domingo, 21 de fevereiro de 2010

Crônica dos pa-ra-le-le-pí-pe-dos

Enio Moraes     Júnior
Imagem: http://4.bp.blogspot.com/



Palavra igual àquela, jamais havia ouvido ou pronunciado. O esforço para soletrá-la, então, desafiava sua inteligência de menino. E se achava inteligente! As professoras insistiam para que ele conseguisse soletrar e depois das aulas com a Anilde, com a Ana e com a Rosângela, conseguiu: pa-ra-le-le-pí-pe-dos. Paralelepípedos. Ufa!
Pouco tempo depois descobriu também que levava um acento no “I” porque era uma palavra pro-pa-ro-xí-to-na. Proparoxítona. Esta já pronunciava com facilidade! Os paralelepípedos o haviam deixado seguro e confiante para o soletramento de palavras novas e, até então, de pronúncia complicada.
Numa certa altura, deu-se conta que a regra de acentuação de paralelepípedos servia também para proparoxítona. Daí em diante foram tantas as associações entre as palavras, as regras e o mundo a sua volta que jamais parou de querer aprender.
No entanto, havia uma associação prosaica entre os tais paralelepípedos e o universo daquele menino de interior. De alguma forma, ele achava que aqueles cubos pesados que forravam as ruas, e que, vez por outra, ele usava para apoiar ouricuris e quebrá-los com uma pedra menor, só existiam em Penedo, a cidade do interior de Alagoas, no Nordeste do Brasil, onde nascera e morava.
Achou até que o “P” de Penedo devia-se aos tais paralelepípedos. E elucubrava uma razão técnica para isso: sabia que o nome da cidade era derivado de um tipo de rochedo que existia na região. Imaginava que alguém tivesse pego pedaços do rochedo, esculpido em cubos, e coberto as ruas.
Entre uma descoberta e outra, exultava quando o pai ou a mãe conduziam o carro da família pelas ruas de Penedo cobertas por aqueles cubos… A irregularidade característica do tipo de calçamento fazia com que, de vez em quando, o automóvel solavancasse e cada salto era uma diversão. Era um prazer soletrar cada uma das sete sílabas a cada sobressalto: pa-ra-le-le-pí-pe-dos. E ainda torcia para que o solavanco maior coincidisse com o “PÍ”, a sílaba tônica que colocava a sua palavra querida na lista dos proparoxítonos.
Às vezes os pais traziam no carro os irmãos ou as avós, mas o menino ria-se baixinho, para não despertar suspeitas da sua gostosa e secreta viagem. Sair do Largo de Fátima, passar em frente ao Diocesano, descer pelo Rosário Estreito, passar pela rua da Igreja do Rosário, pelo Gabino Besouro, pela Catedral e chegar ao Cais era uma aventura pa-ra-le-le-pi-pe-dística que ele guardava para si como um prezeroso segredo!
Pouco tempo depois, descobriu que outras cidades tinham também os tais paralelepípedos. Não ficou decepcionado. Gostou! Achou que poderia viver em qualquer uma delas. Sentiu que poderia encontrar os cubos de Penedo onde quer que fosse. E foi.
Cresceu e descobriu também que nem todo lugar tem paralelepípedos de verdade, alguns lugares têm ruas lisas, quase encarpetadas. Mas mesmo nesses lugares continuava a sentir na alma os solavancos causados pelos velhos cubos que conhecera na infância.
Foi então que se deu conta que paralelepípedos eram, além dos cubos, sentimentos seus. Eram saltos no peito a cada descoberta feita, a cada conquista realizada, a cada alegria experimentada. Mesmo depois de crescido, jamais esqueceu esta lição. Vez por outra, onde quer que ele esteja, as descobertas e as surpresas da vida lhe solavancam a alma. Então ri baixinho e não se contém: pa-ra-le-le-pí-pe-dos!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Educação, progresso e pessoas

Enio Moraes Júnior

Os movimentos que têm ocorrido em todo o mundo em defesa da qualidade da Educação, a exemplo das manifestações acadêmicas em Lisboa neste mês de novembro de 2009, têm trazido à tona diversas questões diretamente relacionadas ao ensino, mas que também dizem respeito ao progresso sócio-econômico das comunidades e dos países e à felicidade das pessoas.
Segundo o jornal português Correio do Minho, “os estudantes universitários pretendem defender ‘uma acção social mais justa’ e um ‘maior investimento no Ensino Superior que concretize a vontade dos alunos de terem um ensino de qualidade, factor fundamental para o desenvolvimento do país”. E isso é coerente. Mas ainda assim, é bom que tenhamos claro que a defesa da qualidade do ensino – seja em que nível for – deve nos colocara sempre diante de uma questão central: por que precisamos da Educação?
Essa parece uma pergunta de resposta óbvia, mas é uma questão diante da qual governos, cidadãos ou até mesmo aqueles que estão mais diretamente no espaço escolar – professores e alunos – nem sempre conseguem se colocar. Em parte, essa dificuldade de nos defrontarmos com ela aparece porque o processo de ensino-aprendizagem ocorre muito cedo em nossas vidas: mal nascemos e já nos embrenhamos nele bem antes dos bancos escolares.

Educação e escola – A família, a comunidade e a cultura são espaços iniciais e importantes de educação. No entanto ao institucionalizar-se socialmente como espaço privilegiado para a formação do indivíduo para viver e agir em sociedade, a educação deve servir para assegurar o compromisso desses indivíduos com o outro, com os direitos humanos e com a cidadania. Nesse sentido, a educação vai encontrar uma acepção mais formal no conceito de escola.
Foi o conceito de trabalho, aliás, que trouxe uma distinção entre educação e escola que ficou mais clara a partir dos anos 60 do século XX. Enquanto educação referia-se ao constante processo de aprendizado inerente à qualidade humana no dia-a-dia de suas relações sociais, seja na família, na rua ou no trabalho, a escola referia-se a um tipo específico de apreensão do conhecimento formalizado e organizado.
É a concepção de trabalho, pois, que vai diferenciar educação e escola. Enquanto nos períodos primitivos da história da humanidade a educação confundiu-se com as formas de intervenção do homem sobre a natureza para servi-lo, o trabalho, na Antiguidade, tanto na civilização grega como romana, os dois conceitos passam a servir diferentemente a cada classe social. Enquanto os nobres recebiam uma educação específica nas escolas, ligadas à oratória e à política, por exemplo, os servos eram educados pelo e para o próprio trabalho. Na Idade Média, a diferenciação continuou entre nobres e plebeus.
Já na Idade Moderna, com o desenvolvimento do Capitalismo e a conseqüente urbanização das cidades, a escola, incorporada aos valores da burguesia, passou a funcionar também como forma de adaptação do trabalhador ao mercado. Na perspectiva do capital, a escola passou a ser entendida como forma dominante de educação.
Assim, muito do propósito de democracia, de distribuição igualitária de bens e riquezas e felicidade a escola não realizou. A história da Contemporaneidade é a história dos conflitos ungidos nas lutas por esses propósitos. A história do Socialismo, a rigor, é mais do que qualquer outra, essa história.

Percepção e ação – E para que serve então, hoje, a Educação? Ela serve, pois, para nos fazer perceber essas contradições e conduzir a ações no sentido de desfazê-las e, enfim, nos fazer mais felizes na vida comunitária. É essa preocupação que deve ocupar o centro dos movimentos que têm ocorrido em todo o mundo em defesa da qualidade da Educação como também as preocupações de todo indivíduo que tome parte nesse tipo de evento.
Seja em que sentido for, a educação deve atender ao nosso compromisso humano de sermos felizes no mundo e fazermos felizes as pessoas – de todo o mundo – com as quais convivemos. E esse é, por excelência, o sentido da Escola e da defesa da sua qualidade.
Manifestar-se por uma educação de qualidade é, pois, reinvidicar uma ação social mais justa e a qualidade do ensino para si, mas também entender-se compromissado com esse agir no sentido do outro. Isso significa dizer que no centro de quaisquer discussões sobre a qualidade da educação deve estar o indivíduo e a cidadania, e não interesses particulares e modelos econômicos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Blá-blé-bli-bló-blog

Texto: Enio Moraes Júnior
Imagem: tangaslesbicas.wordpress.com



As atuais tecnologias e suas ferramentas são instrumentos eficazes no processo ensino-aprendizagem. Precisamos apenas aprender esta e outras lições...


Quando Gutenberg criou os tipos móveis no século XV nem de longe imaginava que um dia redimensionaríamos seu invento e o transformaríamos em fluidas letras que acenam nas telas dos computadores. Embora muito já tenhamos escrito e lido sobre a aplicação das tecnologias informacionais e comunicacionais na educação e a utilização da blogosfera nesse contexto, por mais que professores venham fazendo, junto com os seus alunos, experimentações nesse sentido, cada experiência, em cada realidade escolar, traz resultados diferentes. Algumas vezes são respostas muito positivas no processo ensino-aprendizagem, outras vezes, nem tanto. Em todo caso, sempre são aprendizados.
O fato é que há algum tempo vêm sendo realizadas experiências nessa área e, na maior parte das vezes, são confirmadas as vantagens dessas incursões. Do ponto de vista didático, tem chamado atenção a dinamização da relação professor-aluno via e-mail e Orkut e a diversidade de fontes de informação que essas tecnologias, sobretudo a internet, oferecem para pesquisas de docentes e discentes.

O que é um BLOG? from iGovSP on Vimeo.


Foco no estudante - Especialmente no caso dos estudantes do ensino fundamental e médio, esse tipo de experiência tem feito eco ao pensamento de Carl Rogers (1973) ao falar do ensino centrado no estudante e em seu universo. Como informa uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, “para conseguirem a atenção das crianças, instituições de ensino se adaptam à realidade do seu público-alvo, acostumado, desde cedo, a ter acesso a ferramentas tecnológicas”. Com isso, os alunos têm demonstrado maior entusiasmo para as aulas e, de quebra, os pais podem acompanhar pela rede a produção dos filhos.
Os cursos de graduação também têm investido pesado nas tecnologias. Mas a grande surpresa é ver como elas repercutem nos cursos de pós-graduação para professores, embora caibam – especialmente nesses casos – considerar que há também desvantagens na utilização dessas tecnologias em sala de aula.
As experiências têm mostrado que as tecnologias têm afastado os alunos do contato físico entre eles nos trabalhos em grupo e, eventualmente, estimulado a dispersão e a desatenção em relação ao que lhe é solicitado, já que o e-mail do colega ou do professor pode compensar seu descuido. No âmbito avaliativo, o maior problema é a “ciber-cola”: uma sondagem apressada em sites de busca como o Google ou o Yahoo! e pronto: eis o trabalho a ser entregue ao professor.
No entanto, o uso das tecnologias em sala de aula é uma conseqüência da sua presença no cotidiano. Parodiando McLuhan (1964), que nos anos 60 disse que “os meios de comunicação são extensões do homem”, considero a presença das tecnologias no processo ensino-aprendizagem é uma conseqüência do seu uso na vida fora da sala de aula. Sendo assim, é difícil fugir desse paradigma, mesmo que seja para questioná-lo e tentar entender o tipo de mundo que estamos criando.
Buscando exatamente essa reflexão, realizei há pouco menos de um ano algumas experiências com alunos de cursos de graduação e de pós-graduação de escolas de São Paulo. Nesses espaços temos elaborado trabalhos com tecnologias e suportes digitais: blogs, fotos e vídeos a serem disponibilizados na internet. De forma geral, a experiência revelou-se extremamente grata tanto para mim como para os alunos.

