por um lado, o livro ganha ares de manual de webjornalismo, por outro, é enriquecido pelo fôlego da autora, por entrevistas e depoimentos de jornalistas e pela apresentação de casos que apimentam discussões importantes sobre novos significados do jornalismo e, consequentemente, dos fazeres e atribuições dos profissionais da imprensa.

Um ponto alto da obra são as desmistificações de alguns mal entendidos entre conceitos convergentes do webjornalismo, como jornalismo colaborativo e jornalismo multimídia. Percurso que, aliás, a autora esboça na apresentação da obra e aprofunda com firmeza nos capítulos seguintes. Magaly Prado trata do surgimento do jornalismo na web e, a partir da Arpanet norte-americana dos anos 60, traça um painel das mudanças que as tecnologias estão trazendo para o jornalismo. Integração entre impresso e digital e entre jornalistas e colaboradores são algumas das mudanças assinaladas.

O novo fazer jornalístico evocado pelo ciberjornalismo, pela união entre o papel e a web, as implicações disso em uma nova arquitetura de informação e navegação não são apenas tomados em uma abordagem pragmática, reduzida a normas, a regras que plasmam um modus operandi para a atuação dos profissionais da imprensa. Pelo contrário, o novo fazer jornalístico é sistematicamente problematizado.

Como não podia deixar de caber a um livro sério sobre jornalismo, as questões éticas na rede são ali discutidas. Problematizações hoje imprescindíveis para o webjornalismo, como a autoria e o furo jornalístico, são abordados dentro de matizes de uma ética que deve permanecer intacta, ainda que as tecnologias tenham alterado o fazer da profissão.

Ademais, o livro aglutina discussões sobre pontos ainda pouco sistematizados nos ambientes acadêmicos, embora muito comuns no jornalismo, como o uso dos blogs e das redes sociais pela imprensa, a exploração do potencial da web 2.0 e o papel do público e do jornalista na construção da notícia.

E nesse ponto vale uma ressalva. Sem ser essa sua intenção, o livro levanta algumas questões como: o público está preparado para participar do jornalismo colaborativo? Quais, do ponto de vista desse público, as regras de conduta a seguir? Quais os limites da sua participação e como torná-la mais efetiva sem que se
comprometa o papel do jornalista nesse processo? Essas são provocações esboçadas por Magaly Prado e em relação às quais ela poderia entusiasmar-se e se debruçar para atender às inquietações causadas aos seus leitores. Se o fizer, o fará com a mesma competência que demonstra neste trabalho.

Em síntese, Webjornalismo ensina jornalismo para os próximos anos não apenas como técnica, mas como estética e ética. Como diz Manuel Carlos Chaparro, professor e pesquisador de jornalismo da Universidade de São Paulo, é a tríade ética, técnica e estética do relato veraz que faz o jornalismo de qualidade a serviço da democracia. É com base nessa mirada que o trabalho de Magaly Prado esclarece pontos para que o jornalismo contemporâneo seja entendido como uma web para o jornalismo, uma rede em que jornalistas, conteúdo e público se encontram, negociam seus papéis e constroem a informação indispensável para a cidadania e para o interesse público.

O fôlego, a leveza e a atualidade da obra constituem prova de que Magaly Prado fazem parte de uma geração que adora desafios e que tem o que dizer sobre um jornalismo que fez consolidar-se o webjornalismo, e aí não se tem mais como parar. Mas tudo isso sem se perder de vista do fundamental do jornalismo. Como sentencia a autora, embora a plataforma digital altere o fazer jornalístico, jornalismo é jornalismo em qualquer plataforma. Em outras palavras, o que Magaly Prado propõe é que o webjornalismo será tão melhor quanto mais a serviço dos interesses dos cidadãos ele se colocar. Por isso, é importante que a teoria e a praxis desse jornalismo sejam conhecidas.
 
SERVIÇO:
PRADO, Magaly. Webjornalismo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. 241p.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Toda chuva molha, mas nem sempre transtorna

Enio Moraes Júnior (texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 31/01/12)
Estava prestes a sair para trabalhar. Ao abrir a janela do apartamento, deparei com uma chuva densa e intermitente. As águas corriam caudalosas rentes ao meio-fio da calçada. Era mais uma dessas cenas comuns na grande São Paulo nesse início de ano e que tem causado transtornos na vida de muita gente. Do outro lado da rua, um grupo de adolescentes brincava com a água. A chuva parecia não ter dificultado em nada suas vidas. Eram uma exceção, provavelmente, e seus risos e brincadeiras me fizeram parar para pensar por que alguns de nós costumamos rir quando estamos na chuva.
Arrisquei um palpite: quando ficamos reféns dessas gotas d’água caídas do céu lembramos que nosso poder sobre o mundo e sobre as coisas é finito. Viramos crianças novamente. Desse jeito, excetuando-se casos de maiores tragédias, só nos resta nos molhar e rir daquela situação inusitada, às vezes constrangedora. Foi aí que pensei o quanto tenho lido, nos jornais, reportagens tensas – porém necessárias – sobre as tragédias da chuva Brasil afora. Mas também lembrei que Fred Astaire cantou na chuva e que, especialmente em São Paulo, o ar fica mais puro depois dos temporais. Pensei que os jornalistas bem que poderiam, além das reportagens sobre os transtornos causados pela chuva, escrever crônicas para contar histórias como a dos adolescentes que eu via pela janela.
Ao lembrar as reportagens que tinha lido e lamentar a ausência de crônicas, percebi que exercitava meu pensamento no âmbito dos gêneros jornalísticos. E, assim como observar a chuva, esses gêneros podem ser um caminho curioso para aprender e fazer jornalismo.
Ensaios que aprofundem a discussão
Em uma obra recente, os pesquisadores José Marques de Melo e Francisco de Assis (2010) – articulados a outros autores cujos textos constituem capítulos da obra – sistematizam cinco gêneros jornalísticos na imprensa brasileira e estabelecem, em cada um, formatos específicos. Segundo os autores, o gênero informativo, por exemplo, apresenta pelo menos quatro formatos: nota, notícia, reportagem e entrevista. Os demais gêneros – opinativo, interpretativo, diversional e utilitário –, por sua vez, também guardam suas modalidades.
Entretanto, essa classificação não é estanque. Gêneros e formatos podem variar espacial e temporalmente. Ou seja: ao ser um caminho para se compreender o jornalismo praticado em uma sociedade de um determinado tempo, os gêneros são também uma pista para se compreender cada grupo social. Essa já é, em si, uma razão para se ensinar e se estudar os gêneros jornalísticos como parte da formação do profissional da imprensa.
Mas há outras. O entendimento dos gêneros é uma forma de o jornalista compreender e qualificar a sua própria atuação. São o estudo e o ensino dessas questões que permitem pensar, na hora de conceber uma pauta e construir uma informação, questões do tipo: qual o melhor gênero e, dentro desse gênero, qual o formato mais coerente para elaborar a informação que pretendo transmitir? Dentro da rotina jornalística, muitas vezes, o que se pensou que poderia informar por meio de uma reportagem pode funcionar melhor se for publicada como uma entrevista pingue-pongue em que a fala de um dos entrevistados ganhe força, autonomia.
Do lado do público, pensar questões desse tipo pode ser fundamental para resolver outras equações, como por exemplo: qual o melhor gênero e formato para estabelecer uma comunicação mais qualificada com o público? Às vezes, o público está tão ávido por informações abalizadas sobre um assunto que uma reportagem não é suficiente esclarecê-lo. Jornalistas experientes sabem disso. Eles sabem que pode ser hora de, às reportagens das páginas noticiosas, articular, nas páginas de opinião, ensaios escritos por especialistas que aprofundem a discussão.
A chuva ensinou
O ensino dos gêneros jornalísticos pode ganhar conotação especial no webjornalismo. Como articular os recursos multimidiáticos para elaborar a informação e atingir, de forma mais qualificada, o público da web? Mesclar jornalismo informativo com jornalismo opinativo e articular reportagens em profundidade e testemunhos em vídeo, por exemplo, pode ser um caminho para a construção da informação online. Mas para isso, precisa-se também estudar e compreender os gêneros.
Alguns minutos depois, as gotas d’água insistiam em cair do céu. Tomei o elevador do prédio e saí de casa em direção ao trabalho. Na rua, voltei meu olhar, mais uma vez, para as pessoas que caminhavam por ali. Observei que a rotina delas estava definitivamente alterada. Não apenas pelos inconvenientes de tanta água, mas também pelos risos, hora constrangidos, hora quase infantis, que as gotas faziam brotar.
Toda chuva molha, mas nem sempre transtorna. E a chuva que, naquela tarde, caía em São Paulo, ensinou-me um pouco mais sobre jornalismo. Aprendi que o ensino dos gêneros é importante para lembrar que o jornalismo tem muitos outros lados de histórias para contar!
Referências
BELTRÃO, Luiz. A Imprensa Informativa: técnica da notícia e da reportagem no jornal diário. São Paulo: Folco Masucci, 1969.
CHAPARRO, Manuel Carlos. “A Eficácia das Formas não se opõe à Arte de Escrever. O Xis da Questão”. Disponível em: www.oxisdaquestao.com.br. São Paulo: sd.
MARQUES DE MELO, José. Jornalismo Opinativo. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003.
MARQUES DE MELO, José: ASSIS, Francisco de. Gêneros Jornalísticos no Brasil. São Paulo: Metodista, 2010.
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[Enio Moraes Júnior é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo eprofessor dos cursos de Jornalismo da ESPM-SP e da ECA-USP]

