sexta-feira, 9 de março de 2007
Um corte de arrepiar...
Quem gostou do clima mordaz de O Quarto Poder (EUA,1998), com as artimanhas de um Dustin Hoffman muito mal intencionado na pele do jornalista Max Brackett, certamente vai gostar muito mais de O Corte (Bélgica, Espanha, França: 2005). Desta vez, a crítica política do diretor Costa-Gavras não recai sobre o jornalismo ou outra profissão, mas dirige-se ao mundo do trabalho, ou melhor, do desemprego.
Em O Corte, a questão da concorrência, das neuroses e da solidão no mundo dos negócios atinge um grau máximo e inquietante. José Garcia é Bruno, um ex-funcionário do alto escalão do ramo de papéis. Depois de passar dois anos procurando, sem êxito, voltar ao mercado de trabalho, o personagem quarentão, casado, pai de dois filhos adolescentes, sente-se preterido em relação a concorrentes mais novos ou potencialmente mais preparados que ele e encontra uma saída para o seu problema: matá-los.
Enquanto mata, Bruno desfila o corte irrepreensível dos ternos que usa e permanece insuspeito, até mesmo quando engana a polícia – com o mais fino cinismo – para esconder os roubos de equipamento de informática praticados pelo filho mais velho... Os gregos, que criaram as bases da democracia moderna, ficariam de cabelo em pé ao ver o rumo assustador e mesquinho que tomou a vida privada em detrimento da vida pública.
Para uma geração que passou a adolescência tendo pesadelos e arrepios com os cortes de filmes como Pânico e Sexta-feira 13, eis que Costa-Gavras mostra que não é nada disso. O verdadeiro corte de O Corte é muito mais que uma ficção capaz de assustar crianças. Para a geração atual de adultos, os abomináveis Freddie Krueger e Jason foram substituídos pela dilaceração da alma ao deixá-la perturbada com os rumos que a vida real tem tomado nestes tempos de famigerada globalização.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Educação cidadã: Um caminho para ser jornalista
Vale (a pena) se tivermos ânimo para ultrapassar as fronteiras proibidas, fronteiras bloqueadas pela censura, pela ignorância, pela mentira. Vale ser tivermos os olhos bem atentos, para ver o delicado, o diferente, o invisível. É preciso coragem para se comprometer, para dizer o que se vê e o que se sente, sem medos nem manuais.
Penso que a educação, a escola e a formação profissional têm um papel fundamental para fazer valer a pena ser jornalista, ou seja, para ultrapassar as fronteiras da desinformação e abrir os olhos para as crueldades e arbitrariedades que vêm sendo cometidas contra seres humanos em nome do capital. Em outras palavras, penso que a formação de jornalistas cidadãos comprometidos com cidadãos seja o ponto de partida para valer a pena ser jornalista.
Num mundo globalizado, de alto desenvolvimento tecnológico, mas que ainda tem muito que aprender e implementar no que diz respeito às relações humanas, pensar a educação é desenvolver um sentimento de cidadania e alteridade. Como observa Gilberto Dupas (2001: 123):
(...) é preciso buscar condições para que uma nova hegemonia mundial, que inclua mas não constranja o capital, possa construir um mundo melhor, utilizando-se dos avanços da ciência em benefício da grande maioria de seus cidadãos.
Assim, é importante que as escolas de Jornalismo tenham como parte do seu projeto pedagógico o estímulo ao diálogo, à troca e a uma visão holística do aluno. É imprescindível como forma de sobrepujança do humano ao capital uma formação comprometida com a cidadania centrada "na pessoa" do estudante, como observa Carl Rogers (1973), e responsabilizando politicamente o educando, como diz Paulo Freire (1987).
Na formação profissional do jornalista, a convivência democrática com a diferença, com pontos de vista díspares (seja de autores, professores ou colegas), complementares e inquietantes e, ao mesmo tempo, o exercício diário de lidar responsavelmente para si e para o outro (seja a fonte de informação, seja o público) com a diversidade, são elementos importantes para uma conduta profissional cidadã. No entanto, esse resultado só será conseguido se a cidadania for discutida – e praticada – na escola; na formação do jornalista.