Tutorial BLOG passo a passo from iGovSP on Vimeo.


Blogs e cia. - Estamos caminhando e ainda aprendendo, diga-se de passagem, da forma como eu realmente acho que deve funcionar o processo ensino-aprendizagem: eu e eles, eu com eles e eles comigo. Mas de uma coisa acho que podemos ficar certos: criar um blogs não é tão simples quanto se pensa.
Ter o mouse na mão é o mais fácil. A idéia na cabeça não é tão difícil... O grande desafio para criar e manter um blog, acho que quanto a isso eu e os meus alunos temos um consenso, é ter repertório para articular as diferentes idéias em nome daquilo que costumamos denominar “produção do conhecimento”. Nesse desafio a internet, os blogs, os fotologs e os videologs são apenas instrumentos.
Castells (2003), ao falar sobre tecnologias e educação, observa que a divisão social promovida pela internet não é aquela entre quem tem e quem não tem acesso a ela, mas entre aqueles que têm condições de utilizar o conhecimento que ela disponibiliza para “aprender a aprender” e aqueles que não o têm. Portanto, ter um blog ou afim pode realmente ser uma grande brincadeira disponibilizada a partir das tecnologias que hoje nos rodeiam, mas pode ser também um espaço muito sério para conhecer e produzir conhecimento, que é, enfim, o objetivo de qualquer bom projeto educacional.
A novidade trazida pela aplicação das tecnologias em sala de aula não é o seu uso e ou os seus suportes, mas o que podemos aprender e construir com suas ferramentas. Se conseguirmos utilizá-las para refletir e discutir sobre um mundo melhor, mais justo e ambientalmente sustentável, utilizando-as como meios de “aprender a aprender”, estaremos num caminho coerente.
Utilizar as tecnologias que estão tecnicamente disponíveis no cotidiano e trabalhá-las em sala de aula como um estímulo à reflexão, à criação e à humanização é, certamente, um dos caminhos para possibilitar a educação e o aprimoramento das ferramentas para a construção desse futuro. Redimensionando o invento que Gutenberg desenvolveu há muitos séculos, estamos – eu e meus alunos – nos arriscando em novas descobertas e dúvidas, mas aprendendo. Entre erros a acertos compartilhamos as nossas tentativas de aprender o bê-a-bá... Ou melhor: o blá-blé-bli e bló dos blogs! E isso é educação.

Referências bibliográficas
ARRAIS, Daniela. Escolas usam games e blogs para ensinar. Folha On Line. São Paulo, 30 de agosto de 2008. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u439546.shtml. Acessado em: 30 de setembro de 2008.
CASTELLS, Manuel. Sociedade em Rede. IN: MORAES, Denis de (org). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
CONTINUUM: Revista do Itaú Cultural: Histórias de Deslocamentos. São Paulo, 15 de outubro de 2008. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/bcodemidias/000915.pdf. Acesso em: 20 de outubro de 2008.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Mídias Sociais: Bom negócio para a reputação das empresas

Enio Moraes Júnior e Fabiana Oliva

As mídias sociais não são, em si, uma novidade. Porém seu uso e seus recursos ainda inspiram desafios e incertezas para um mundo que ainda convive com as primeiras gerações que cresceram usando a internet e as tecnologias digitais.
O publicitário Wagner Fontoura (2008) caracteriza de forma precisa essas mídias, relacionando seu fundamental aporte tecnológico:

Mídias sociais são tecnologias e práticas on-line, usadas por pessoas (isso inclui as empresas) para disseminar conteúdo, provocando o compartilhamento de opiniões, idéias, experiências e perspectivas (e eis o seu 1º grande diferencial). Seus diversos formatos, atualmente, podem englobar textos, imagens, áudio, e vídeo. São websites que usam tecnologias como blogs, mensageiros, podcasts, wikis, videologs, ou mashups (aplicações que combinam conteúdo de múltiplas fontes para criar uma nova aplicação), permitindo que seus usuários possam interagir instantaneamente entre si e com o restante do mundo.

Articulada entre empresa-empresa, empresa-consumidor (mesmo potencialmente) e consumidor-consumidor, a comunicação mediada por essas mídias constitui redes sociais virtuais que podem significar um bom negócio tanto para as corporações como para os consumidores.

Estratégias empresariais

Um dos elementos propulsores do sucesso das mídias sociais é, certamente, a convergência midiática. Se, há poucos anos, telefone celular, rádio e televisão eram mídias distintas, de algum tempo para cá elas têm convergido cada vez mais.
O cientista Henry Jenkins (2008), do MIT (Massachusetts Institute of Technology) observa que isso tem permitido que os consumidores utilizem essas tecnologias para ter uma participação mais intensa no fluxo da comunicação, um maior controle sobre ela e uma maior interação como outros consumidores.
Ainda que as mídias sociais tenham surgido sem uma prioritária preocupação corporativa e que clientes e consumidores tenham – no bom ou no mau sentido – colocado muitas empresas nas redes sociais por meio do uso dessas mídias, o ramo empresarial tem percebido que não pode ficar fora desse universo. Mais que isso: muitas corporações e empresas de diferentes segmentos têm elaborado estratégias para atuar nesse setor.

Solução precisou vir logo

O Orkut e o YouTube ainda são as mídias sociais mais conhecidas e usadas no Brasil. Mas o Facebook e o Twitter têm também chamado atenção e sido usadas por grandes parcelas da população brasileira.
A maneira como o longa Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, ganhou recentemente repercussão na mídia, ilustra bem esse caso. Depois que o trailer promocional do filme passou a ser divulgado no YouTube, empresas começaram a procurar a produtora Pequena Central, do ator Marco Nanini e do produtor Fernando Libonati, para patrocinar o projeto.
Em entrevista ao jornal O Globo (VENTURA, 2009), o diretor afirmou que a divulgação no YouTube não foi intencional e falou da dificuldade inicial de conseguir patrocínio para o projeto, quadro que mudou a partir da divulgação nessa mídia: "Depois que as imagens foram parar no YouTube, o panorama começou a mudar. Começou um minimovimento de procura."
Em outros países, as mídias sociais também têm desbancado e inovado estratégias de empresas e negócios. Nos Estados Unidos uma famosa empresa de alimentos quase poderia ter entrado em crise quando um conjunto de funcionários divulgou no YouTube um vídeo que comprometia, do ponto de vista da higiene, o produto vendido. Os acessos e comentários ao videopost foram tantos e tão negativos para a imagem da empresa que a solução precisou vir logo.

O público-alvo

Em poucos dias, o dono da empresa postou no mesmo YouTube um vídeo reforçando sua identidade e revigorando sua a imagem. Em todo caso, foi um risco para a marca.
Esse comportamento reforça o pensamento do consultor de empresas Mario Rosa (2006: 81):

Muitas vezes não nos distanciamos o suficiente dos acontecimentos diários para perceber neles o quanto o nosso modo de ver, e de ser visto, sofreu uma poderosa transformação nos últimos anos, graças a uma combinação inédita de tecnologia disseminada, à disposição potencialmente de qualquer um de nós.

No entanto, do ponto de vista corporativo, não basta entrar na rede, apresentar-se como uma empresa ou flamular sua marca no Orkut, no YouTube, no Facebook ou no Twitter, por exemplo. É importante dizer também o que se está fazendo ali e conquistar simpatizantes e clientes para a marca.
A palavra-chave para isso é planejamento, que pode ser discutido considerando quatro etapas. Uma das primeiras ponderações que a empresa pode fazer nesse sentido é sobre o público que vai atingir. Os dados trazidos por algumas entidades, como o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.BR), permitem aferir que os usuários da internet no país, muitos dos quais transitam nessas redes sociais, são jovens de classe A e B – com um crescente aumento de usuários na classe C – e com grau de escolaridade bem amplo, que varia do ensino fundamental ao superior.

Credibilidade e confiabilidade

Conhecer mais detalhadamente esse público é um diferencial para a marca que agora busca atingi-lo. A partir daí ela pode fincar sua identidade e imagem por meio de uma agenda e de uma linguagem que o atinja.
Uma segunda questão: essas mídias sociais são extremamente interativas e pressupõem diálogo. Não adianta uma estratégia que não forneça feedback ao seu inter-agente. O diálogo é a chave desse processo. Não apenas os elogios, mas também as reclamações devem ser bem vindas. Elas devem ser lidas, ouvidas e consideradas. Muitas vezes elas podem vir de forma indireta, com textos ou vídeos contendo brincadeiras e achaques de aparente mau gosto.
A estratégia não é cerrar-se, recusar-se a analisar a mensagem. Pelo contrário, é hora de entender o que se passa com a marca. E mais: quanto mais acessos e posts de comentários apoiando a crítica, mais atenta a empresa deve ficar, avaliar o posicionamento do público e a qualidade do próprio produto ou serviço.
Em terceiro lugar, a estratégia não admite apenas que se fique no nível da crítica ou do retorno polido, por mais bem intencionado que seja. É importante que a empresa faça investimentos para melhorar o produto ou serviço e garantir a satisfação do cliente. Assim, ela reforça a credibilidade e a confiabilidade da marca. As mídias sociais, nesses casos, podem funcionar também com um bom espaço de brainstorm.

Estímulo à criação e à humanização

Por fim, é importante que as empresas atentem para o fato de que o desafio trazido pelas tecnologias não está só no seu uso, mas no que se pode aprender e construir com suas ferramentas, utilizando-as como meios de "aprender a aprender". Como afirma Roseli Figaro (2008: 11):

Trabalhar é, todo o tempo, trabalhar junto. O outro está presente seja como parceiro de trabalho, seja representado pelas normas e prescrições da hierarquia, seja pelo conhecimento técnico e tecnológico acumulado ou pela experiência registrada na linguagem.
Trabalhar é gerir o uso de si por si mesmo e de si pelo outro, estabelecendo redes de comunicação, formando laços de confiabilidade, construindo valores.

Aplicar as tecnologias e as mídias sociais no âmbito da comunicação empresarial como um estímulo à criação e à humanização. Este pode ser um dos caminhos para possibilitar à Comunicação Social e aos seus profissionais ferramentas para a construção de um melhor relacionamento entre empresas e pessoas.

Bibliografia
FIGARO, Roseli. Comunicação e Trabalho: binômio teórico produtivo para as pesquisas de recepção. XVII Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. São Paulo: Universidade Paulista, junho de 2008. Disponível aqui, acesso: 05 de junho de 2008.
FONTOURA, Wagner. A Hora e a Vez das Mídias Sociais. In: BoomBust. Disponível aqui, acesso: 02 de dezembro de 2008.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. Tradução: Suzana Alexandria. São Paulo: Editora Aleph, 2008.
ROSA, Mario A Reputação na Velocidade do Pensamento. São Paulo: Geração Editorial, 2006.
VENTURA, Mauro. "Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, causa polêmica antes mesmo da estreia". In: O Globo, 13 de maio de 2009, Disponível aqui, acesso: 07 de junho de 2009.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sobre as crianças do noticiário

Imagem e texto: Enio Moraes Júnior

Os grandes fraudadores não roubam dinheiros nem ouros, roubam corações, esperanças e futuros. Outro dia eu vi nos olhos do menino o olhar do futuro, do porvir. Passado pouco tempo surpreendi-me: eis que o porvir não veio, e se veio o atropelou e o atordoou com tal violência que seu olhar parecia ter secado, como secam os rios sem peixes e os peixes sem rio; como vãos são os animais sem pasto, os canaviais sem cana e as dores sem lágrimas.
Margeei-o. Cheguei perto e perguntei seu nome e ele sequer lembrava mais. Fui embora intrigado, assustado. Tempos depois não o via mais.
Sua feição parecia desaparecer, seu nome simples parecia não querer ser pronunciado e, no seu lugar, uma vastidão desmemoriada de ausências, de silêncios, de cegueiras.
Percebi que aquele ali havia partido para sempre e que o olhar do futuro fora corroído por puras ganâncias e arrogâncias. Eu lhe havia dado uns livros para que aprendesse; uns jornais para que lesse; umas músicas para que escutasse; umas sementes de girassóis para que plantasse. De nada adiantaram. Nada se fez, nada germinou.
Decepcionado, recolhi-me. Nada se fez presente; o futuro não chegou para o menino que se esfumaçava ausentando-se silencioso, cego.
Fraude.

substantivo feminino. qualquer ato ardiloso, enganoso, de má-fé, com o intuito de lesar ou ludibriar outrem, ou de não cumprir determinado dever; logro (Houaiss).