sábado, 17 de setembro de 2011

A reportagem*

Enio Moraes Júnior











Reportagem sobre limpadores de para-brisas que deu origem a outra, socialmente mais relevante, sobre crianças obrigadas a trabalhar


O trabalho de reportagem, que corresponde à apuração, ou seja, à busca de dados e informações a serem passadas para o leitor do texto. Talvez este seja o momento mais importante da atividade jornalística.
É nesta etapa que o repórter busca saber mais a respeito do fato sobre que está escrevendo e dados relacionados ao acontecimento, como nomes de pessoas, razões por que elas estão envolvidas no fato, detalhes do ocorrido etc.
Para isso, é fundamental que o repórter recorra às fontes e às entrevistas.

a. As fontes
Em jornalismo, fontes de informação significam os instrumentos que o jornalista pode dispor para buscar ou aprimorar dados para sua matéria. No contexto da imprensa, uma fonte é qualquer pessoa que presta informações ao repórter.
Mas não apenas pessoas podem ser consideradas fontes. Às vezes o repórter pode recorrer a jornais, revistas, livros, internet, vídeos, rádio e telejornais em busca de informações.
Por exemplo, para fazer uma matéria sobre a exposição de um artista plástico na Pinacoteca do Estado, o ideal é que sejam pesquisados em jornais antigos e na internet dados sobre suas últimas exposições, sua vida e sua carreira. Esta é uma maneira de evitar gafes, muitas delas induzidas por preconceito ou desconhecimento.
Em São Paulo, um amigo foi fazer uma entrevista com um cantor de MPB e um dos dados que tinha era que o artista era capixaba. Como não sabia ao certo o que significava a palavra e não checou, achou que capixaba era quem nascia em alguma região do Nordeste... E lá foi ele fazer a entrevista:
- A música capixaba é diferente da música feita aqui no Sudeste?
O cantor olhou o repórter, frisou o olhar e respondeu:
- Não, ela igualzinha porque ela é feita aqui no Sudeste!
O jornalista teve o bom senso de ficar calado e encerrou a entrevista. Depois descobriu que capixaba é quem nasce no Espírito Santo, que fica no Sudeste.
O repórter poderia ter se dado melhor se tivesse consultado um dicionário ou a internet, que são sempre boas fontes de informação. No entanto, de uma forma geral, as pessoas são mesmo as principais fontes de apuração da informação jornalística. Essa apuração é feita por meio da entrevista.

b. A entrevista
A entrevista jornalística é uma das principais fontes de informação para a mídia. Ela explica, esmiúça, justifica e argumenta o acontecimento. É especialmente por meio dela que o repórter pode entender e amarrar melhor os fatos para levá-lo ao público.
Às vezes publicada na íntegra, em formato ping-pong, a entrevista, nestes casos, constitui uma modalidade específica do jornalismo. Mas normalmente ela funciona como um instrumento de apuração da reportagem.
Em qualquer caso, um dos segredos para uma entrevista bem sucedida são a simpatia e o entrosamento do repórter com o tema e com o entrevistado.
Saber lidar e ganhar a confiança e o respeito do entrevistado e desbloquear os canais para a conversa são pontos chave que o entrevistador tem que vencer.
Ao falar sobre o assunto no livro Entrevista: o diálogo possível, a professora de jornalismo Cremilda Medina diz que a entrevista não deve ser um monólogo, um ato comunicativo em que apenas um dos seus participantes fala, em que só o repórter tem o controle do que é dito.
Para ela, a entrevista deve ser um diálogo entre o jornalista e o entrevistado, favorecendo a relação repórter-entrevistado-receptor. “Um leitor, ouvinte ou espectador sente quando determinada entrevista passa emoção, autenticidade, no discurso enunciado tanto pelo entrevistado quanto no encaminhamento das perguntas pelo entrevistador”, argumenta a professora

A seguir, algumas orientações a serem observadas pelo repórter para a realização de um bom trabalho de campo:

1. Esteja sempre bem informado, especialmente a respeito do assunto sobre o qual desenvolverá a reportagem. As informações necessárias a respeito de temas específicos no momento em que vai fazer uma reportagem podem ser conseguidas no arquivo do jornal, emissora ou em outras fontes de informação, inclusive conversas com especialistas.

2. Marque entrevistas com antecedência e não esqueça, se necessário, de confirmá-las.

3. Seja pontual e apresente-se adequadamente vestido para cada oportunidade. Se você vai cobrir, por exemplo, uma votação na Assembléia Legislativa, seu figurino tende a ser mais formal que o de uma cobertura de um jogo de futebol e vice-versa. E isso não é simples etiqueta. Na verdade, quando o repórter se veste de acordo com a ocasião, ele vence barreiras entre ele, o fato e os entrevistados.

4. Esteja bem relacionado e respeite as fontes, mas respeite, sobretudo, o leitor. Às vezes, determinados jornalistas conseguem informações para os seus leitores que outros jamais conseguiriam graças ao seu bom relacionamento e credibilidade junto às fontes, sejam autoridades ou populares.

5. Concentre-se no seu trabalho. Preste atenção ao que diz o entrevistado. Uma informação inusitada pode reorientar toda a reportagem ou até derrubar a pauta. Numa das minhas primeiras experiências como jornalista, eu estava fazendo uma matéria sobre crianças que limpavam pára-brisas em semáforos da cidade. Ao entrevistar um dos meninos, soube que ele fazia esse trabalho porque seus pais o obrigavam a trabalhar e levar dinheiro para casa sob pena de ser surrado. A pauta sobre os limpadores tornou-se menos importante e outra matéria sobre crianças mal-tratadas pelos pais ganhou destaque nas páginas do jornal. Do ponto de vista do interesse público e da defesa dos direitos humanos este foi um trabalho bem mais importante.

6. Se durante a entrevista você tiver acesso a um dado do qual você desconfie, é fundamental checá-lo antes de publicá-lo, assim você evitará confusões e não levará informações descabidas ao leitor.

7. Elabore uma agenda com telefones, endereços e e-mails de suas fontes. Todo repórter tem a sua e a utiliza.

8. Obedeça às regras da gramática e revise sempre os seus textos.

Bom, agora você já pode entrar em campo. Sucesso!