Jornalismo e novas tecnologias
Embora a formação curricular do jornalista seja importante para a apreensão do conceito de cidadania por fundamentá-lo teoricamente, só cidadãos e espaços cidadãos formam, de fato, cidadãos. Currículos, professores e práticas laboratoriais que não abram o aluno para o diálogo com as diferenças e a realização de suas potencialidades dificilmente conseguirão formar jornalistas comprometidos com os direitos humanos, com a democracia, com ética e com a responsabilidade cidadã da profissão.
Assim, ao pensarmos um modelo de formação para o jornalista do século 21, que inevitavelmente terá como instrumentos profissionais as novas tecnologias do mundo globalizado, não devemos apenas nos preocupar com o currículo, mas também com a relação do discente com o mundo acadêmico, com o docente e, principalmente, com a construção de sujeitos autônomos.
Postular a presença da cidadania na formação do jornalista neste novo momento da ordem econômica mundial significa estimular a reflexão, a revisão e a reestruturação de valores democráticos. Talvez possamos pensar uma formação em que o jornalismo tenha um espaço amplo a ocupar no contexto da ciberdemocracia, como propõe Lévy, (2003); na efetivação de um mundo em que o poder (de poucos) seja substituído pela potência (de muitos).
É neste sentido que Gadotti (2000) estabelece também as suas reflexões sobre educação. Para ele, neste novo milênio deve-se ter em vista uma cidadania não apenas nacional, baseada no conceito de Estado-nação. Educar significa, sobretudo, preocupar-se com uma cidadania planetária em que os indivíduos não mais podem ser vistos como parte de ‘blocos’, mas como pessoas que necessitam estabelecer laços de colaboração em nome da sobrevivência do próprio planeta.
Refletir sobre a formação que deve ser proposta ao estudante de jornalismo é pensar, junto com ele, que tipo de mundo se quer para os próximos anos e se queremos, de fato, o jornalismo como um elemento integrador de uma comunidade global e democrática. A partir daí, formando cidadãos que estejam a serviço de cidadãos, a educação e a escola estarão dando a sua contribuição para que valha a pena ser jornalista.
O caminho é árduo, mas uma educação cidadã é também um trajeto possível e necessário para um mundo mais justo e mais humano, mesmo que a lógica desumana do capital e sua ideologia não o queiram. Como concluiu Evangelista, "Só vale a pena ser jornalista se for – como cantou Torquato Neto – para ‘desafinar o coro dos contentes’."
Referências bibliográficas
DUPAS, Gilberto. Ética e Poder na Sociedade da Informação. 2ª ed. São Paulo: Unesp, 2001.
EVANGELISTA, Fernando. Vale a pena ser jornalista? Caros Amigos. Ano X. Número 117, dezembro de 2006. P. 17.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. Série Brasil Cidadão. São Paulo: Pierópolis, 2000.
PIERRE, Lévy. Pela Ciberdemocracia. IN: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record, 2003.
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.
sábado, 13 de janeiro de 2007
O Chá da diversidade dos sonhos
Você já ouviu alguma coisa do grupo pernambucano Chá de Zabumba? Pois eu já, e garanto: para quem gosta, é um dos melhores grupos de forró contemporâneo. No mais recente trabalho, Pra Sambar um Forrozinho, bem mais que música, os integrantes do grupo fazem uma verdadeira louvação à cultura nordestina, de raiz. Como eles mesmos afirmam, “a banda apresenta um jeito próprio de fazer forró, valorizando a tradição e flertando com a inovação”.
Talvez seja exatamente esse flerte com o futuro, sem deixar de trazer as marcas do passado, a grande marca da banda. Em época de globalização, viva o global!, mas que sobreviva e viva também o regional.
Teóricos e pensadores da globalização como Pierre Lévy e Jesus Martín-Barbero têm observado que o século XXI nos aguarda mais abertos, mais diversos, mas não como um todo sem base, sem vida, e sim com as peculiaridades das nossas raízes. É exatamente esta sacada que está presente, reluzente e quente no Chá.