Quando pensei com atenção, o futuro que havia visto nos olhos do menino era uma grande fraude que haviam plantado sob seus pés para, iludindo o hoje, convencê-lo de que haveria futuro.
Fraude. Não sei ao certo se lhe roubam dinheiros ou ouros. Acho que nem! Mas tem que lhe tiraram os corações, as esperanças, os futuros.
Noticiário cruel! Talvez eu preferisse nem saber sobre o que me conta das crianças! Fraude.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Murais e tudo mais






Um lugar especial para a família,
para os amigos, para as pessoas
Foto e texto: Enio Moraes Júnior





Rezo e ajo todo dia
Para que o mundo seja azul-esverdeado
Para que o sol amanheça amarelo-dourado
E que a lua anoiteça num branco-silenciado, amado

Para que todas as cores do mundo
Caibam nos nossos corações vagabundos
Para que todas as caras do mundo
Sorriam seus risos de contentamento mais profundo

Rezo e ajo todo dia
Para que a vida seja desimpedida
Para que a morte seja só uma partida-querida
Para que a felicidade seja consentida

Para que as dores do mundo
Não existam tão-mais
Para que o aprendizado
Não se faça doloroso demais

Rezo e ajo todo dia
Para que os adultos relaxem em seus sais
Para que as crianças durmam em paz
E para que você esteja sempre nos meus murais

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ciberexistência, comunicação, educação (Parte I)


Enio Moraes Júnior
Orkut, uma das comunidades virtuais mais acessadas no Brasil: crianças, jovens e adultos unidos em torno de discussões - muitas vezes pouco produtivas - no novo espaço público. Mas uma certeza: pessoas e vozes que se redimensionam, ciberexistem


Gostaria de começar essa nossa conversa, na qual pretendemos discutir a presença das novas tecnologias em nossas vidas, ou melhor, a presença das nossas vidas nas mídias neotecnológicas – fenômeno esse que chamo de ciberexistência – apoiando-me em três conceitos chave: cidadania planetária, mídias digitais e educação.
Em primeiro lugar, acho importante situarmos que a existência humana nesse planeta é marcada por uma única condição: a vida do próprio planeta. Temos nos deparado diariamente com esse fato nos jornais. Mas as estatísticas e prognósticos de destruição do planeta têm sido tão constantemente anunciados quanto ameaçadoras, ou melhor: responsabilizadoras.
Segundo o relatório divulgado em maio pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado à ONU, é possível deter o aquecimento global se o processo de redução das emissões for iniciado antes de 2015. De acordo com o documento, para combater o aquecimento, a humanidade terá de diminuir de 50% a 85% as emissões de gás carbônico até a metade deste século.
Ainda que existam algumas ressalvas quanto aos seus aspectos mercantilistas, o Protocolo de Kyoto, um acordo assinado por diversos países em 1997, na cidade de Kyoto, no Japão, traduz muito bem a gravidade das questões climáticas na Terra.
O documento prevê a redução de poluentes ambientais como os gases que produzem o efeito estufa, o que significa que os países têm metas de não-poluição a cumprir. Aqueles que superarem o cumprimento dessas metas podem vender parcelas excedentes aos países que ficaram abaixo das metas por meio dos créditos de carbono.
Embora haja críticas ao modo mercantil como o Protocolo trata a natureza e o planeta, uma questão tem ficado cada vez mais clara: a emergência e a consolidação daquilo que alguns autores contemporâneos têm chamado de cidadania planetária.

A cidadania planetária é condição humana atávica. O conceito perde gradativamente a sua significação inicial – cujo grande marco é a Revolução Francesa – de cidadania nacional. Embora seja nas civilizações dos gregos e dos romanos (séculos IX e VIII a.C) que a cidadania desenvolva o importante alicerce da dimensão política que encubia nobres e proprietários a participarem do destino cidade, é na Idade Moderna (séculos XIII a XVIII), com o fortalecimento dos Estados-nação, que ela ganha seu contorno mais significativo. A partir daí ela implica a defesa dos direitos humanos e da democracia, em cuja base está a nacionalidade.
Hoje, entretanto, a cidadania passa a ter uma abrangência global, sendo entendida como uma cidadania planetária. No seio dessa concepção está exatamente a concepção de que qualquer mal que seja feito ao meio ambiente, em qualquer nação ou continente, tem implicações não apenas locais, mas globais; afeta o mundo todo, o planeta. Daí falarmos numa cidadania planetária.
Por exemplo, quando nos preocupamos com a questão da Amazônia, embora haja críticas de que os reais interesses da América (dos Estados Unidos) seja com a água da região, para além disso, o mundo todo – os países da América Latina, da Europa, da Ásia e da África – estão na verdade preocupados com a preservação do meio ambiente, da fauna, da flora e como a vida e a sustentabilidade do planeta.
Segundo o relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, um dos maiores problemas do Brasil na emissão de gases é o desmatamento. Os resultados da pesquisa mostram que as queimadas conseqüentes da destruição das florestas significam 75% das emissões brasileiras.
Exercer, portanto, uma cidadania planetária é defender o planeta e isso pode ser colocado como condição atávica da existência humana acima de toda e qualquer nacionalidade.

Mas o que podemos falar sobre as mídias digitais, a globalização e a ciberexistência? Aqui chegamos num segundo ponto que, aparentemente, tem pouco a ver com esse primeiro, a cidadania planetária. Nesse momento da discussão é importante observarmos que o sentido ecológico de uma cidadania planetária irmana-se, do ponto de vista econômico, de uma polêmica globalização.
Por que polêmica? Porque se, por um lado, a globalização tem sido acusada de distanciar as pessoas no nível sócio-econômico, enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres, por outro, ela também tem nos aproximado e, por trás dessa aproximação, está exatamente o papel dos meios de comunicação, das mídias digitais e das novas tecnologias.
A globalização traz vantagens e desvantagens, e é irrefutável a idéia de que hoje nós acessamos com maior facilidade informações sobre outras regiões do país, sobre países, povos e culturas. Nesse sentido, podemos participar de forma mais articulada – no que diz respeito ao background de informação que temos – de processos ligados à defesa do outro e do planeta. Esse outro, por sua vez, deixa de ser um outro politicamente regionalizado, do mesmo país, e passa a ser um outro planetarizado, o que alguns autores têm chamado de outro-universal.

A ciberexistência implica a emergência de uma nova forma de sociedade. A possibilidade de existirmos, portanto, numa nova esfera e dimensão na vida terrena, de constituirmos paralelamente à vida social cotidiana, uma sociedade em rede, com novas formas de socialização, abre os precedentes para um novo olhar e conhecimento sobre esse outro-universal e sobre o planeta. Acho curioso que a palavra ciberexistência seja formada pelo prefixo CIBER, em inglês CYBER, que significa “piloto, dirigente” e EXISTÊNCIA, existir. Isso me leva a pensar que ciberexistir significa dirigir a própria vida ou pelo menos ter em mãos os instrumentos que possibilitem isso de forma mais efetiva.
Assim, ciberexistir é exatamente, a partir das tecnologias, especialmente da Internet, trazer a vida a uma nova dimensão informacional e cognitiva das pessoas e do mundo. Ciberexistir, portanto, deve implicar exatamente a defesa dessa condição humana que começa com a defesa da própria vida do planeta.
A ciberexistência é um conceito em que tenho pensado para entender a vida em sua dimensão contemporânea e neotecnológica. Tenho apoiado-me especialmente em dois autores. Um deles é Muniz Sodré, que no livro Antropológica do Espelho reflete sobre uma nova dimensão humana trazida pelas mídias – o bios midiático. Segundo o autor, nas sociedades contemporâneas globalizadas a mídia assumiu um poder e intensidade tais, que é por meio dela que os indivíduos relacionam-se – vinculam-se – no espaço social.
Essa vinculação, como observa o outro autor, Manuel Castells, em Sociedade em Rede, traz-nos a uma nova forma de vida social na qual estamos enredados. Um ponto importante no pensamento do autor é que a sociedade em rede é uma forma de sociedade que construímos e que vivenciamos a partir da sociedade real, física.
A ciberexistência bios midiatizada e enredada de hoje é, portanto, produto da existência física cotidiana. Não há sentido, portanto, imaginarmos e preservarmos uma vida ciber, sem preservarmos a vida física do e no planeta. Para ciberexistirmos, midiatizados e em rede, precisamos preservar a nossa própria existência terrena. Portanto, é função do ciberexistente, a defesa da sua própria condição humana de existência. E por essa defesa passa, irrefutavelmente, a defesa do planeta.

A educação e a comunicação são fundamentos da ciberexistência e da defesa da vida e do planeta. E é exatamente aí que eu chego ao terceiro ponto que gostaria de expor: como construir um caminho para que o ser ciberexistente interfira sobre o outro e sobre o planeta como defensor de uma cidadania planetária, a única que nos interessa hoje?
Talvez existam várias maneiras de se construir esse caminho, mas um parece-me essencial: por meio da intelectualidade que pode ser construída na educação e na mídia. Somente o ser intelectualizado, educado e informado, pode abandonar a acachapante leniência do ser hiperculturalizado, que é um ser apressado, superficial e individualista, e agir não apenas como consumidor de idéias e produtos, mas sobretudo como cidadão da Terra.
No começo deste mês o site americano Sience Daily, divulgou os resultados de uma pesquisa da GfK Public Affairs e da Universidade Yale que constatou que mais de 70% dos americanos estão dispostos a pagar mais impostos para custear iniciativas do governo para reduzir o aquecimento global. De acordo com o estudo, 74% dos americanos poderiam apoiar a criação de leis determinando que todas as novas casas fossem mais eficientes em termos de energia e 72% deles disseram que apoiariam um aumento nas taxas mensais sobre as residências, caso o governo passasse a subsidiar a instalação de geradores de energia solar.
Não é suficiente aos países e aos seus povos serem consumidores, é fundamental sermos cidadãos!

NOTA: As partes I e II dessa discussão correspondem a uma transcrição editada de palestra proferida pelo autor no XI Encontro de Letras da Faculdade São Bernardo do Campo (São Bernardo do Campo – SP), em 10 de outubro de 2007.