* Este texto é uma reedição de "A reportagem", de 2006, originalmente publicado em http://www.jornaljovem.com.br/edicao4/editorial_dicas02.php.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A pauta: o roteiro da reportagem*

Enio Moraes Júnior

O jornalismo é definido pela sua vinculação com o interesse público. As pessoas precisam da notícia e da informação jornalística porque, em grande medida, o serviço prestado pela imprensa as ajuda a viver melhor. Por isso, pensar e elaborar uma boa pauta são o começo de qualquer reportagem jornalística que se coloque a serviço dos cidadãos.
A pauta é o guia, o roteiro, o briefing que vai orientar o repórter em seu trabalho. Conceitualmente, a pauta é a solicitação, por parte do pauteiro, do trabalho que ele deseja que o repórter execute. Mas costumo dizer aos meus alunos que quando o trabalho de apuração da informação é feito por apenas uma pessoa, e não há as figuras do pauteiro, do repórter, do editor etc., mas todo trabalho é realizado por apenas uma pessoa, em vez de pauta, é possível falar em roteiro para o trabalho de reportagem.
Ao contrário do que se pensa, deve haver muito cuidado na hora de pensar e preparar a pauta ou o roteiro de reportagem. Além de se refletir bem sobre o que se quer dizer no texto e a maneira como se fala, é preciso criatividade e estar bem informado sobre o assunto que se quer escrever.
Porém, vale lembrar que a pauta ou o roteiro não devem ser uma camisa de força. Se, por um lado, o repórter deve segui-los com precisão, por outro, em alguns momentos, ele deve abandonar sua rigidez e apostar na sua sensibilidade, no seu ‘faro’. Enfim, na hora de elaborar a pauta ou o roteiro da reportagem:

1. Deixe claro, no início da pauta, a retranca e o tema de que deverá tratar a reportagem.
2. Em seguida, deixe clara a angulação da matéria. Nada, nem mesmo a mais pretensamente neutra cobertura jornalística, é imparcial. A forma de ver o mundo e de enxergar os conflitos que rodeiam os cidadãos – seja da empresa, do jornalista ou do repórter – sempre estão presentes no jornalismo. Por isso, posicione-se logo. Esclareça o posicionamento, a angulação da matéria.
3. Pesquise sobre o assunto: anote dados relevantes e que já estão disponíveis em algum lugar. Hoje em dia, além dos jornais, a internet e sites de busca como Google são boas fontes para essa etapa do trabalho;
4. Em seguida, aponte os elementos a serem problematizados. Esclareça para o repórter – no caso de estar elaborando uma pauta – ou para você mesmo, em se tratando de um roteiro – o que a matéria vai acrescentar às informações já disponíveis;
5. A seguir, indique fontes a serem ouvidas, ou seja; as pessoas que podem ser entrevistadas sobre o assunto. Sugira as possíveis perguntas a serem feitas pelo repórter e, por fim, anote nomes e, na medida do possível, e-mails e telefones das fontes. Neste ponto, lembre-se que nem sempre apenas as autoridades são ouvidas. Sugira também entrevistas com pessoas do povo, e aí nem sempre você precisa citar nomes;
6. Se você dispuser de equipamento fotográfico, não deixe de sugerir ou roteirizar fotos e imagens que devem, junto com o texto, ilustrar o trabalho;
7. No final, indique o número aproximado de laudas que o repórter tem para escrever. Uma lauda, para quem ainda não tem familiaridade com a linguagem jornalística, corresponde a um conjunto de 1400 (mil e quatrocentos) caracteres contados os espaços. Uma matéria jornalística de um tamanho razoável tem, em média, duas laudas.

Com as dicas acima, a sua pauta ou roteiro estão prontos e o seu repórter ou você está mais habilitado a fazer o trabalho de campo: a reportagem. Veja no exemplo de pauta a seguir como podem ficar os tópicos de que falamos acima.

Retranca: Eleições
Tema: O voto do jovem
Data: 20 de outubro
Deadline: 03 de novembro
Angulação: Partindo de uma crítica à situação política nacional, a ideia é discutir a questão do primeiro voto do jovem, tema que interessa a muita gente em ano eleitoral.
Informações preliminares: Corrupção, CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) quase intermináveis, alguns deputados com mandatos cassados e muitos outros absolvidos contando, muitas vezes, com as benesses e os privilégios das amizades do meio político nacional. Este é mais ou menos o desolador quadro da política brasileira e, em meio a isso tudo, a população parece cada vez mais distante da vida e das decisões políticas. Os jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez em outubro deste ano, nem sempre sabem quais os critérios que devem levar em conta para escolher seus candidatos.
Fontes e sugestões de perguntas:
Bruno Konder Comparato, cientista político, professor da Universidade de São Paulo:
• Por que a política brasileira passa por essa crise de credibilidade e interesse? O quadro sempre foi este ou agravou-se nos últimos anos?
• É importante o voto do jovem? Quais os critérios que ele deve estabelecer para escolher seus representantes nos espaços políticos nacionais?
• Como o jovem pode acompanhar mais de perto as decisões e cobrar mais dos políticos?
Jovens, especialmente com aqueles que votam este ano pela primeira vez;
• Você acha que participa da vida e das decisões políticas do País? Por quê? Se participa, de que forma faz isso?
• Quais os critérios que você adota para escolher seus representantes?
Temos no mínimo duas e no máximo três laudas para contar essa história. Vamos também fazer fotos de todos os entrevistados e também da fachada da sede do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TER / SP) para ilustrar a matéria.


Contato: Prof. Bruno Konder Comparato
Telefones: (11) AAAA-BBBB/ CCCC-DDDD
E-mail: ABCD@XXX.com.br
TSE: Rua JJJJJ JJJJJ MMMM nNNN

* Este texto é uma reedição de "A pauta: o roteiro da reportagem", de 2006, originalmente publicado em http://www.jornaljovem.com.br/edicao4/editorial_dicas01.php.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O texto é um bolo para comer com café

Por Enio Moraes Júnior
Foto: entrereceitas.blogspot.com



Sempre me encantou saber que as coisas podem ter receitas e que cada uma delas pode ser um guia para a gente seguir na cozinha, na escrita dos textos jornalísticos ou na vida. Jamais esqueci os cadernos de receita de dona Joene, minha mãe. Como nunca fui lá um grande cozinheiro, acho que a melhor coisa que aprendi nesses cadernos foi a admirar o método das receitas.
Embora para cada cozinheiro o bolo vá resultar de um ou de outro jeito – como dizem os mestres-cuca, tudo depende muito "da mão" de quem cozinha –, as receitas tendem sempre a conduzir a resultados satisfatórios.
Além disso, me encantava perceber que a confiança trazida pela experiência passava a dispensar a receita ali ao lado. Fosse na comida preparada por dona Joene, nos salgados da tia Lúcia, nos beijos-de-caboclo da dona Ângela ou nas compotas da dona Marly – cozinheiras talentosíssimas que marcaram meu paladar desde muito cedo –, cozinhar tornara-se quase um exercício do espírito. Quase uma ioga, quase uma levitação.
E essa leveza permite algumas ousadias que só quem tarimba competentemente com a dupla forno-fogão pode ter, como fazer bolos azuis ou brigadeiros com milho verde. Mas enfim, atrevimentos à parte, sempre é bom começar bolos e textos por receitas. E quanto mais simples elas forem, melhor.

Ingredientes, a razão de escrever

Leite, ovos, manteiga, açúcar e farinha de trigo. Normalmente são esses os ingredientes que não podem faltar para se fazer um bom bolo. Mas para se fazer um texto, especialmente um bom texto argumentativo, quais seriam os ingredientes indispensáveis?
Se para o bolo, os ingredientes vêm da natureza ou da mercearia, no texto, eles vêm da alma. Eu sempre digo que gosto de ler sobretudo porque gosto de escrever. E é verdade.
A leitura é a minha motivação, a minha enteléquia, a minha força motriz para fazer o que mais gosto: escrever. E quando falo de leitura não falo apenas de ler livros, jornais ou sites. Falo de ler a vida, de ler gente e de ler lugares. Ao observador atento, tudo termina sendo importante. Os ingredientes para um bom texto são as nossas sensações, as nossas subjetividades. Aquilo que somos e aprendemos a ser observando, olhando, "lendo" a vida que passa por nós e o nós que passamos por ela.
Algumas pessoas tiram esses ingredientes sobretudo da política, da economia, das artes. Outras tiram-nos das pessoas, das dores, da fé (licidade), da vida. Não importa de onde vêm os ingredientes, o fato é que eles são a base de qualquer bolo. Digo: de qualquer texto.
Para fazer um texto, cada pessoa tem que descobrir qual é a sua fonte de ingredientes. Uma boa dica é se perguntar: o que, de fato, me interessa? Os ingredientes da sua razão de viver – e de escrever – estão nesse amálgama de coisas.

Artigos e perfis

Ingredientes em mãos, é hora de misturá-los. Mas não saia quebrando os ovos nem derramando o leite. Em primeiro lugar, trace um roteiro para o seu texto, estabeleça uma sequência lógica com começo, meio e fim. Elabore tudo isso como se fosse uma receita de bolo do que você quer escrever e siga essa receita. Comece anotando seu pressuposto, a afirmação inicial que motivou o seu interesse por escrever o texto. Depois, anote os argumentos – e, se for o caso, os contra-argumentos – do seu texto. Ou seja: os elementos que você vai utilizar para defender ou ponderar em relação ao seu pressuposto.
Em segundo lugar, comece a preencher esse roteiro com seu texto. Se for o caso, utilize autores para subsidiar seus pontos de vista. Procure dar atenção à clareza e à coerência do que escreve. Ser claro significa que as pessoas devem entender o que você quer dizer, ser coerente significa que o que você diz tem que ter lógica, sentido, e estar bem argumentado. Mas cuidado: seja claro sem ser primário, seja coerente sem ser óbvio.
Lembre-se que alguns textos tendem a ser mais objetivos. É o caso dos memorandos, dos relatórios e de algumas reportagens jornalísticas para páginas de Economia ou Política. Outros são mais livres. É o caso dos textos argumentativos e dos textos literários. No caso da imprensa, incluem-se aqui o jornalismo opinativo e o jornalismo literário. Os artigos e os perfis, por exemplo, permitem esse tipo de liberdade. E algumas vezes, felizmente, em nome da liberdade da linguagem, são quase uma libertinagem! Depois de pronto o seu texto, volte a ler o material.