No calor de Pra Sambar um Forrozinho, que é o segundo CD do grupo, a canção Sambastral é uma viagem, talvez o gole que deixa mais claro o espírito da banda: “Remexendo entre as estrelas tanto faz para cima ou para baixo / Eu sei: quem samba na terra também samba no espaço”. Mas no conjunto, o CD é uma reverência à alegria e ao amor que têm como matriz valores nordestinos, “um-não-sei-quê” de afeto, simplicidade e religiosidade.
Além de tocarem projetos sociais e culturais, como o Batuque Book, que prevê a edição de livros-CD-ROMs com música tradicional de Pernambuco, o grupo já está preparando um novo trabalho. Vamos torcer para que no terceiro chá, que está em fase de produção, Climério de Oliveira, Clima (voz, violão), Cleyton Coquinho (zabumba, vocal), Adriano Sargaço (triângulo, guitarra, vocal), Tarcísio Resende (percussão, vocal) e os músicos Eudes Ciriano (baixo, vocal) e Manuelzinho (sanfona) conservem o calor e o espírito de Pra Sambar um Forrozinho, de 2004, e VamoVadiá, de 2002.
Conheci o Chá há poucos dias, casualmente, numa viagem de ônibus Jequié (BA) – Aracaju (SE), por meio de uma menina que tem na cor da pele a diversidade dos sonhos do mundo, a Hosana, que faz a divulgação do grupo e entregou-me um CD. Presente dela para mim, do grupo para o público, de Pernambuco para o Brasil.
Chá, quando quiser zabumbar, é só chegar com o bule que eu chego com as xícaras para compartilhar a diversidade dos sonhos do mundo que o grupo também traz na alma da música que faz.
(Para maiores goles do Chá: www.chadezabumba.com).
quinta-feira, 30 de novembro de 2006
Boas compra$!
Enio Moraes Júnior
Recentemente reli e discuti com os meus alunos de jornalismo e publicidade um texto que acho particularmente intrigante, especialmente nesta época de consumo de Natal em que as TVs, jornais e a internet estão invadidas por propagandistas e celebridades que anunciam e vendem de tudo: de cartões de crédito a detergente, de fixador de dentadura a apartamentos em condomínios luxuosos. E o pagamento? “Só em janeiro, só em janeiro!”.
No texto, sem deixar dúvidas quanto ao seu ceticismo, o influente cientista político Benjamim Barber discorre sobre a nova forma de organização da sociedade contemporânea – a globalização – personificada em um McWorld em que predomina uma cultura de consumo e mercado que uniformiza os indivíduos e na qual a informação e a administração têm amplos poderes.Mas o que chama minha atenção é o conceito de Privatopia. Numa evidente alusão à Utopia de Morus, Barber fala de uma sociedade em que a cultura mercadológica e os meios de comunicação reforçam um estilo de vida em sociedade em que minorias (consumidores) vivem à margem da maioria. Nessas novas ilhas paradisíacas, o consumidor sobrepõe-se, e praticamente aniquila, o não-consumidor.
Para Barber, a ideologia é substituída por uma videologia. Ou seja, o conflito das ‘relações de forças’ é substituído pela ‘força de sedução’ da imagem. A realização dessa vida privatopizada, seduzida pela referência videológica tanto do jornalismo como na publicidade, é constantemente reforçada em todos os canais da TV, na internet e nos jornais o tempo todo, mas a sua forma mais concreta talvez sejam os shoppings centers, especialmente abarrotados nos finais de ano por consumidores vorazes.
Estimulados pelas cores, enfeites e laçarotes natalinos – parte pulsante da videologia – lá vão eles (ou nós?) rechear seus (ou nossos?) privatopos de novidades e arrogância. Com todo esse clima eufórico de consumo, mal nos sobra tempo para lembrar o significado religioso do Natal (também de forte carga ideológica, diga-se de passagem). E aí me vem à mente o bom Frei Betto que, ao comparar a igreja ao shopping center, observa:
Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, adquirem status construindo um shopping center. É curioso: 90% dos shoppings centers têm linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles, não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. Entra-se naqueles claustros, observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo acolitados por belas sacerdotisas ao som da musiquinha do gregoriano pós-moderno. Quem pode comprar a vista, sente-se o reino dos céus. Se tem que fazer pré-datado, pagar a crédito, então sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno: ‘Sou um desgraçado’. Felizmente, terminamos todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, como o mesmo suco e o mesmo sanduíche do McDonald’s (...).