Ciberexistência, comunicação, educação (Parte II - Final)

Enio Moraes Júnior

A construção do cidadão planetário por meio da escola e da mídia: eis o ponto que considero chave da discussão sobre a ciberexistência. Claro que não aprendemos apenas na escola. A família, os amigos e a religião, por exemplo, trazem também em si formas de aprendizagem e de conhecimento, mas é à escola que tem cabido, desde os gregos, o papel institucional de motivadora, seletora, hierarquizadora e construtora desse conhecimento. Por isso, é especialmente dentro dela que gostaria de refletir com vocês a formação desse cidadão; desse cidadão planetário.
Para começar eu gostaria de fazer algumas críticas à nossa escola ocidental contemporânea, tomando como referência o seu papel motivacional, seletivo, hierarquizador e construtor.
Em primeiro lugar, suspeito que a nossa escola não motiva seus professores e muito menos, e por extensão, seus alunos. Ocorre que a motivação é algo fundamental no ensino: "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele", escreveu Arendt (FERRARI, 2004).
Penso também que o seu papel seletivo de saberes é ultrapassado, acomodado e conservador.
Entendo que a hierarquização que ela realiza em relação aos conteúdos é humanamente indulgente, preconceituoso e perverso.
Por fim, entendo que o seu produto final, o que a escola contemporânea – na maioria das vezes – tem construído são seres – e aí eu incluo não apenas alunos, mas também professores, diretores, funcionários e mais: seres humanos, de uma forma geral, já que em boa medida somos produto das escolas – lenientes; acomodados à tragédia e ao sofrimento do outro a tal ponto que sequer percebemos que esse outro somos nós mesmos.
Em outras palavras: ao invés de pessoas planetárias, a escola tem produzido – na maior parte das vezes – seres individualistas... E isso põe em risco a vida do e no planeta e arrisca também, como conseqüência, a própria vida humana.
Qual o caminho para que a escola abra-se, utilizando as novas tecnologias digitais e suas formas de existência, para a cidadania planetária? Proponho seis pistas para pensarmos e discutirmos.
Uma das questões em que tenho pensado ultimamente, um conceito sobre o qual tenho refletido nos últimos meses é o de tecno-ideologia. Parto do princípio de que cabe ao homem dominar a técnica, não o contrário.
Isso me faz lembrar o mito de Ícaro, que fala de um homem deslumbrado pela técnica a tal ponto que pensa que não é mais mortal, deslumbra-se e morre vítima da técnica, da sua falta de domínio sobre ela. Ícaro é um jovem para quem o pai, Dédalo, criara assas para que ele pudesse escapar de uma prisão injusta, mas morre vítima desse invento paterno. Da mesma forma, as novas tecnologias, produto do invento humano que pode efetivar uma nova forma de democracia e cidadania, corre o risco de implicar indivíduos que sucumbam às suas próprias redes e técnicas.
Embora hoje já estejamos falando da hiperescola, ainda que ela possa legitimar-se em breve como uma nova compreensão de educação escolar, é importante termos cuidado para que a técnica não vire ideologia. Para isso, é necessário que as escolas ensinem a técnica para que ele seja dominada, que a escola coloque o seu aluno no comando das mídias digitais: dos computadores, das máquinas digitais, da internet. Os computadores e sua rede mundial podem ter um uso positivo, cidadão, na construção de uma nova forma de vida democrática global. É disso que fala o Pierre Lévy no livro Ciberdemocracia.
Em segundo lugar, podemos pensar que a base desse conhecimento está no respeito à condição humana dentro da própria escola. Carl Rogers e Paulo Freire, dois grandes teóricos da educação do século XX, refletem muito bem sobre essa questão. Para Rogers, o ensino deve ser centrado na pessoa do estudante, mas Freire avança nesse aspecto ao entender essa centralidade também no sentido da realidade que cerca esse estudante. Assim, ambos podem ser tranqüilamente retomados no sentido de pensarmos uma educação que mobilize humanamente o que se é em nome do humano. Tornar-se Pessoa, de Rogers, e Pedagogia do Oprimido, de Freire, deveriam ser relidos com atenção para que esses ensinamentos pudessem ser aplicados hoje.
Em terceiro lugar, é importante que repensemos que conhecimento estamos construindo e para que. Em outras palavras: que mundo queremos para os próximos anos? Se pensarmos em construir pessoas para o mercado, estaremos cada vez menos construindo a vida. Pelo contrário: estaremos colocando em risco a vida do planeta. E isso é muito sério.
As estatísticas climáticas não deixam dúvida em relação a isso. O conhecimento que podemos estimular hoje faz parte de uma antropolítica em que o ser humano é colocado acima dos interesses mercadológicos. Edgar Morin tem falado muito sobre essa questão, sobretudo no livro Os sete saberes necessários à educação do futuro.
Em quarto lugar, é hora de repensarmos, problematizarmos a educação. E problematizá-la é exatamente problematizarmo-nos. A educação, meus caros, não está fora de nós, ela sempre esteve – como de certa forma já nos alertaram Rogers e Freire – aqui perto, dentro de nós.
Se não olharmos para nós mesmos, jamais estaremos olhando para modelos ou tentativas assertivas de educação. Nesse sentido, é fundamental que nos reconheçamos, nos aceitemos, nos respeitemos e nos amemos na nossa diversidade de credos, orientações sexuais, culturais etc. É o que Muniz Sodré trata como o ‘infinitamente diverso’ em A ignorância da diversidade.
A ignorância está vinculada a um conceito de verdade diante da qual tudo se classifica e existe. O que destoa dela deve ser excluído. Em outras palavras: pensar a educação como algo que vem de dentro é pensar em incluir o outro, o outro-planetário, na sua infinita diversidade, ao invés de excluí-lo.
Em quinto lugar, é importante darmos à educação o seu inestimável papel nos processos de socialização humana e sustentabilidade planetária. Ela está no começo de tudo. O homem sem a intelectualidade para compreender a complexidade do mundo é um homem que não compreende também a necessidade de defesa do planeta e da vida. Esse homem forma-se exatamente na escola. Os demais processos, como a midiatização, a participação política e sua intervenção no mundo através do trabalho são – e aqui eu aproprio-me e parodio uma reflexão do canadense Marshall McLuhan: esses processos são extensões do que somos, e o que somos é, fundamentalmente, extensão da educação que temos.
Por fim, uma outra questão para a qual merece ser chamada atenção diz respeito ao diálogo. Tudo, absolutamente tudo que dizemos, que escrevemos, são pontos de vista. Então, o conhecimento deve ser permanente, em perspectiva, um “vir a ser” constante. Para isso, é preciso que tenhamos a consciência de que a melhor colaboração que podemos dar ao outro e ao mundo é a fala aberta ao diálogo, e não o dogmatismo. Isso é fundamental para a educação: abertura, diálogo.
A os meios de comunicação têm também um papel especial na construção do diálogo. Na era das tecnologias comunicacionais, a internet deve ser um espaço para fóruns de discussões locais, regionais e globais. E, na medida em que o seu uso – tanto do ponto de vista técnico como político – caminhe no sentido de uma democratização, de realização de uma ciberdemocracia constituída por indivíduos formalmente educados e bem informados. Eis aí, cidadãos planetários, a nossa responsabilidade.

A dimensão ciber deve nos conduzia à tentativa de valorizar a vida por meio da valorização do ser humano e do planeta. A ciberexistência só tem sentido se pensarmos na existência. As novas tecnologias não podem ser pensadas sem pensarmos também na própria vida humana e na vida do planeta. A educação e a comunicação para uma cidadania planetária são o caminho para potencializarmos esse engenho humano na defesa do próprio homem. Nesse sentido, à escola e aos meios de comunicação cabem algumas tarefas. Cabe-lhes desfazer os riscos da tecno-ideologia, potencializar o humano, questionar o conceito de conhecimento e o significado da educação, considerar a educação a base do que somos e valorizar o diálogo, valorizando também, nesse contexto, o papel da comunicação social e das novas mídias.

Referências bibliográficas
BERTMAN, Stephen. Hipercultura. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
_____. Internet e sociedade em rede. In: MORAES, Denis de (org). Por uma Outra Comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
CHAPLIN, Charles. Modern Times (Adaptation: "Really Modern Times"). EUA, 1936. Trecho disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=c8LxscnmdNY&feature=related. Acessado em 21 de julho de 2007.
FERRARI, Márcio. Hanna Aredt: uma defensora da autoridade em classe. Revista Nova Escola. Ed. 169. janeiro / fevereiro 2004. Disponível em: http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/169_fev04/html/pensadores. Acessado em 21 de julho de 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LÉVY, Pierre. Ciberdemocracia. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
_____. Pela ciberdemocracia. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
_____. Por uma mundialização plural. In: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record: 2003.
_____. Educação na Era Planetária. Coleção ‘Universo do Conhecimento’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 50 min.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.
SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho. Petrópolis: Vozes, 2002.
_____. A ignorância da diversidade. Coleção ‘A invenção do contemporâneo’. Série ‘As novas ignorâncias’. São Paulo: Cultura Marcas, 2006. 1 DVD. 48 min.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O tamanho do mundo, café e torta de chocolate



Enio Moraes Júnior


Um dia desses fui visitar um casal de amigas, a Karen e a Alê. Uma delas, a Karen, tem uma filhinha, Juliana, a Ju, de mais ou menos cinco anos de idade. Elas estavam na cozinha passando um café e me deixaram na sala proseando com a Juliana.
Conversa vai, conversa vem, eu falava dos meus planos de férias e de algumas viagens quando de repente, intempestivamente, fui interpelado pela Ju:

- Mas qual é o tamanho do mundo?

Congelei. “Criança tem cada pergunta!”, pensei comigo e fiquei imaginando o que responder. Resolvi desconversar, enrolar a pobrezinha:

- Ah, Ju, o mundo é grande, muuuuito grande.

Disse isso meio sem certeza de que estava dando a resposta certa. Em poucos segundos minha desconfiança foi confirmada: a menina fitava-me com um olhar inquisidor como quem devia estar pensando: “Mais um adulto que não sabe de nada... Mais um adulto que me decepciona...”.
Enquanto sentia o cheiro do café que vinha lá de dentro, pensei em buscar na Internet um número, uma proporção, mas achei que não era um dado como esse que estava em questão. Afinal, eu e aquela menina não estávamos discutindo ciências exatas, mas filosofávamos. Respirei fundo e tentei novamente:

- O mundo é do tamanho das coisas que a gente conhece.

Os olhos da Ju brilharam, sua boca ficou entreaberta. Por alguns instantes pensei que vinha uma nova inquietação... E veio:

- Ah! Então é por isso que a gente precisa saber das coisas?

Ufa! Fiquei aliviado e feliz porque havia conseguido entrar naquele universo tão peculiar que é o universo de uma criança de cinco e poucos anos e me fazer entender:

- É isso mesmo, quanto mais a gente conhece as coisas, os lugares e até as pessoas, maior o mundo fica.
- Então quando eu ficar grande como você o mundo vai ser maior?
- Vai.
- Mesmo?

Ela franziu a testa, colocou uma mão nos quartos, mordeu os beiços como quem pensa: “eureka!” e ficou me olhando. Eu também a olhava ali, naquele momento de descoberta, até que fomos interrompidos pela Karen:

- Enio, o café tá pronto! Traz a Ju que tem torta de chocolate também.