Café dá um toque de lucidez

Em terceiro lugar, recheie o seu texto com o seu estilo. Aqui é hora de colocar em prática o seu toque pessoal; características de escritor que você desenvolveu de forma peculiar, que você percebe que emergem de você. Estilo é personalidade! Mas lembre-se que esse recheio vai depender também, e muito, do objetivo do material. Alguns bolos têm recheios mais simples, como o noticiário econômico ou político. Outros têm recheios mais adocicados e caprichados, ao gosto de grande parte do jornalismo opinativo e literário.
O recheio é o que dá o toque de cada um ao bolo. Aí, até mesmo os cozinheiros mais iniciantes têm espaço para testar a sua criatividade. Às vezes até não se tem recheio no bolo, mas convenhamos: é o recheio que deixa, lá dentro do bolo, a surpresa, o toque de cada mestre-cuca. Há recheios que são apenas caldas de açúcar. Outros, podem ser chantilly ou cremes de chocolate. Você poderá utilizar metáforas para rechear um texto. Você pode falar sobre redação de textos, por exemplo, recheando-o com bolos. Entende?
Em quarto lugar, prepare a cobertura. Ela é a "cara" final do bolo. No jornalismo, diríamos que se trata da edição do texto. É hora de titular, subtitular e, se for o caso, escolher fotos e legendas. Enfim, é hora de arrumar tudo, de dar ao texto o seu aspecto final.
Todo esse trabalho deverá obedecer aos critérios e às pretensões do cozinheiro. A cobertura poderá ser uma simples calda de açúcar ou uma irresistível e densa calda de chocolate coberta com displicentes granulados de brigadeiro. Assim, um texto mais objetivo terá um título e um subtítulo mais seco. Uma escrita mais livre e literária terá uma "cara" mais jocosa ou criativa.
Novamente leia e releia o material. Faça ajustes, corte excessos! Assim como dona Joene faz, use a espátula e tire aquele monte de doce que escorre e mela a bandeja. Se ninguém estiver olhando, grude tudo nos dedos e lamba-os como se aquela displicência fosse um segredo só seu e, talvez, de um ou outro cúmplice que está por perto. No caso de dona Joene, geralmente eu e meus irmãos!
Pronto! Babe à vontade, delicie-se com a sua obra. Se você gostar e achar que tudo tem clareza e coerência, terá grandes chances de agradar seu leitor. Depois de servir, saboreie cada pedaço olhando nos olhos e na alma de cada um deles.
Ah, e não esqueça o café. Todo texto é um bolo para comer com café. Ele dá um toque de lucidez e aí você já começa a pensar em fazer novos bolos. Digo: novos textos!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Opinião Pública

Enio Moraes Júnior

Num ensaio em que tenta pensar uma resposta para a sutil pergunta "para onde vai o mundo?", Edgar Morin utiliza seu pensamento complexo para nos fazer entender que o futuro não está só no futuro. Ele é uma consequência do passado, do presente e também das próprias prerrogativas que se tem em relação a esse futuro:

(...) o jogo do vir a ser é uma prodigiosa compelxidade. A história inova, deriva, desorganiza-se. Ela muda de trilho, descarrila-se: a contracorrente suscitada por uma corrente se mescla com a corrente, e o descarrilador tornase a corrente. A evolução é deriva, transgressão, criação; é feita de rupturas, perturbações, crises (MORIN, 2010: 16).

Qual será o futuro do Brasil? No final dos anos 60, Arnaldo Jabor traçou um importante e irretocável retrato da classe média carioca que pode nos ajudar a pensar o que seremos amanhã com base no que fomos ontem, do que somos hoje e do que pensamos ontem sobre o que seríamos amanhã, hoje.
A Opinião Pública, atualíssimo, é de 1967. E se não nos ajuda a compreender o passado, o presente nem a pensar sobre como será o futuro, nos ajuda a pensar sobre o que somos. Como diz Morin:



"Cada qual, em seu aqui e agora, sente-se muito distante da Humanidade, noção abstrata que se dilui no alures e no vir a ser" (MORIN, 2010: 55).

Referências
JABOR, Arnaldo (dir.). A Opinião Pública. Documentário. 114 minutos. Rio de Janeiro: Versatil, 1967.
MORIN, Edgar. Para Onde Vai o Mundo?. Petrópolis: Vozes, 2010.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Entrevista: As várias dimensões da formação profissional

Texto e foto: Enio Moraes Júnior
Edição final: Jornal da USP

Formosinho:
"Educação para as mídias é parte importante da educação atual"

João Formosinho é professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Portugal. Nesse país preside o Conselho Científico Pedagógico de Formação Contínua de Professores e é membro do Conselho Nacional de Educação. Com um destacado trabalho na área de educação da infância, Formosinho tem dividido, com a esposa, a também professora Júlia Oliveira Formosinho, a coordenação do Mestrado em Educação de Infância da Universidade do Minho e a presidência da Associação Criança.
Doutor em Administração Escolar pela Universidade de Londres, Formosinho tem também pesquisas e trabalhos publicados nas áreas de organização escolar, formação de professores e currículos. Nesta entrevista, ele fala sobre universidade e educação superior. Para o autor, que em junho deste ano foi congratulado pelo presidente da República de Portugal, Cavaco Silva, Comendador da Ordem de Instrução Pública, honra recebida por sua colaboração para a educação em seu país, a formação acadêmica deve enfatizar dimensões éticas e humanas. Além disso, não há como a universidade formar superprofissionais. “Nas organizações complexas, os profissionais têm de saber atuar, mas elas também têm que assumir responsabilidades”, alerta.

Jornal da USP – Existe um conceito no seu pensamento que é a escola de massas, marcada pela obrigatoriedade escolar e pela promessa de status e ascensão social. A universidade hoje é também uma escola de massas?

João Formosinho – Sim. Acho que estamos perante uma universidade de massas. Aliás, nota-se isso no primeiro ciclo de formação. E podemos dizer também que o Processo de Bolonha (acordo assinado por 29 países da União Europeia com o objetivo de unificar o ensino superior no continente), ao criar, no ensino superior português e europeu, três ciclos – o primeiro, licenciatura; o segundo, mestrado; e o terceiro, cursos avançados, de doutoramento –, consagra um pouco essa universidade de massas. Claro que essa massificação é dada sobretudo no primeiro ciclo. A universidade tem, claramente nesse ciclo inicial, assumido muitas características de escola de massas. E isso tem muitas implicações, claro.

JUSP – Essas implicações estão associadas às três características que o senhor assinala na escola de massas: heterogeneidade humana, uniformidade curricular e complexidade organizacional?

Formosinho – Eu diria que têm relação com pelo menos duas dessas características. A heterogeneidade humana é evidente, hoje, na universidade. Aliás, os professores universitários queixam-se, e quase sempre se queixaram, de que os alunos não são como eram há tempos atrás, como vinham antes. Mas agora há de fato uma heterogeneidade muito maior do ponto de vista social, de interesses e de motivações. Vir para a universidade não é só estar a ter acesso a aulas. É também sair de casa pela primeira vez, é gerir a vida autonomamente, até em níveis financeiros. É, enfim, ter maior liberdade de ação. Portanto, há um outro conjunto de experiências que marcam essa heterogeneidade. Por sua vez, a complexidade organizacional é evidente também. A universidade tem claramente o ensino de massas no primeiro ciclo, mas depois o ensino se torna especializado, sobretudo no doutoramento. E como é que se administra e se concilia isso com as vertentes de ensino, investigação e extensão? É complexo. E esse é claramente um problema atual da universidade. Por fim, eu acho que a uniformidade curricular não está tão evidente na universidade atual.