Enfim, meu caro ou minha cara, brindemos aos nossos umbigos e boas compra$!!!
BARBER, Benjamim. Cultura McWorld. IN: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação. Rio de Janeiro, Record, 2005.
BETTO, Frei. Crise da Modernidade e Espiritualidade. IN: VERISSIMO, Luiz Fernando (entre outros). O Desfio Ético. Rio de Janeiro, Garamond: 2000.
sábado, 16 de setembro de 2006
quinta-feira, 10 de agosto de 2006
Da cidadania, do mundo e das pessoas
“Vocês precisam ler jornais. Vocês vão entender melhor o mundo e as pessoas”. Talvez não fossem essas palavras, mas era esse conteúdo que repetia incansavelmente o meu professor de graduação em Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, Amilton Gláucio, quando eu estava ainda no início do curso nos anos 90.
Menos de quatro anos depois, Amilton era meu orientador de trabalho de conclusão de curso e nos tornamos amigos. Com o curso concluído, eu havia lido bastante e estava saindo da faculdade entendendo muito pouco sobre “o mundo e as pessoas”. Conversei com ele sobre minha insatisfação e fui convencido de que “compreender” não significava um caminho linear, mas uma estrada cheia de curvas que precisava ser seguida com uma atenção constante e permanente. Amilton indicou-me alguns autores. Não lembro ao certo quais foram, mas entre eles estava a filósofa alemã Hannah Arendt.
Comecei a me interessar por Política e a me apaixonar por discussões que envolviam cidadania, democracia e direitos humanos. Fui fazer uma especialização em Jornalismo Político e Econômico. De alguma forma, estava cada vez mais entendendo “o mundo e as pessoas”, como Amilton havia sugerido.
Jornalismo como exercício de cidadania
Pouco tempo depois fui convidado para lecionar no curso de Jornalismo da Universidade Tiradentes, em Aracaju, onde havia cursado a especialização. Foi o momento de discutir e apresentar uma noção de jornalismo inspirada na cidadania. Percebi que esse conceito influenciava não só a minha conduta de vida, mas pautava decisivamente o meu padrão de jornalismo, minha prática em sala de aula e minha relação com os meus alunos. Tornei-me professor da Universidade Federal de Sergipe, assumi a Diretoria Acadêmica do sindicado dos professores da instituição, e estava cada vez mais claro que a cidadania era o meu caminho para entender “o mundo e as pessoas”.
Decidi torná-la tema do meu mestrado. Na Escola de Comunicações e Artes da USP, no início do mestrado que resultou na dissertação A Formação Cidadã do Jornalista no Brasil: um estudo de caso da formação do jornalista na USP, que defendi há cerca de três meses, o professor José Coelho Sobrinho, meu orientador, falou em uma das primeiras aulas sobre um autor que eu pouco conhecia: Carl Rogers. Achei que aí sim, com ajuda do Coelho e do Rogers poderia ser cumprida, de fato, a promessa do Amilton e seria mais bem amarrado meu conhecimento sobre “o mundo e as pessoas”. Eu estava certo.
No mestrado, por questões metodológicas, recortei meu universo de “mundo e pessoas” àqueles que há mais de dez anos têm sido meus eixos na carreira docente: a cidadania e a formação de jornalistas. Coelho, os alunos, os professores que entrevistei para a dissertação, ao lado de autores como Arendt, Rogers, Jaime Pinsky, Manuel Carlos Chaparro e Moacir Gadotti, mostraram-me que o que Amilton havia dito era melhor do que eu pensava. Conhecer “o mundo e as pessoas” é um trabalho constante que, assim como a cidadania, requer uma luta permanente com interesses pautados nos direitos humanos e na democracia.