Naquela cozinha eu e a Ju tínhamos três certezas: a de que havíamos criado uma cumplicidade ao compartilharmos nossas idéias sobre o tamanho do mundo, a de que os nossos mundos, a partir daquela conversa, haviam se tornado maiores e uma terceira certeza: café com torta de chocolate num final de domingo chuvoso, acompanhado de bons amigos, é uma maravilha!

terça-feira, 22 de abril de 2008

Para preparar uma aula de amor

Vencendo paradigmas, a educação deve ser um bom casamento a três: professor, aluno e escola (Imagem: reprodução fotográfica de obra de arte)


Enio Moraes Júnior


“O que é necessário, hoje em dia, para preparar uma boa aula?”, resmungou uma colega, professora de um curso de graduação em Comunicação Social em São Paulo. E continuou: “Já tentei de tudo e aqueles alunos não conseguem se interessar”. Ela relatava que já havia levado vídeos, fotos, jornais e cases publicitários para analisar em sala de aula e nada: nenhum fiozinho de resposta, de agrado.
Mas como era apenas um desabafo, deixei que ela falasse, ouvi atentamente. Despedimo-nos e seguimos nossos caminhos para as aulas do segundo horário. Mas não tirei aquele desabafo, aquela inquietação da cabeça.
Pensei que as novas tecnologias, o novo mundo, têm ensejado muitas discussões sobre o novo perfil do aluno, as novas práticas docentes: discutem-se do valor da imagem ao do uso da internet; do poder da interatividade ao uso de recursos multimídia em sala de aula. Mas o fato é que muito pouco tem sido discutido a respeito do professor.
Quem é esse profissional, como ele deve preparar-se para os desafios de novas concepções pedagógicas e didáticas? Que crises ele enfrenta e como isso interfere – e ao mesmo tempo é interferência – da relação que ele estabelece com os aluno e com a escola (donos, diretores etc)? Afinal, o processo ensino-aprendizagem é uma via de muitas mãos, e os todos os lados têm que estar em sintonia.
Além disso, qual o acesso que os professores têm às novas tecnologias de comunicação e de informação, hoje tão celebradas em sala de aula? Como as escolas – sejam públicas ou privadas, de ensino fundamental, médio ou superior – têm estimulado no professor esse novo perfil? Qual o suporte material e profissional que elas têm dado aos seus docentes?
Com base nas conversas que tenho tido com alguns professores e com alunos de pós-graduação, que também são professores – para quem ministro aulas de Educação e Tecnologias da Comunicação em algumas escolas em São Paulo –, arrisco uma resposta: os professores, sobretudo os das escolas públicas, têm pouco ou nenhum acesso às novas tecnologias e as escolas, sejam públicas ou privadas, têm negligenciado as condições técnicas e materiais desse acesso aos docentes.

Autocrítica, aprendizagem, articulação – Retomando o desabafo da minha colega, diria que, hoje em dia, para se preparar uma boa aula é necessário autocriticar-se, aprender sempre e articular forças.
Autocriticar-se é pensar que os tempos estão mudando e que precisamos mudar também, é estar insatisfeito e lidar com isso – talvez seja nessa etapa que esteja minha colega. Mas essa inquietação deve ser percebida e trabalhada de forma positiva, propositiva. Algo de útil deve ser feito com ela, e o melhor a fazer é aprender...
Na sociedade do conhecimento, lidar com as mudanças é aprender a mudar, é assumir que o aprendizado não tem fim, é e deve ser permanente. Mas nesse caminho, é preciso articular outros atores. Os alunos e as escolas têm que ser chamados a assumir suas tarefas, seu compromisso e responsabilidade com a aprendizagem.
Cabe ao aluno ser parceiro do professor na construção das “boas aulas”, mas para isso ele precisa ser convidado, estimulado, por esse professor, a tomar parte nesse processo. Além disso, cabe às escolas realizar investimentos não apenas em tecnologias, mas na aprendizagem e adaptação do professor, para que isso possa retornar ao aluno.
Mas não se pode perder de vista que a palavra educação – que vem do latim educãre (alimentar, criar) e educere (conduzir para fora, tirar) – continua remetendo a um estímulo (alimento) para trazer à tona (condução). Por isso, seja no pensamento dos clássicos greco-romanos, de autores mais recentes, como Carl Rogres ou até mesmo Paulo Freire e Edgar Morin, o ato educativo continua a merecer um ingrediente fundamental das boas receitas: amor.
Mas ressalte-se: não o amor piegas que leva ao comodismo ou à leniência, mas o amor do compromisso com o outro, com o outro-universal, como diz Morin. Esse amor, que é amor-compromisso, amor-responsabilidade, também não é unilateral, não pode ser uma tarefa árdua e sofrida que cabe ao professor.
Trata-se de um amor que precisa ser, na mesma medida, correspondido. É também compromisso e responsabilidade do aluno e da escola que o acolhe para a tarefa que, em tese, lhe é confiada: ensinar. Juntas, articulados no amor-compromisso e no amor-responsabilidade, professores, alunos e escolas encontrarão, inquietos e criativos, o melhor caminho para preparar uma boa aula.

terça-feira, 11 de março de 2008

A vida simples de algum lugar




Os cavalos, parte do trabalho de Capilé: o cotidiano do interior traduzido no artesanato
(Foto: Enilson Vieira Moraes)


Enio Moraes Júnior

Ofício que “eles ‘aprendero’ com os pais e ‘ensinaro’ pros fios”, as marcas da cultura ceramista estão por toda a cidade. Quilos e quilos de argila úmida transportada em dezenas de carroças puxadas por jegues ou cavalos circulam pela cidade enquanto as janelas das casas se abrem, muitas delas já com esculturas à mostra, para mais uma sexta-feira de trabalho e comércio. Assim é o amanhecer do dia, ainda cedo, pouco mais de cinco da manhã, na pacata cidadezinha do Nordeste brasileiro.
Santana do São Francisco é uma pequena cidade do interior sergipano, com uma população estimada em 6.323 habitantes (dados do IBGE) que vivem basicamente dos recursos oferecidos pelas águas do rio São Francisco. A cidade, que até 1992 chamava-se Carrapicho, está localizada na região do Baixo São Francisco e desenvolve atividades como a pesca e a agricultura, mas “tem nada” que a faça mais conhecida nacionalmente que a sua produção artesanal de cerâmica de barro.
Sandro de Zequinha, Capilé, Maria, José, João e mais uma dezena de artesãos colocam, de fato, a mão na massa e dela criam, esculpem e reinventam, cada um a seu jeito, com seu talento, as suas próprias peças.

- Mas ‘coidado’, moço!, advertiu-me uma senhora robusta, de roupas simples, mas bem arrumada, a quem pedi informações sobre os ceramistas da cidade. “É que aqui tem muito ‘cabra’ que gosta de copiar ‘as invenção’ dos outros. E isso já me disseram que ‘num’ é arte”.

Numa das primeiras casas visitadas, vejo que crucifixos, imagens de Nossa Senhora Aparecida e de São Jorge dividem a mesma prateleira com esculturas de Oxum e de Oxossi. Todos eles, por sua vez, num mesmo móvel ao lado de canecas de cerveja cinzeiros, vasos para flores e oferendas.

- Bata palma aí que ela aparece, disse a senhora que havia advertido sobre os copiadores e me acompanhou por todo percurso que fiz na cidade, embora não quisesse dizer o nome ou o que fazia ali.
- Acho que não tem ninguém. Saíram e deixaram a porta aberta. Como pode?
- Aqui ‘tem problema isso não, homi’. Depois você volta.

Assim é a vida em Santana, sem grandes segredos. Alguns cidadãos ganham a vida com o transporte da argila ou da lenha utilizadas na produção da cerâmica, enquanto outros comercializam o artesanato nas próprias casas, muitas delas transformadas em oficinas. Mas o que chama mesmo a atenção é o trabalho cuidadoso dos artesãos que dão forma à argila e solidificam a história, a beleza e as angústias do povo ribeirinho que vive às margens do São Francisco.

- Ô de casa, chego batendo palmas e anunciando minha entrada casa à dentro.

Concentrado no trabalho de molda das peças, que parece pesado e exige paciência, Sandro de Zequinha olha com a cabeça levemente abaixada e a testa franzida:

- Pois não?

Herdou a profissão de artesão do pai, com quem trabalha em uma das oficinas da cidade. Tem quarenta anos de idade, que parecem bem menos, embora isso possa contradizer as possibilidades de danos físicos de um trabalho num local abafado e insalubre. “É que aqui eu trabalho com a natureza”, justifica.
Sandro passa cerca doze horas por dia moldando peças que depois de trabalhadas são colocadas em um forno à lenha para queimar e finalmente serem pintadas. “Não tem barro melhor do que esse daqui não. Ele é macio, olhe só” – diz, revirando a argila. “É bom para queimar e para pintar. No Brasil não há igual”.

- Mas o que você conhece do Brasil; da argila dos outros lugares?
Ele desconversa:
- Nada, quer dizer, quase nada, o pessoal é que fala...

Meio ambiente - Embora emblemática da relação que o homem ainda pode manter com a natureza, a relação entre o São Francisco e a população de Santana do São Francisco tem hoje uma grande ameaça: a degradação do rio e do meio ambiente. O receio dos ambientalistas é que esse processo comprometa a cultura e a sobrevivência de populações que utilizam o seu potencial.
Mas segundo a Prefeitura, que contabiliza que cerca de 60% da população vive do artesanato, está em negociação a elaboração de um projeto em parceria com órgãos como o Departamento de Engenharia Agronômica (DEA) da Universidade Federal e Sergipe e o Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para a plantação de eucalipto para ser usado na queima do barro nas proximidades do município. O objetivo é baratear os custos e minimizar as conseqüências da extração de lenha das matas ciliares.
“Dizem que isso aqui ‘tá tudo acabando’, mas ‘sei não’, a gente sempre dá jeito de seguir na caminhada”. Mas o fato é que de todas as implicações da produção artesanal de Santana, o impacto ambiental da retirada de argila também seja uma preocupação presente entre os artesãos locais. Segundo o presidente da Associação de Artesãos de Carrapicho, Edílson Fortes, há, sim, retirada da lenha de áreas de preservação. “Temos receio da situação que estamos criando para nós e para o rio, mas estamos trabalhando em cima das nossas necessidades”, diz com a experiência, a sobriedade e a preocupação de quem, aos 55 anos, conta também outros 55 de lida com a cerâmica e a argila do São Francisco.
Edílson está otimista com a parceria entre a Prefeitura e os professores da Universidade. Acha que tudo pode ser resolvido e que os artesãos podem colaborar. Despeço-me e volto à casa em que havia ido no começo da manhã.

- Bata palma de novo que ela aparece.

Um jovem senhor, de olhar simples mas passos firmes, vem até a parte da frente da casa. Wilson de Carvalho, o Capilé, tem 38 anos e é provavelmente o mais conhecido artesão santanense. Hoje, com o uso da lenha, ele garante uma renda mensal de 600 reais é contra a devastação e a favor dos projetos de reflorestamento de eucaliptos, mas reclama da burocracia. “Minha preocupação é que esse projeto fique engavetado. Se não for tomada uma posição de maior respeito e consciência, a idéia não vai adiante”.
Gostei da sua ponderação, gostei do povo santanense e da sua arte. Do lado de fora da porta, o movimento das pessoas nas ruas havia acalmado, já era quase hora do almoço e lembrei-me que uma das regras das cidades do interior é refeição com hora marcada.

- Interessante esse povo daqui, esse povo do barro!, observei pensando que falava comigo mesmo, mas tive resposta:
- Tudo isso é coisa que “eles ‘aprendero’ com os pais e ‘ensinaro’ pros fios, respondeu-me a senhora que ainda permanecia atrás de mim.