JUSP – Podemos dizer que um elemento importante do Protocolo de Bolonha é essa tentativa de uma uniformidade curricular?

Formosinho – Para Bolonha tem que haver, se não uma uniformidade, pelo menos uma equivalência clara do ponto de vista curricular no nível da União Europeia. Claro, já há uma uniformidade que leva à organização do ensino superior em três ciclos, e isso leva a outra uniformidade em termos de graus: pelo menos as profissões têm uma formação que é muito mais comum. Portanto, para poder atender ao objetivo de Bolonha, necessita-se que haja uma uniformidade muito maior na União Europeia. E, por consequência, tem que haver uma maior uniformidade curricular do que é exigido a um jurista, a um médico, a um professor etc.

JUSP – O senhor elabora uma teoria para a formação de profissionais de desenvolvimento humano, assinalando que ela deveria enfatizar um conhecimento pluriuniversitário, baseado numa aprendizagem decorrente das práticas sociais e do diálogo entre a escola e a sociedade. Quais as implicações de Bolonha para a formação desses profissionais?

Formosinho – Se nós pudermos aproveitar o esquema de Bolonha para pensar nisso, vemos claramente que há uma abertura, uma sensibilização à formação de profissionais de desenvolvimento humano. Em termos meramente teóricos, essa formação pode começar logo no primeiro ciclo, porque nessa etapa o ensino é mais aberto, podendo haver várias disciplinas comuns para várias formações. Isso porque são muitas as profissões que estão inseridas entre as de desenvolvimento humano, não são só os professores. Técnicos de serviço social, por exemplo, e outros tipos de profissionais que estão nessa classificação podem ter algum tipo de formação comum que os sensibilize para esses aspectos do conhecimento pluriuniversitário, das práticas sociais e do diálogo.

JUSP – O senhor tem experiência também na articulação entre comunicação e educação. Educar para as mídias é um caminho para superar os efeitos da escola de massas?

Formosinho – Sim, penso que sim. Ao pensar uma educação para as mídias, nós estamos perfeitamente mergulhados numa certa compreensão da sociedade. Na sociedade atual, nós não podemos compreender as mídias sem compreender a sociedade e, ao mesmo tempo, não podemos compreender a sociedade sem compreender as mídias. Portanto, a educação para as mídias é uma parte importantíssima da educação atual. É óbvio que hoje a escola tem uma competição muito difícil com as mídias. Se recuarmos 80 ou 70 anos, em Portugal, vamos ver que em 1940, por exemplo, o manual da escola era o único livro que alunos do ensino primário ou fundamental tinham em casa. Não havia televisão e poucos tinham acesso ao rádio. Hoje, de fato, isso mudou radicalmente. A escola vê que há formas muito mais poderosas e influentes em termos de transmissão de comportamento. A televisão, por exemplo, é muito mais poderosa, tem imenso poder sobre os jovens. Portanto, a escola vai ter que pensar como articular essa questão das mídias para a educação e saber usar instrumentos mais interessantes. Por exemplo, quem quiser saber sobre vida animal tem vídeos com muito mais impacto do que os recursos que a escola usa. E a educação para as mídias, evidentemente, insere-se cada vez mais na educação, de maneira que educar para as mídias é educar para a vivência social. E essa vivência não se faz sem as mídias.

JUSP – O senhor fala de quatro dimensões da formação de professores – a intelectual, a técnica, a ética e a relacional – e diz que a dimensão ética e a relacional precisam ser enfatizadas na formação do profissional de desenvolvimento humano. Isso é coerente com os valores da sociedade de mercado?

Formosinho – Não muito, infelizmente. É na dimensão técnica e intelectual que as profissões de desenvolvimento humano diferenciam-se claramente. E é nas dimensões ética e relacional que se consegue perceber que elas fazem parte de um mesmo tipo de profissão. E, portanto, esse é um aspecto muito importante se considerarmos que o que eles têm em comum são, na base, as dimensões ética e relacional. É evidente que os professores e a organização da universidade têm uma ética e transmitem-na. Ela pode ser transmitida objetivamente por várias dinâmicas, dentro do espaço, pelos professores e até pela universidade, óbvio. Mas na nossa sociedade existem claramente vários conflitos éticos, presentes nas próprias atividades do dia a dia das profissões. As sociedades capitalistas têm, mais ou menos, a lógica de que, no fundo, os fins justificam vários meios. Por isso há outra ética, claro, que deve ser transmitida nesses cursos, que é a ética da responsabilidade, uma ética de valores em que nem tudo é possível. Mesmo que os fins sejam positivos, nem tudo é possível.

JUSP – O senhor tem um outro conceito, o do superprofessor. Quando a universidade, de uma forma geral, investe sobretudo nas dimensões técnica e intelectual, será que ela está tentando formar um superprofissonal?

Formosinho – Claro que a formação de um profissional tem uma dimensão de estágio de avaliação profissional em ação, onde, aliás, a maior parte das questões técnicas, éticas e relacionais surgem. No caso da formação de professores – e há outras profissões em que acontece o mesmo –, há questões relacionais que só podem ser diagnosticadas quando o professor está em relação com as crianças, porque nas aulas teóricas isso não é possível. Mas o problema é que nas universidades cada vez tem que se fazer mais com menos recursos. E tudo o que é avaliação de desempenho profissional no contexto de trabalho ou mesmo de estágio consome muita mão-de-obra. A universidade não tem dinheiro para isso. Além disso, há também o interesse da universidade em não valorizar determinados aspectos relacionais porque não tem maneiras de os avaliar. E eu diria que o que está por trás, na maior parte das vezes de forma implícita, é que isso vai ser julgado adiante, na profissão.

JUSP – Ao falar da formação de professores, o senhor critica o discurso do superprofessor, que é utópico, normativo e que transforma as funções normativas da escola em obrigações morais e individuais do professor. Podemos falar em um discurso do superjornalista e considerar que ele transforma as funções da imprensa em obrigações do jornalista?

Formosinho – No jornal, há jornalistas, mas também há editoriais e há interesses. Portanto, imagine que uma reportagem está falando sobre o bullying, por exemplo, de uma forma sensacionalista. Isso pode acontecer por várias razões, desde porque o jornalista quer ter algum protagonismo, por uma lógica de denúncia ou para dar conhecimento de uma dada situação. Seja como for, há outros órgãos no jornal que têm que fazer a triagem em relação a isso. O jornal não é apenas um conjunto de jornalistas. Portanto, a responsabilidade organizacional e social é do jornal, dos seus órgãos. Aliás, eu diria que a grande diferença de qualidade entre muitos jornais está exatamente no exercício da responsabilidade social não só por parte dos jornalistas, mas também por parte dos seus diretores e órgaõs editoriais. Um bom jornal não pode atribuir ao jornalista todas as responsabilidades. Na imprensa há um conjunto de responsabilidades que deve ser exercido por todos. O mesmo ocorre na escola. Por exemplo, o bullying é muitas vezes um exercício silencioso. Todos nós, que temos experiência em escolas, a uma dada altura notamos quando um aluno está sempre a provocar e a chatear um outro, mesmo que isso seja feito silenciosamente. E quando o professor diagnostica isso, há um limite até onde ele pode intervir, mas há um momento em que essa intervenção não é mais responsabilidade só do professor. A responsabilidade tem que ser assumida pela escola enquanto organização. Aliás, nas organizações complexas, os profissionais têm de saber atuar, mas elas também têm que assumir responsabilidades.

Eu liofilizo, tu liofilizas

Enio Moraes Júnior
Imagem: http://www.nescafe.com/
 
As palavras e os encontros têm magia. Liofilização. Adorei essa palavra, foi paixão a primeira vista. Ouvi pela primeira vez da boca de uma amiga que disse que provavelmente eu já conhecia o seu significado das aulas de química. Acontece que sempre fui muito mau aluno nas disciplinas das Ciências Naturais, a que eu costumava me referir como se fosse uma tríade que agia contra mim durante a vida escolar: física-quimica-e-mateMÁtica. Assim, não estranhei que, se é que eu a conhecia, não lembrasse seu significado.

Precisei de um encontro com alguns amigos químicos para decantar melhor essa palavra. Liofilização! Achei a palavra tão bonita que desceu mais suave no meu paladar do que um bom vinho português que eu estava bebendo naquela tarde de domingo. “Liofilizar é transformar algo líquido em pó”, disse um deles. “Nescafé”, disse outro. “No laboratório fazemos isso”, disseram também. “Se você quiser, poderá ir lá conhecer como funciona”, propôs outro.