Olhei com um ar de curiosidade, e ela continuou:

- Assim é a vida de todo lugar, ‘né não’?, falou batendo em retirada, com as mãos cruzadas sobre a região lombar, como fazem as pessoas simples depois de uma tarefa concluída. Era como se a minha surpreendente companheira de reportagem soubesse que o nosso trabalho tivesse terminado.
Era quase meio-dia e o sol insistia em brilhar. Se assim é a vida em todo lugar eu não saberia, àquela hora, argumentar, mas certamente gostaria que a vida naquela cidadezinha às margens do São Francisco continuasse a ser vivida assim, com a sabedoria, a coragem e a simplicidade daqueles artesãos e daquela senhora.

(Matéria reeditada a partir de reportagem original deste autor publicada na revista Com Ciência Ambiental).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Tecnologias e desafios da Comunicação Integrada

Enio Moraes Júnior

O desenvolvimento das tecnologias de comunicação, especialmente nos últimos vinte anos, tem dado um novo sentido à existência humana e levado a uma reelaboração do modo como os indivíduos vivem e se relacionam em sociedade e isso tem alterado também o cotidiano e os interesses das organizações.
Parece difícil enxergar com clareza os próximos anos. A convergência midiática praticamente ainda não começou e hoje convivemos no mundo empresarial apenas com a primeira geração que cresceu com a internet. Estamos entrando em um mundo de novos significados e – parodiando o pesquisador canadense Marshall McLuhan, que nos anos 60 referia-se aos meios de comunicação como extensões do homem – de novas extensões.
Segundo o filósofo Pierre Lévy (2002), as atuais tecnologias implicam novas formas de ser e estar no mundo. Considerando que elas implicam também novas formas de comunicação, são, pois, novas formas de extensão de corporações empresariais e de homens.

Rapidez jamais sonhada
Por trás de toda essa mudança, há um projeto e ao mesmo tempo uma conseqüência política: a globalização. As fronteiras mundiais estão mais tênues e as pessoas tendem a estar mais próximas. Isso interfere inquestionavelmente nas empresas, que passam a contar com formas privilegiadas de otimizar sua comunicação integrada.
"Imagine a diferença em relação àquele empresário do Império que, ao receber uma correspondência do exterior, tinha quase três meses para pensar, tomar as decisões e responder", diz Jorge Gerdau Johannpeter (SIQUEIRA, 2007: B22), presidente do grupo Gerdau, fazendo uma comparação com o ritmo de trabalho e decisões tomadas por Mauá (Irineu Evangelista de Souza), empreendedor brasileiro do início do século 19 e os executivos contemporâneos. Segundo Johannpeter:

"A internet impõe uma rapidez jamais sonhada em nossas decisões. Temos que resolver tudo em minutos ou mesmo em segundos. Vivemos hoje um processo executivo on line que explica, em grande parte, o grande aumento de produtividade ocorrido no mundo nos últimos anos."

Marca corporativa
Entendendo o fenômeno global como algo ainda em processo, a filósofa Monique Canto-Sperber (2004: 50) observa que, embora vivamos hoje em um mundo integralmente conhecido, "onde as distâncias são reduzidas, onde empresas podem implantar-se por toda parte ou externalizar suas atividades", ainda há muito, do ponto de vista humano, a ser prensado e construído:

"Nosso mundo é, antes de mais nada, um mundo onde a pobreza e a miséria constituem o lote de uma parte considerável das populações, mesmo dentro dos países desenvolvidos. Mais que pela ausência de recursos, a miséria se mede pela ausência de perspectivas de futuro ou de oportunidades de ação (...)."

Dispor de meios para transformar recursos em verdadeiras capacidades de agir requer um mínimo de educação, exige viver em um mundo que ofereça reais possibilidades de desenvolvimento de si e pressupõe que a cultura à qual se pertence tenha podido formar em cada um a faculdade de adaptar-se.
É nesse cenário de contradições entre sentidos humanos e materiais, entre pessoas e coisas, entre empresários e funcionários, que os profissionais das diferentes habilitações de comunicação social precisam fincar a marca corporativa e a busca pelo lucro deve caminhar ao lado de uma efetiva responsabilidade social.

Objetivos gerais e específicos
A nova configuração mundial implica, pois, desafios para o papel da comunicação e dos seus profissionais. O fluxo informativo, agora mais veloz e dinâmico, assim como as decisões e a produção do capital, tem que corresponder a uma qualificação também do nível de relacionamento entre empresários, funcionários e clientes. Diante disso, a comunicação integrada, apoiada pelas tecnologias digitais, precisa ganhar um novo sentido.
Tradicionalmente, a partir dos estudos de Margarida Kunsch (1986: 112), a noção de comunicação integrada considera que "o importante, para uma organização social, é a integração de suas atividades de comunicação, em função do fortalecimento de seu conceito institucional, mercadológico e corporativo junto a todos os seus públicos".
Assim, a CI funciona por meio da articulação da comunicação institucional, da comunicação mercadológica e da comunicação interna da empresa. Ademais, essa articulação deve formar um conjunto "harmonioso" da comunicação organizacional (1997: 116):

"A comunicação integrada permite que se estabeleça uma política global em função de uma coerência maior entre os programas de uma linguagem comum de um comportamento homogêneo, além de se evitarem as sobreposições de tarefas. Os diversos setores trabalham de forma conjunta, tendo ante os olhos os objetivos gerais da organização e ao mesmo tempo respeitando os objetivos específicos de cada um."

Participação interna e externa
Tal qual uma sinfonia, todo esse esquema tem que funcionar de forma bem articulada em suas partes para o sucesso da CI dentro da organização. E no começo de tudo está um bom projeto comunicacional. Parte fundamental da construção desse projeto é a informação que o profissional de comunicação tem em mãos.
Alguns anos antes da presença das atuais tecnologias de informação nas empresas e no cotidiano dos profissionais de comunicação, Gaudêncio Torquato (1986: 29) já nos falava a esse respeito:

"Um profissional de comunicação que possa dispor de informações a respeito de todos os grupos sociais a que está ligada a sua audiência, a respeito da importância relativa de cada grupo, a respeito dos líderes de opinião para cada assunto e sua importância relativa, a respeito dos outros meios de comunicação que atingem seu público, a respeito dos interesses de sua audiência, esse profissional poderá elaborar um programa [projeto] muito mais eficiente do que outro que não saiba absolutamente nada em relação à audiência para a qual se dirige."

Sem dúvida, a inserção das tecnologias nos processos de produção da informação tem sido um diferencial de cases de sucesso de comunicação integrada, mas além desses elementos, um fator merece especial atenção: a participação dos públicos interno e externo nos processos de comunicação corporativa.

Preconceitos e desinformação
Embora existam riscos nessa simbiose, um projeto de comunicação efetivamente integrada deve estimular a participação dos indivíduos na sua construção e execução. Eles não devem ser vistos apenas como espectadores, mas compreender os assuntos, avaliando criticamente sua produção.
Recentes pesquisas na área de comunicação organizacional têm discutido o significado de o profissional de comunicação utilizar-se sabiamente das teconolgias digitais e suas ferramentas. No entanto, há empresas em que funcionários não podem acessar seus e-mails, alimentar seus blogs ou fotoblogs nem checar seu Orkut.
Em algumas empresas, apenas o acesso à intranet é liberado, comportamento que endossa uma série de preconceitos e desinformação em relação à utilidade e ao poder da internet nas empresas, especialmente no que diz respeito à comunicação integrada.

Condições "macro-ambientais"
Para Pierre Lévy (1999: 247), não podemos considerar a internet apenas "uma sub-cultura dos fanáticos pela rede". Para ele, a cibercultura, mais que isso, é uma "mutação fundamental da própria essência da cultura". Como observa Roberto de Camargo Penteado Filho (DUARTE, 2006: 348):

"As organizações já não podem dar-se ao luxo de ignorar as listas de discussões da internet. Precisam aprender como usá-las em seu proveito. Os sites, fóruns e listas de discussão da internet podem representar um amplo repositório de informações não só sobre seus clientes ou consumidores, mas também sobre seus concorrentes."

Atentos a esse tipo de ponderação, cabe-nos refletir sobre a interferência deste novo quadro no contexto da comunicação empresarial e no conceito da sua matéria prima: a informação. Afinal, a agilidade e as novidades tecnológicas obrigam-nos a rever e reformular conceitos.
Ao pensar a comunicação nas corporações modernas, Torquato (1986: 111) destaca a importância de uma visão "macro" por parte do profissional da área hoje bastante útil para pensarmos em relação às atuais tecnologias:

"O planejamento de estratégias, programas e projetos de comunicação empresarial requer uma minuciosa leitura do meio ambiente. Incorrem em grave erro os comunicadores e profissionais que planejam suas atividades sem atentarem para as oportunidades, riscos, ameaças e tendências do macro-ambiente."

A partir daí, ele discute uma série de elementos que compõem as condições "macro-ambientais", tais como a interdependência entre as empresas, a participação cidadã nos negócios e a presença das tecnologias de comunicação nas relações sociais.

Conhecimento em "pedaços"
No entanto, um escopo do seu trabalho nos chama especial atenção. Ao falar das novas necessidades estratégicas para a comunicação nas empresas, Torquato (1986: 113) oferece-nos uma lista de observações que, tomando com referência também os estudos de Kunsch (1986; 1997) e Casali (2002) e oportunizando as discussões que elaboramos até aqui, atualizamos a partir do novo "macro-ambiente" global e neotecnológico.
Unicidade das comunicações, trabalho conjunto e articulado entre os profissionais da área e planejamento. Essas parecem ser até hoje as três bases para um bom trabalho de comunicação integrada.
Um dos elementos fundamentais para uma comunicação uníssona diz respeito à linguagem. Para Torquato (1986: 115), ela deve ser sistêmica e uniforme. Ou seja, o profissional da área deverá "estabelecer condições para uso e desenvolvimento de canais de comunicação, com a indicação de sua periodicidade, linguagem, conteúdos, forma etc.". Mas Casali (2002) faz algumas ponderações em relação a essa questão. Para ela, unicidade de projetos não significa, hoje, unicidade de conteúdos:

"Frente às novas tecnologias de informação a unicidade da mensagem deve ser repensada. O receptor busca em cada uma de suas fontes de informação elementos novos que possibilitem a composição de seu quadro de referência em um processo de aprendizagem denominado bricolage, ‘um processo de exploração teórica anárquica (...) pelo qual os indivíduos e as culturas usam os objetos que os rodeiam para desenvolver e assimilar idéias’ (Levi-Strauss apud Turkle, 1997, p.70) O conhecimento é construído em ‘pedaços’, ao invés da compreensão linear da informação."