Mas mais do que conhecer, de fato, qual o significado daquela química, a mim me interessava mais tergiversar sobre a questão, filosofar sobre a possibilidade de algo concreto, sólido, poder virar pó, esvaecer.

Incrível maravilha da química! O vinho descia mais suave ainda. Adorava tudo, cada explicação, cada imaginação. Comemorei a possibilidade de ver o processo, mas adorei sobretudo a palavra. Enquanto aquele grupo de amigos falava das possibilidades liofilizicistas, fiquei em silêncio, conjugando o verbo: Eu liofilizo. Tu liofilizas. Ele liofiliza. Mas seria possível liofilizar gente, pessoas? É possível liofilizar os amores, as paixões?

Nós liofilizamos, vós liofilizais, eles liofilizam. Comecei a viajar numa liofilosofia. Pensei o quanto essa palavra é rica, o quanto a simples ideia, tão simples, de uma reação química pode ser rica, despertar pensamentos e possibilidades.

Se eu pudesse liofilizar alguém, quem eu liofilizaria? De quem eu decantaria toda a água e transformaria em pó? Com que objetivo? Consumir depois, quando eu quisesse? Consumir como? Comer, beber, amar? Mas teria que antes diluir na água… Nossa, quanto poder, quanta responsabilidade! Quanta coisa uma palavra pode trazer a tona…

Liofilizar pensamentos, emporificar o pensamento para pensá-lo depois. Seria possível? Isso desafiaria até a própria Filosofia. Mais um gole de vinho. Enquanto a bebida descia, subia à mente a lembrança da água, usada por filósofos gregos como alegoria para pensar o tempo. Heráclito era o filósofo triste porque olhava para a água do rio e entristecia-se porque aquela água que passava ali jamais voltaria a passar novamente.

Demócrito era o filósofo alegre, que ria. Mas ria de tristeza e o riso tinha a mesma razão do choro de Heráclito: a certeza de que a água não voltaria. E se eles liofilizassem a água? E se eles liofilizassem o tempo? E se o tempo pudesse ser parado, suspenso, liofilizado? Se o tempo pudesse ser estocado em vidrinhos de Nescafé, seríamos mais felizes?

Continuei pensando em quem eu liofilizaria, como e porque. Pensei também se alguém me liofilizaria, com e porque. Uma nova rodada de vinho, despertada pelo trincado do gargalo da garrafa na minha taça, fez-me acordar da viagem solitária.

Esse vinho poderia ser liofilizado?, perguntei aos meus amigos químicos. Eles me olharam como se estivesse entendendo o convite para a minha viagem. Mal tiveram tempo de pensar numa resposta para a pergunta provavelmente absurda, continuei: e as pessoas, e os amores, e o tempo? Tomamos mais vinho para maturar aquelas questões. Resolvemos nos fotografar. Transformávamos aqueles instantes para contemplarmo-lo depois. Sem perceber, executávamos uma liofilização daquele vinho e daqueles momentos. Liofilização. As palavras e os encontros têm magia!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Crônica dos pa-ra-le-le-pí-pe-dos

Enio Moraes     Júnior
Imagem: http://4.bp.blogspot.com/



Palavra igual àquela, jamais havia ouvido ou pronunciado. O esforço para soletrá-la, então, desafiava sua inteligência de menino. E se achava inteligente! As professoras insistiam para que ele conseguisse soletrar e depois das aulas com a Anilde, com a Ana e com a Rosângela, conseguiu: pa-ra-le-le-pí-pe-dos. Paralelepípedos. Ufa!
Pouco tempo depois descobriu também que levava um acento no “I” porque era uma palavra pro-pa-ro-xí-to-na. Proparoxítona. Esta já pronunciava com facilidade! Os paralelepípedos o haviam deixado seguro e confiante para o soletramento de palavras novas e, até então, de pronúncia complicada.
Numa certa altura, deu-se conta que a regra de acentuação de paralelepípedos servia também para proparoxítona. Daí em diante foram tantas as associações entre as palavras, as regras e o mundo a sua volta que jamais parou de querer aprender.
No entanto, havia uma associação prosaica entre os tais paralelepípedos e o universo daquele menino de interior. De alguma forma, ele achava que aqueles cubos pesados que forravam as ruas, e que, vez por outra, ele usava para apoiar ouricuris e quebrá-los com uma pedra menor, só existiam em Penedo, a cidade do interior de Alagoas, no Nordeste do Brasil, onde nascera e morava.
Achou até que o “P” de Penedo devia-se aos tais paralelepípedos. E elucubrava uma razão técnica para isso: sabia que o nome da cidade era derivado de um tipo de rochedo que existia na região. Imaginava que alguém tivesse pego pedaços do rochedo, esculpido em cubos, e coberto as ruas.
Entre uma descoberta e outra, exultava quando o pai ou a mãe conduziam o carro da família pelas ruas de Penedo cobertas por aqueles cubos… A irregularidade característica do tipo de calçamento fazia com que, de vez em quando, o automóvel solavancasse e cada salto era uma diversão. Era um prazer soletrar cada uma das sete sílabas a cada sobressalto: pa-ra-le-le-pí-pe-dos. E ainda torcia para que o solavanco maior coincidisse com o “PÍ”, a sílaba tônica que colocava a sua palavra querida na lista dos proparoxítonos.
Às vezes os pais traziam no carro os irmãos ou as avós, mas o menino ria-se baixinho, para não despertar suspeitas da sua gostosa e secreta viagem. Sair do Largo de Fátima, passar em frente ao Diocesano, descer pelo Rosário Estreito, passar pela rua da Igreja do Rosário, pelo Gabino Besouro, pela Catedral e chegar ao Cais era uma aventura pa-ra-le-le-pi-pe-dística que ele guardava para si como um prezeroso segredo!
Pouco tempo depois, descobriu que outras cidades tinham também os tais paralelepípedos. Não ficou decepcionado. Gostou! Achou que poderia viver em qualquer uma delas. Sentiu que poderia encontrar os cubos de Penedo onde quer que fosse. E foi.
Cresceu e descobriu também que nem todo lugar tem paralelepípedos de verdade, alguns lugares têm ruas lisas, quase encarpetadas. Mas mesmo nesses lugares continuava a sentir na alma os solavancos causados pelos velhos cubos que conhecera na infância.
Foi então que se deu conta que paralelepípedos eram, além dos cubos, sentimentos seus. Eram saltos no peito a cada descoberta feita, a cada conquista realizada, a cada alegria experimentada. Mesmo depois de crescido, jamais esqueceu esta lição. Vez por outra, onde quer que ele esteja, as descobertas e as surpresas da vida lhe solavancam a alma. Então ri baixinho e não se contém: pa-ra-le-le-pí-pe-dos!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Educação, progresso e pessoas

Enio Moraes Júnior

Os movimentos que têm ocorrido em todo o mundo em defesa da qualidade da Educação, a exemplo das manifestações acadêmicas em Lisboa neste mês de novembro de 2009, têm trazido à tona diversas questões diretamente relacionadas ao ensino, mas que também dizem respeito ao progresso sócio-econômico das comunidades e dos países e à felicidade das pessoas.
Segundo o jornal português Correio do Minho, “os estudantes universitários pretendem defender ‘uma acção social mais justa’ e um ‘maior investimento no Ensino Superior que concretize a vontade dos alunos de terem um ensino de qualidade, factor fundamental para o desenvolvimento do país”. E isso é coerente. Mas ainda assim, é bom que tenhamos claro que a defesa da qualidade do ensino – seja em que nível for – deve nos colocara sempre diante de uma questão central: por que precisamos da Educação?
Essa parece uma pergunta de resposta óbvia, mas é uma questão diante da qual governos, cidadãos ou até mesmo aqueles que estão mais diretamente no espaço escolar – professores e alunos – nem sempre conseguem se colocar. Em parte, essa dificuldade de nos defrontarmos com ela aparece porque o processo de ensino-aprendizagem ocorre muito cedo em nossas vidas: mal nascemos e já nos embrenhamos nele bem antes dos bancos escolares.

Educação e escola – A família, a comunidade e a cultura são espaços iniciais e importantes de educação. No entanto ao institucionalizar-se socialmente como espaço privilegiado para a formação do indivíduo para viver e agir em sociedade, a educação deve servir para assegurar o compromisso desses indivíduos com o outro, com os direitos humanos e com a cidadania. Nesse sentido, a educação vai encontrar uma acepção mais formal no conceito de escola.
Foi o conceito de trabalho, aliás, que trouxe uma distinção entre educação e escola que ficou mais clara a partir dos anos 60 do século XX. Enquanto educação referia-se ao constante processo de aprendizado inerente à qualidade humana no dia-a-dia de suas relações sociais, seja na família, na rua ou no trabalho, a escola referia-se a um tipo específico de apreensão do conhecimento formalizado e organizado.
É a concepção de trabalho, pois, que vai diferenciar educação e escola. Enquanto nos períodos primitivos da história da humanidade a educação confundiu-se com as formas de intervenção do homem sobre a natureza para servi-lo, o trabalho, na Antiguidade, tanto na civilização grega como romana, os dois conceitos passam a servir diferentemente a cada classe social. Enquanto os nobres recebiam uma educação específica nas escolas, ligadas à oratória e à política, por exemplo, os servos eram educados pelo e para o próprio trabalho. Na Idade Média, a diferenciação continuou entre nobres e plebeus.
Já na Idade Moderna, com o desenvolvimento do Capitalismo e a conseqüente urbanização das cidades, a escola, incorporada aos valores da burguesia, passou a funcionar também como forma de adaptação do trabalhador ao mercado. Na perspectiva do capital, a escola passou a ser entendida como forma dominante de educação.
Assim, muito do propósito de democracia, de distribuição igualitária de bens e riquezas e felicidade a escola não realizou. A história da Contemporaneidade é a história dos conflitos ungidos nas lutas por esses propósitos. A história do Socialismo, a rigor, é mais do que qualquer outra, essa história.

Percepção e ação – E para que serve então, hoje, a Educação? Ela serve, pois, para nos fazer perceber essas contradições e conduzir a ações no sentido de desfazê-las e, enfim, nos fazer mais felizes na vida comunitária. É essa preocupação que deve ocupar o centro dos movimentos que têm ocorrido em todo o mundo em defesa da qualidade da Educação como também as preocupações de todo indivíduo que tome parte nesse tipo de evento.
Seja em que sentido for, a educação deve atender ao nosso compromisso humano de sermos felizes no mundo e fazermos felizes as pessoas – de todo o mundo – com as quais convivemos. E esse é, por excelência, o sentido da Escola e da defesa da sua qualidade.
Manifestar-se por uma educação de qualidade é, pois, reinvidicar uma ação social mais justa e a qualidade do ensino para si, mas também entender-se compromissado com esse agir no sentido do outro. Isso significa dizer que no centro de quaisquer discussões sobre a qualidade da educação deve estar o indivíduo e a cidadania, e não interesses particulares e modelos econômicos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Blá-blé-bli-bló-blog

Texto: Enio Moraes Júnior
Imagem: tangaslesbicas.wordpress.com



As atuais tecnologias e suas ferramentas são instrumentos eficazes no processo ensino-aprendizagem. Precisamos apenas aprender esta e outras lições...


Quando Gutenberg criou os tipos móveis no século XV nem de longe imaginava que um dia redimensionaríamos seu invento e o transformaríamos em fluidas letras que acenam nas telas dos computadores. Embora muito já tenhamos escrito e lido sobre a aplicação das tecnologias informacionais e comunicacionais na educação e a utilização da blogosfera nesse contexto, por mais que professores venham fazendo, junto com os seus alunos, experimentações nesse sentido, cada experiência, em cada realidade escolar, traz resultados diferentes. Algumas vezes são respostas muito positivas no processo ensino-aprendizagem, outras vezes, nem tanto. Em todo caso, sempre são aprendizados.
O fato é que há algum tempo vêm sendo realizadas experiências nessa área e, na maior parte das vezes, são confirmadas as vantagens dessas incursões. Do ponto de vista didático, tem chamado atenção a dinamização da relação professor-aluno via e-mail e Orkut e a diversidade de fontes de informação que essas tecnologias, sobretudo a internet, oferecem para pesquisas de docentes e discentes.

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Foco no estudante - Especialmente no caso dos estudantes do ensino fundamental e médio, esse tipo de experiência tem feito eco ao pensamento de Carl Rogers (1973) ao falar do ensino centrado no estudante e em seu universo. Como informa uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, “para conseguirem a atenção das crianças, instituições de ensino se adaptam à realidade do seu público-alvo, acostumado, desde cedo, a ter acesso a ferramentas tecnológicas”. Com isso, os alunos têm demonstrado maior entusiasmo para as aulas e, de quebra, os pais podem acompanhar pela rede a produção dos filhos.
Os cursos de graduação também têm investido pesado nas tecnologias. Mas a grande surpresa é ver como elas repercutem nos cursos de pós-graduação para professores, embora caibam – especialmente nesses casos – considerar que há também desvantagens na utilização dessas tecnologias em sala de aula.
As experiências têm mostrado que as tecnologias têm afastado os alunos do contato físico entre eles nos trabalhos em grupo e, eventualmente, estimulado a dispersão e a desatenção em relação ao que lhe é solicitado, já que o e-mail do colega ou do professor pode compensar seu descuido. No âmbito avaliativo, o maior problema é a “ciber-cola”: uma sondagem apressada em sites de busca como o Google ou o Yahoo! e pronto: eis o trabalho a ser entregue ao professor.
No entanto, o uso das tecnologias em sala de aula é uma conseqüência da sua presença no cotidiano. Parodiando McLuhan (1964), que nos anos 60 disse que “os meios de comunicação são extensões do homem”, considero a presença das tecnologias no processo ensino-aprendizagem é uma conseqüência do seu uso na vida fora da sala de aula. Sendo assim, é difícil fugir desse paradigma, mesmo que seja para questioná-lo e tentar entender o tipo de mundo que estamos criando.
Buscando exatamente essa reflexão, realizei há pouco menos de um ano algumas experiências com alunos de cursos de graduação e de pós-graduação de escolas de São Paulo. Nesses espaços temos elaborado trabalhos com tecnologias e suportes digitais: blogs, fotos e vídeos a serem disponibilizados na internet. De forma geral, a experiência revelou-se extremamente grata tanto para mim como para os alunos.

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Blogs e cia. - Estamos caminhando e ainda aprendendo, diga-se de passagem, da forma como eu realmente acho que deve funcionar o processo ensino-aprendizagem: eu e eles, eu com eles e eles comigo. Mas de uma coisa acho que podemos ficar certos: criar um blogs não é tão simples quanto se pensa.
Ter o mouse na mão é o mais fácil. A idéia na cabeça não é tão difícil... O grande desafio para criar e manter um blog, acho que quanto a isso eu e os meus alunos temos um consenso, é ter repertório para articular as diferentes idéias em nome daquilo que costumamos denominar “produção do conhecimento”. Nesse desafio a internet, os blogs, os fotologs e os videologs são apenas instrumentos.
Castells (2003), ao falar sobre tecnologias e educação, observa que a divisão social promovida pela internet não é aquela entre quem tem e quem não tem acesso a ela, mas entre aqueles que têm condições de utilizar o conhecimento que ela disponibiliza para “aprender a aprender” e aqueles que não o têm. Portanto, ter um blog ou afim pode realmente ser uma grande brincadeira disponibilizada a partir das tecnologias que hoje nos rodeiam, mas pode ser também um espaço muito sério para conhecer e produzir conhecimento, que é, enfim, o objetivo de qualquer bom projeto educacional.
A novidade trazida pela aplicação das tecnologias em sala de aula não é o seu uso e ou os seus suportes, mas o que podemos aprender e construir com suas ferramentas. Se conseguirmos utilizá-las para refletir e discutir sobre um mundo melhor, mais justo e ambientalmente sustentável, utilizando-as como meios de “aprender a aprender”, estaremos num caminho coerente.
Utilizar as tecnologias que estão tecnicamente disponíveis no cotidiano e trabalhá-las em sala de aula como um estímulo à reflexão, à criação e à humanização é, certamente, um dos caminhos para possibilitar a educação e o aprimoramento das ferramentas para a construção desse futuro. Redimensionando o invento que Gutenberg desenvolveu há muitos séculos, estamos – eu e meus alunos – nos arriscando em novas descobertas e dúvidas, mas aprendendo. Entre erros a acertos compartilhamos as nossas tentativas de aprender o bê-a-bá... Ou melhor: o blá-blé-bli e bló dos blogs! E isso é educação.