Estruturas e atitudes coerentes
Para Torquato, a comunicação na empresa não pode ser vista como algo sob controle direto, único e exclusivo dos profissionais de comunicação. Pelo contrário, os diversos níveis da hierarquia empresarial devem ser aqui observados.
Nesse aspecto, as atuais tecnologias não podem ser entendidas apenas como instrumentos de uma comunicação vertical produzida por profissionais especializados, mas devem fazer parte do planejamento de uma comunicação sinérgica como ferramentas que, aliadas a esses profissionais, devem conduzir a empresa a uma verdadeira integração entre seus objetivos mercadológicos e humanos.
O autor defende uma maior ênfase em canais participativos de comunicação. Além das possibilidades convencionais como caixas de sugestões e brainstorming ("tempestade de idéias"), a internet traz em si algumas possibilidades. A esse respeito, Casali (2002) observa:

"A idéia da comunicação integrada é a coordenação de mensagens para um impacto máximo. Este impacto é obtido através da sinergia, as conexões que são criadas na mente do receptor como resultado de mensagens que se integram para criar um impacto de poder maior do que qualquer mensagem individual por si só. As mensagens e seus conceitos repetem unidades essenciais de significado ao longo do tempo através de diferentes veículos e provenientes de diferentes fontes, estas quando integradas, irão unir-se para criar estruturas de conhecimento e atitudes coerentes no receptor."

Informações e riscos
Um outro ponto citado pelo autor diz respeito à necessidade de estabelecer uma simetria entre marketing institucional e o marketing comercial da empresa. Para ele, isso "significa aumentar a redundância, racionalizar a linguagem, economizar custos e fazer com que a imagem que passe para a opinião pública se torne igual à identidade que se quer projetar" (1986: 114).
Embora algumas empresas secundarizem o trabalho de comunicação integrada, para Torquato, tanto empresários como funcionários devem acreditar na comunicação como poder organizativo. E o poder para isso está especialmente nas mãos do profissional de comunicação.
Uma das ferramentas nesse sentido é o endomarketing. Trata-se de uma área da administração que tem por objetivo, a partir dos princípios do marketing tradicional, desenvolver estratégias para o público interno da empresa.
Além disso, reciclar-se, investir em informações, sejam elas formais ou informais, assumir riscos de novos projetos, valorizar o conhecimento, a experiência e a criatividade são pré-requisitos de um profissional que esteja mais preocupado em assessorar e menos em executar programas.

Considerações finais
A sociedade global e as atuais tecnologias trazem para a vida contemporânea a vantagem de uma comunicação que pode ser mais profissional e rápida, mais veloz e mais bem embalada.
Mais do que em qualquer outro momento das relações humanas, trabalhar com a comunicação integrada em sua mão-dupla de direitos e deveres; de empresários e trabalhadores, corresponde a um esforço permanente. Talvez estejamos caminhando numa direção em que pensar um modelo de comunicação integrada para as organizações vá além de pensar a relação funcionário-empresa-cliente. Talvez estejamos caminhando em direção de um pensar mais coletivo.
Nesse sentido, a formação do profissional de comunicação social – jornalistas, publicitários, relações públicas etc. – passa a ter um papel fundamental para ultrapassar as fronteiras da desinformação e abrir os olhos para as crueldades e arbitrariedades que são cometidas contra seres humanos em nome do capital. Em outras palavras, a formação de profissionais cidadãos comprometidos com cidadãos talvez seja o ponto de partida para verdadeiros projetos de comunicação integrada nas corporações.
A convivência democrática com a diferença, com pontos de vista díspares (seja de autores, professores ou colegas), complementares e inquietantes e, ao mesmo tempo, o exercício diário de lidar responsavelmente para si e para o outro (seja a fonte de informação, seja o público) com a diversidade, são elementos importantes para uma conduta profissional cidadã.
Assim, ao pensarmos modelos de comunicação integrada para os profissionais do século 21, que inevitavelmente terão como instrumentos de trabalho as tecnologias do mundo globalizado, não devemos apenas nos preocupar com os benéficos que seus resultados possam trazer para o capital, mas também para as pessoas.
Postular a presença da cidadania na prática e na formação do profissional de Comunicação Social significa estimular a reflexão, a revisão e a reestruturação de valores democráticos. Se os meios de comunicação continuam a ser extensões do homem, como pensara McLuhan, cuidemos muito bem de nós para que estendamos o que de melhor pudermos estender.

Bibliografia
CANTO-SPERBER, Monique. "A globalização com ou sem valores". IN: BARRET-DUCROCQ (org). Globalização para quem?: uma discussão sobre os rumos da globalização. São Paulo: Futura, 2004. 50-58 pp.
CASALI, Adriana Machado. Comunicação Integrada e novas tecnologias de informação (2002). Disponível em: http:[//www.eca.usp.br/alaic/material%20congresso%202002/congBolivia2002/trabalhos%20completos%20Bolivia%202002/GT%20%206%20%20margarida%20kunsch/Adriana%20Machado%20Casali%20-%20CO%20y%20RP.doc]. Acesso: 28 de fevereiro de 2006.
DUARTE, Jorge (org). Assessoria de Imprensa e relacionamento com a mídia: teoria e técnica. 2ª ed. São Paulo: Editora Atlas, 2006.
KUNSCH, Margarida Maria Krohling. As organizações modernas necessitam de uma comunicação integrada. Mercado Global, 2º trimestre, 1997, n. 102.
_____. Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada. São Paulo: Summus, 1986.
_____. Relações Públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional. São Paulo: Summus, 1997.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.
_____. Ciberdemocracia. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
SIQUEIRA, Ethevaldo. "Decisões on line revolucionam a produtividade". O Estado de S.Paulo. Economia, pg. B22. Domingo, 1º de julho de 2007.
TORQUATO do Rego, Guadêncio. Comunicação Empresarial: comunicação institucional. São Paulo: Summus, 1986.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O jornalismo, a cidadania, as tecnologias, o amor e os alunos





As taças: apesar das diferentes formas e cores, base iguais
(Foto: Enio Moraes Júnior)


Enio Moraes Júnior

“Professor, mas como assim, você tem um blog profissional para discutir jornalismo e cidadania e resolve falar sobre amigos e amor? Pode?”, interpelou-me uma aluna de pós-graduação, com um ar de sincera dúvida em relação ao texto Os amigos, as estações e as razões do amor (abaixo) que resolvi publicar neste Blog do Enio imbuído pelo espírito de final de ano.
Confesso que fiquei provocado com a pergunta, especialmente porque quem me dirigia tal assertiva era aluna de uma turma de Tecnologias e Educação na qual eu havia solicitado a criação de blogs para a discussão de assuntos referentes às suas áreas de pesquisas acadêmicas.
Voltei a este blog, li e reli o texto comentado pela aluna... “Mas não é que é verdade?”, pensei. De repente eu havia abandonado a proposta que havia lançado ao criar este blog e disponibilizá-lo como espaço para as reflexões sobre jornalismo e cidadania. De repente este suporte para aulas de cursos de graduação e pós-graduação corria o risco de perder seu sentido...
No entanto, olhei com atenção e me dei conta que as taças que apresento ilustrando o conteúdo do texto, assim como a maioria das coisas da vida, ainda que sejam diferentes em suas cores e formas, têm o mesmo padrão de pés, as mesmas bases...
Então pensei: será que falar sobre jornalismo e cidadania é muito diferente de falar de amigos e amor? Percebi que o que eu sou profissionalmente, as minhas preocupações e interesses acadêmicos são um sintoma claro e direto da minha vida e dos meus valores pessoais. Que ser pensar o jornalismo como prática de cidadania é pensar também o ser humano basilado na prática da amizade e do amor.
Senti com uma clareza cristalina que articular jornalismo a cidadania e associar amizade a amor são uma mesma atitude, algo absolutamente coerente, emanado pelos mesmos valores, pelas mesmas bases, de uma mesma pessoa.
Pensei que a metáfora das taças e suas diferentes formas e cores guardam entre si, também, um mesmo padrão de base. E é exatamente essa base que determina o que somos, seja na vida com a família e com os amigos, seja no cotidiano profissional.
“Então tudo bem”, pensei e resolvi contra-argumentar com a aluna. Passado o intervalo entre as aulas, a procurei para comentar minha descoberta e vi que ela estava postando no seu blog sobre tecnologias educacionais um poema do Fernando Pessoa:

De tudo ficaram três coisas: a certeza
de que estava sempre começando,
a certeza de que era preciso continuar e
a certeza de que seria interrompido antes de terminar.


Percebi que nem precisava comentar a minha descoberta. Ela havia entendido exatamente a mesma coisa, antes de mim, e havia me ensinado!
Achei ótimo e lembrei o que sempre soube: o quanto os alunos, sem saber, são capazes de ensinar aos seus professores. Por isso, lembrei-me também de dedicar estas linhas aos meus alunos do presente, do passado e do futuro – de sempre –, com quem aprendo a cada dia as alquimias do jornalismo, da cidadania, das tecnologias e do amor.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Os amigos, as estações e as razões do amor



As taças: diferentes cores, diferentes formas (Foto: Enio Moraes Júnior)




Enio Moraes Júnior

Para Aristóteles, filósofo grego que viveu nos anos 300 a.C., a amizade é o que há de mais fundamental na existência humana, uma vez que os bens conquistados ao longo da vida dos indivíduos, como o dinheiro e o poder, não poderiam ser compartilhados sem a presença dos amigos. Para ele, a amizade é essencial para a socialização e para a celebração da própria vida.
Também segundo Aristóteles, a amizade implica uma tal deferência humana que exige que o amigo aja em relação ao outro amigo da mesma forma que age em relação a si mesmo. A amizade, nessa concepção, possui um forte teor de responsabilidade em relação ao outro.
Perceber esse sentido e o valor das amizades foi talvez a mais nobre descoberta que pude fazer em São Paulo e talvez o principal aprendizado que tive com os paulistanos – daqui ou de outros lugares do mundo – que aqui conheci.
O musical norte-americano Rent, sucesso da Broadway que foi transformado em filme e está disponível em DVD (Rent / Columbia: EUA, 2005), imortalizou a canção Seasons of Love que, mais que celebrar o amor romântico, canta as verdadeiras amizades encontradas, desencontradas, reencontradas e enfim, vividas em meio a dúvidas, tristezas, doenças, festas e alegrias.
A canção é uma composição de Jonathan Larson e anuncia:

It's time now to sing out
Tho' the story never ends
Let's celebrate
Remember a year in the life of friends
Remember the love

Em português seria algo como:

A hora é agora
Essa história não tem fim
Vamos celebrar
Lembrar um ano na vida dos amigos
Lembrar o amor

Para Aristóteles, a amizade é diferente do amor porque este pode ser sentido também por coisas e objetos, mas amizade, só por gente. E mais: enquanto o amor está associado à afeição e ao desejo, a amizade significa compromisso, o sentimento de compartilhar. São as estações e razões para as amizades, assumir compromisso com gente. É exatamente esse sentimento que em Rent é chamado amor: o amor da alma, a amizade.
Numa cidade como São Paulo, onde as pessoas silenciam-se entre si com os seus MP3, MP4 e iPods, os amigos são uma oportunidade para a vida comunitária, a troca de idéias e solidariedade. Em meio às pedras e vidros, concreto e carros em frenético movimento, sentimentos que socializam, humanizam e permitem compartilhar as conquistas – como bem poderia dizer Aristóteles – continuam a ser um bom antídoto contra os MP3, MP4 e iPods que nas grandes cidades servem para acomodar a trilha sonora de pessoas que correm das pessoas para encontrar a solidão.
Que os sons que São Paulo produz continuem sendo doce aos meus ouvidos. Que em 2008 o Eduardo, o Anchieta, a Tereza, a Alessandra, o Júlio, o Valnei, a Márcia, o Marcos, a Ana, a Adriana, a Gislaine, a Fabiana, a Andréa, o André, o Fernando, o Murilo, a Rita, a Camila, o Miguel, a Valéria, o Ícaro, o Vinícius, a Carla, o João, a Cris, o Adriano, a Sônia, o Paulinho, a Tânia, o Coelho, a Amália, o José, o Abides, a Lícia, a Cristiane, a Lúcia, o Sérgio, a Helena, a Cida, a Ciça, a Rejane, a Loverci, a Clau, o Wagner, o Carlos, o Robson, minha família (todos: os Vieira, os Marinho e os Moraes de todas as gerações) e os demais amigos e parentes - desse e de outros mundos, em especial o André Florêncio e minhas avós Noêmia e Pastora - continuem entoando comigo as canções das estações e das razões do amor e da amizade.
Que no ano que está chegando possamos chorar juntos, celebrar, sorrir e lembrar mais outros anos na vida dos amigos, as amizades e o amor. Um brinde aos meus amigos, às estações e razões para as amizades!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Globalizações, humanização e responsabilidade profissional