Referências bibliográficas
ARRAIS, Daniela. Escolas usam games e blogs para ensinar. Folha On Line. São Paulo, 30 de agosto de 2008. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u439546.shtml. Acessado em: 30 de setembro de 2008.
CASTELLS, Manuel. Sociedade em Rede. IN: MORAES, Denis de (org). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
CONTINUUM: Revista do Itaú Cultural: Histórias de Deslocamentos. São Paulo, 15 de outubro de 2008. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/bcodemidias/000915.pdf. Acesso em: 20 de outubro de 2008.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Mídias Sociais: Bom negócio para a reputação das empresas

Enio Moraes Júnior e Fabiana Oliva

As mídias sociais não são, em si, uma novidade. Porém seu uso e seus recursos ainda inspiram desafios e incertezas para um mundo que ainda convive com as primeiras gerações que cresceram usando a internet e as tecnologias digitais.
O publicitário Wagner Fontoura (2008) caracteriza de forma precisa essas mídias, relacionando seu fundamental aporte tecnológico:

Mídias sociais são tecnologias e práticas on-line, usadas por pessoas (isso inclui as empresas) para disseminar conteúdo, provocando o compartilhamento de opiniões, idéias, experiências e perspectivas (e eis o seu 1º grande diferencial). Seus diversos formatos, atualmente, podem englobar textos, imagens, áudio, e vídeo. São websites que usam tecnologias como blogs, mensageiros, podcasts, wikis, videologs, ou mashups (aplicações que combinam conteúdo de múltiplas fontes para criar uma nova aplicação), permitindo que seus usuários possam interagir instantaneamente entre si e com o restante do mundo.

Articulada entre empresa-empresa, empresa-consumidor (mesmo potencialmente) e consumidor-consumidor, a comunicação mediada por essas mídias constitui redes sociais virtuais que podem significar um bom negócio tanto para as corporações como para os consumidores.

Estratégias empresariais

Um dos elementos propulsores do sucesso das mídias sociais é, certamente, a convergência midiática. Se, há poucos anos, telefone celular, rádio e televisão eram mídias distintas, de algum tempo para cá elas têm convergido cada vez mais.
O cientista Henry Jenkins (2008), do MIT (Massachusetts Institute of Technology) observa que isso tem permitido que os consumidores utilizem essas tecnologias para ter uma participação mais intensa no fluxo da comunicação, um maior controle sobre ela e uma maior interação como outros consumidores.
Ainda que as mídias sociais tenham surgido sem uma prioritária preocupação corporativa e que clientes e consumidores tenham – no bom ou no mau sentido – colocado muitas empresas nas redes sociais por meio do uso dessas mídias, o ramo empresarial tem percebido que não pode ficar fora desse universo. Mais que isso: muitas corporações e empresas de diferentes segmentos têm elaborado estratégias para atuar nesse setor.

Solução precisou vir logo

O Orkut e o YouTube ainda são as mídias sociais mais conhecidas e usadas no Brasil. Mas o Facebook e o Twitter têm também chamado atenção e sido usadas por grandes parcelas da população brasileira.
A maneira como o longa Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, ganhou recentemente repercussão na mídia, ilustra bem esse caso. Depois que o trailer promocional do filme passou a ser divulgado no YouTube, empresas começaram a procurar a produtora Pequena Central, do ator Marco Nanini e do produtor Fernando Libonati, para patrocinar o projeto.
Em entrevista ao jornal O Globo (VENTURA, 2009), o diretor afirmou que a divulgação no YouTube não foi intencional e falou da dificuldade inicial de conseguir patrocínio para o projeto, quadro que mudou a partir da divulgação nessa mídia: "Depois que as imagens foram parar no YouTube, o panorama começou a mudar. Começou um minimovimento de procura."
Em outros países, as mídias sociais também têm desbancado e inovado estratégias de empresas e negócios. Nos Estados Unidos uma famosa empresa de alimentos quase poderia ter entrado em crise quando um conjunto de funcionários divulgou no YouTube um vídeo que comprometia, do ponto de vista da higiene, o produto vendido. Os acessos e comentários ao videopost foram tantos e tão negativos para a imagem da empresa que a solução precisou vir logo.

O público-alvo

Em poucos dias, o dono da empresa postou no mesmo YouTube um vídeo reforçando sua identidade e revigorando sua a imagem. Em todo caso, foi um risco para a marca.
Esse comportamento reforça o pensamento do consultor de empresas Mario Rosa (2006: 81):

Muitas vezes não nos distanciamos o suficiente dos acontecimentos diários para perceber neles o quanto o nosso modo de ver, e de ser visto, sofreu uma poderosa transformação nos últimos anos, graças a uma combinação inédita de tecnologia disseminada, à disposição potencialmente de qualquer um de nós.

No entanto, do ponto de vista corporativo, não basta entrar na rede, apresentar-se como uma empresa ou flamular sua marca no Orkut, no YouTube, no Facebook ou no Twitter, por exemplo. É importante dizer também o que se está fazendo ali e conquistar simpatizantes e clientes para a marca.
A palavra-chave para isso é planejamento, que pode ser discutido considerando quatro etapas. Uma das primeiras ponderações que a empresa pode fazer nesse sentido é sobre o público que vai atingir. Os dados trazidos por algumas entidades, como o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.BR), permitem aferir que os usuários da internet no país, muitos dos quais transitam nessas redes sociais, são jovens de classe A e B – com um crescente aumento de usuários na classe C – e com grau de escolaridade bem amplo, que varia do ensino fundamental ao superior.

Credibilidade e confiabilidade

Conhecer mais detalhadamente esse público é um diferencial para a marca que agora busca atingi-lo. A partir daí ela pode fincar sua identidade e imagem por meio de uma agenda e de uma linguagem que o atinja.
Uma segunda questão: essas mídias sociais são extremamente interativas e pressupõem diálogo. Não adianta uma estratégia que não forneça feedback ao seu inter-agente. O diálogo é a chave desse processo. Não apenas os elogios, mas também as reclamações devem ser bem vindas. Elas devem ser lidas, ouvidas e consideradas. Muitas vezes elas podem vir de forma indireta, com textos ou vídeos contendo brincadeiras e achaques de aparente mau gosto.
A estratégia não é cerrar-se, recusar-se a analisar a mensagem. Pelo contrário, é hora de entender o que se passa com a marca. E mais: quanto mais acessos e posts de comentários apoiando a crítica, mais atenta a empresa deve ficar, avaliar o posicionamento do público e a qualidade do próprio produto ou serviço.
Em terceiro lugar, a estratégia não admite apenas que se fique no nível da crítica ou do retorno polido, por mais bem intencionado que seja. É importante que a empresa faça investimentos para melhorar o produto ou serviço e garantir a satisfação do cliente. Assim, ela reforça a credibilidade e a confiabilidade da marca. As mídias sociais, nesses casos, podem funcionar também com um bom espaço de brainstorm.

Estímulo à criação e à humanização

Por fim, é importante que as empresas atentem para o fato de que o desafio trazido pelas tecnologias não está só no seu uso, mas no que se pode aprender e construir com suas ferramentas, utilizando-as como meios de "aprender a aprender". Como afirma Roseli Figaro (2008: 11):

Trabalhar é, todo o tempo, trabalhar junto. O outro está presente seja como parceiro de trabalho, seja representado pelas normas e prescrições da hierarquia, seja pelo conhecimento técnico e tecnológico acumulado ou pela experiência registrada na linguagem.
Trabalhar é gerir o uso de si por si mesmo e de si pelo outro, estabelecendo redes de comunicação, formando laços de confiabilidade, construindo valores.

Aplicar as tecnologias e as mídias sociais no âmbito da comunicação empresarial como um estímulo à criação e à humanização. Este pode ser um dos caminhos para possibilitar à Comunicação Social e aos seus profissionais ferramentas para a construção de um melhor relacionamento entre empresas e pessoas.

Bibliografia
FIGARO, Roseli. Comunicação e Trabalho: binômio teórico produtivo para as pesquisas de recepção. XVII Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. São Paulo: Universidade Paulista, junho de 2008. Disponível aqui, acesso: 05 de junho de 2008.
FONTOURA, Wagner. A Hora e a Vez das Mídias Sociais. In: BoomBust. Disponível aqui, acesso: 02 de dezembro de 2008.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. Tradução: Suzana Alexandria. São Paulo: Editora Aleph, 2008.
ROSA, Mario A Reputação na Velocidade do Pensamento. São Paulo: Geração Editorial, 2006.
VENTURA, Mauro. "Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, causa polêmica antes mesmo da estreia". In: O Globo, 13 de maio de 2009, Disponível aqui, acesso: 07 de junho de 2009.