Cadeiras vazias: qual o espaço dos seres humanos na sociedade de consumo global? (Foto: Enio Moraes Júnior)

Enio Moraes Júnior

Segundo a filósofa Monique Canto-Sperber, não podemos falar em globalização como uma espécie de UNIFICAÇÃO do mundo. É necessário que os valores regionais sejam preservados a partir da construção de um MOVIMENTO CRÍTICO que valorize a DIVERSIDADE humana e regional. Para ela, uma efetiva globalização deve implicar um MUNDO COMUM em que as diferentes culturas relacionem-se a partir das suas tradições, não que estejam submetidas a uma cultura dominante. Pouco empolgada com os lucros econômicos e buscando um sentido mais humanista para a globalização, ela observa (BARRET-DUCROCQ, 2004: 50):

Nosso mundo é um mundo onde a pobreza e a miséria constituem o lote de uma parte considerável das populações, mesmo dentro dos países desenvolvidos. Mais que pela ausência de recursos, a miséria se mede pela ausência de perspectivas de futuro ou de oportunidades de ação. (...)
Dispor de meios para transformar recursos em verdadeiras capacidades de agir requer um mínimo de educação, exige viver em um mundo que ofereça reais possibilidades de desenvolvimento de si e supõe que a cultura à qual se pertence tenha podido formar em cada um a faculdade de adaptar-se.

É nesse cenário de contradições entre sentidos humanos e materiais, entre pessoas e coisas, entre empresas e pessoas que os profissionais das diferentes habilitações de Comunicação Social precisam pensar sua atuação. A busca pelo lucro deve caminhar ao lado de uma efetiva responsabilidade social.
A nova configuração mundial implica, assim, desafios para o papel da comunicação e dos seus profissionais. O fluxo informativo, agora mais veloz e dinâmico, assim como as decisões e a produção do capital, tem que corresponder a uma qualificação também do nível de relacionamento entre as diversas instâncias da hierarquia humana envolvidas numa economia global que precisa fazer-se mais solidária. Diante disso, a mídia e os seus profissionais do século XXI, apoiados nas tecnologias digitais, precisam ganhar um novo e único sentido: o do ser humano, respeitando, na sua diversidade, o seu direito à vida com dignidade.
Buscando entender os obstáculos desse caminho, Benjamim Barber (2003) tem usado uma metáfora para discutir a intolerância e o desrespeito à diversidade em duas diferentes esferas. Para ele, no mundo contemporâneo e globalizado, à JIHAD – a busca de uma identidade local (regional) que implica o dever de dominação do outro em nome da aceitação desses valores – opõe-se o McMUNDO – a busca de uma cultura global que implica a dominação do outro em nome da proliferação do capital econômico.
Enquanto a Jihad dissemina MICROGUERRAS LOCAIS, o McMundo acena com uma MACROPAZ GLOBAL. Como resultado desse embate difícil, com uso de armas VIDEOLÓGICAS GLOBAIS e VIDEOLÓGICAS LOCAIS e desrespeito à INTERDEPENDÊNCIA ECOLÓGICA, vença quem vencer, talvez a única coisa que reste seja uma PÓS-DEMOCRACIA.
Tenho defendido (2007A) que na sociedade neotecnológica os conflitos que determinam a comunicação social e o jornalismo como espaço de cidadania não são exatamente retirados da pauta da produção da informação, mas deixam de ser percebidos pela recepção, tomada por uma nova cultura da pressa e da superficialidade: a HIPERCULTURA que, segundo Stephen Bertman (1998: 181), funciona num contínuo abastecimento a curto prazo:

A hipercultura é uma cultura que facilmente se torna maçadora e que rapidamente aturde as pessoas, uma cultura em que o divertimento se transforma e deixa de ser um momento ocasional de distração de pessoas ou de grupos e passa a ser uma forma de vida, que ocupa todos os interstícios entre os períodos de trabalho. Esgotando rapidamente as reservas de energia, uma hipercultura exige constantemente ser abastecida.

Em alguma medida respaldando a vida hiperculturalizada, Manuel Castells (MORAES, 2003) faz uma leitura das implicações da internet para a sociedade contemporânea. Para ele, a internet não é em si uma nova forma de sociedade, mas potencialmente representa e age como um instrumento, um meio de uma nova forma de organização social a que ele denomina SOCIEDADE EM REDE.
Para o autor, a internet não é um projeto político de dominação do capital e da ideologia norte-americana já que desde a sua origem ela foi multinacional e aberta à autogestão. No entanto, a geografia da internet pode ser tomada sob dois pontos de vista: dos usuários – normalmente dispersos no globo – e dos provedores – concentrados nos centros de tecnologia e conhecimento mundiais. Mas de acordo com Castells, a divisão social promovida pela internet não é aquela entre quem tem e quem não tem acesso a ela, mas entre aqueles que têm condições de utilizar o conhecimento que ela disponibiliza para “aprender a aprender” e aqueles que não o têm. A partir daí, na numa nova economia, as relações econômicas mudaram com a internet.
Agora o que se expande não são mais os produtos, característica da produção fordista, mas a volatilidade do capital financeiro. Isso propicia uma nova forma de sociabilidade, não excluindo as formas antigas. A vida em rede sociabiliza preferencialmente laços sociais “fracos” como aqueles entre vizinhos ou conhecidos.
Por outro lado, os movimentos sociais ocupam a internet e globalizam suas demandas, mas “aterrizam” localmente. Isso repercute, segundo Castells, na política. Assim como acontece com os movimentos sociais, a política, ao virtualizar-se, ganha uma dimensão global, mas perde terreno regional e continua a afastar-se do cidadão. A internet é apenas um instrumento a serviço da política, não pode mudá-la, adverte o autor.
Até que ponto os governos podem controlar a internet e, nela, a privacidade de seus cidadãos? Para Castells, ela continua livre. Ao mesmo tempo, para o autor, em um mundo de interação e informação generalizada, urge ser reforçada a credibilidade dos meios de comunicação como a única forma de sobrevivência social da mídia.

Gente e mercado

Pensando a comunicação no contexto mercadológico, Franz-Oliver Giesbert (BARRET-DUCROCQ, 2004) parte dos acontecimentos de 11 de setembro para discutir a informação na sociedade globalizada. Num planeta cada vez com maior oferta de informação, tomada como mercadoria, o autor reflete sobre a necessidade de uma MÃO FRATERNA, de tolerância e respeito humano, na condução e acionamento da comunicação social no planeta.
Aproximando-me do pensamento do autor (2007B), tenho tocado na questão ao propor o conceito de CIBEREXISTÊNCIA apoiando-me no conceito de uma CIDADANIA PLANETÁRIA, a quem têm se referido pensadores como Edgar Morin e Moacir Gadotti. Penso que a dimensão ciber – as novas formas de interação possibilitadas pelas tecnologias digitais – deve nos conduzir à tentativa de valorizar a vida por meio da valorização do ser humano e do planeta.
A socióloga Dominique Scnapper discute a cidadania na era global destacando que a vida política não tem sentido apenas ao ajudar os homens a produzirem riquezas, mas deve, sobretudo, despertar e defender valores humanos.
Scnapper, articulando seu pensamento ao da filósofa Canto-Sperber, entende que nesse caminho há de ser preservada no espaço da vida globalizada uma VONTADE COMUM em que exista um LUGAR POLÍTICO de discussões públicas para o encaminhamento de uma VONTADE POLÍTICA e respeito às LIBERDADES POLÍTICAS. Segundo ela (BARRET-DUCROCQ, 2004: 79), “a política não pode consistir somente em ajudar os homens a produzir riquezas e redistribuí-las aos diversos grupos sociais; ela deve, primeiro e sobretudo, trazer consigo valores e uma vontade comuns”.
No espírito dessas contribuições, o antropólogo Harris Memel-Fotê propõe, analisa e dialoga sobre a possibilidade de o século XXI engendrar uma MUNDIALIZAÇÃO HUMANA. Aproximando-se da crítica política presente no pensamento Barber, da perspectiva humanística presente em Giesbert e denunciando as contradições econômicas e sociais da globalização, ou mundialização, como se refere ele, Memel-Fotê observa (BARRET-DUCROCQ, 2004: 314):

(...) existe outro sentido no qual a mundialização econômica pode ser humana. Sem dúvida ela não é humana naquilo que um contemporâneo denominou “o retorno da cultura recalcada”, retorno que se apresenta ou sob a forma de uma explosão identitária com purificação étnica, prática genocida ou terrorismo (Ruanda, Bósnia), ou sob a forma de integrismo religioso (islamismo na Argélia, no Sudão, no Irã, no Afeganistão, bramanismo e budismo na Índia etc.). Apesar desse caráter mortífero do despertar do recalcado, algo de humano permanece no fundo dessa barbárie: a resistência, a recusa oposta à alienação mercantil e à dominação, duas formas de expressão, uma e outra, da liberdade dos indivíduos e das coletividades e do direito deles à vida.

Resta aos profissionais de comunicação socialmente responsáveis construir esse espaço de respeito e preservação do ser humano diante das desigualdades e desumanidades geradas por um modelo de globalização em que prolifera apenas o capital de alguns poucos grupos em regiões específicas do globo. Cabe a cada um assumir no seu ofício, na profissão que escolheu, a defesa física do planeta em que vivemos e essa defesa é, mais que em qualquer outro momento da história, a defesa do ser humano.
Para isso, é preciso que tenhamos a consciência de que a melhor colaboração que podemos dar ao mundo e ao outro é a fala aberta ao diálogo, não o dogmatismo. E os meios de comunicação e seus profissionais têm também um papel especial na construção desse diálogo. Na era das tecnologias comunicacionais, a internet pode ser um espaço para fóruns de discussões locais, regionais e globais. E, na medida em que o seu uso – tanto do ponto de vista técnico como político – caminhe no sentido de uma sociedade antropolítica, como diz Morin (MORAES, 2003), ela constituirá indivíduos bem educados e bem informados.

Principais referências bibliográficas
BARRET-DUCROCQ (org). Globalização para quem?: uma discussão sobre os rumos da globalização. São Paulo: Futura, 2004.
BARBER, Benjamim. Jihad X McMundo. Rio de janeiro: Record, 2003.
BERTMAN, Stephen. Hipercultura: o preço da pressa. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da terra. Série Brasil Cidadão. São Paulo: Pierópolis, 2000.
MORAES, Denis de (org). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
MORAES JR., Enio (A). A Hipercultura e os Conflitos do Jornalismo como Espaço de Cidadania. Trabalho apresentado no XXX Congresso Intercom. 2007.
_____ (B). Ciberexistência, Comunicação, Educação. Material apostilado. São Paulo, 2007.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.