Na condição de jornalista e de professor de jornalismo, tenho descoberto que quanto mais pratico a cidadania no dia a dia, em sala de aula e no “batente”, melhor compreendo e mais me comprometo com o mundo e com as pessoas. Esse é o caminho por onde a vida me levou, esse é o caminho por que vou. Este talvez seja o melhor caminho para entender o mundo e as pessoas e respeitar as pessoas no mundo.
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Aracaju, Sergipe

Característicos da região do Nordeste brasileiro, os festejos juninos – do mês de junho – são uma tradicional festa popular em devoção a Santo Antônio, São João e São Pedro. Estes festejos representam uma forma de agradecimento aos santos pela colheita e fartura na mesa dos camponeses da região, bem como um ritual de preparação para novos plantios.
As festas juninas são, enfim, uma celebração da força da terra e da vida do povo nordestino. Aracaju, capital sergipana, tem sido uma das principais sedes desses festejos na região, atraindo turistas de todo o país.
(Foto: Enio Moraes Júnior / Aracaju, 2006)
sexta-feira, 30 de junho de 2006
Penedo, Alagoas

Esta é a cidade de Penedo, no interior de Alagoas, onde tive a honra de nascer e morar até os 14 anos. É uma cidade linda, às margens do rio São Francisco, e conhecida pela imponência da sua arquitetura e pela gentileza do seu povo. Acho que nascer num lugar assim sempre ajuda as pessoas a serem mais felizes!
Há poucos dias resolvi passar por lá para fazer algumas fotos para lembrar, mostrar e orgulhar-me.
(Foto: Enio Moraes Júnior / Penedo, 2006)
domingo, 28 de maio de 2006
Ousadia De Fatto! : fazer fanzine faz diferença
Há duas ou três semanas, no início de maio, um grupo de alunos de jornalismo que está produzindo um fanzine - "Jornalismo De Fatto" (já estão na quarta edição) - convidou-me para participar como ombudsman. Avaliei o material com muito prazer, de especialmente pela inciativa do grupo e lembrei-me que, quando eu era estudante de jornalismo, há dez anos, também tive o meu jornal: "Em Aberto"(!).
Mas sem muito mais conversa, para que a iniciativa do grupo sirva de exemplo - sei que muitos dos meus alunos acessam este espaço - passo a dividir com os leitores deste blog o texto que escrevi.
O grande mérito de Jornalismo De Fatto é, sem duvida, o exercício da liberdade de expressão. Neste sentido, o jornal traz à tona diversas falas. No entanto, essas falas precisam ser contextualizadas em matérias mais bem apuradas e textos mais bem costurados. Afinal de contas, o trabalho do jornalista está pautado na difusão da notícia correta e completa, capaz de conduzir o público a agir em nome dos seus direitos.
"Raízes do Brasil" é superficial e generalista do início ao fim – “tantas dificuldades”; “gama de oportunidades” etc – e por isso o texto parece incompleto. Falta-lhe fôlego. "Drama de uma mãe" esbarra no ‘drama’ indicado no título, que fica claro no tratamento ‘chavão’ dado ao amor materno incondicional. Ao invés de reforçar o estigma afetivo, talvez fosse mais interessante discutir os caminhos para as mães reagirem judicialmente às agressões que seus filhos sofrem em infernos como as febens.
"Admirável mundo novo" traz uma entrevista com uma ex-BBB. O texto informa que a moça, moradora da periferia paulistana, teve sua imagem exposta no programa, gerou alguma discussão e saiu sem levar o prêmio. O que há de novo? Pelo contrário, a entrevista apenas reforça e reproduz as velhas curiosidades midiáticas.
O princípio do jornalismo é a notícia que gera debate e muda a vida das pessoas. Segundo o professor e pesquisador da USP Manuel Carlos Chaparro, jornalismo funde Ética, Técnica e Estética, constituindo uma tríade inseparável. Do ponto de vista estético, achei interessante os títulos adotarem referências a obras nacionais. Mas é bom nos perguntarmos até que ponto essa técnica não prejudica a fidelidade ao assunto e, portanto, compromete eticamente a informação.
Jornalismo De Fatto é uma excelente idéia que tende a melhorar à medida que amadureça seu projeto editorial e as respostas a questões como ‘o quê’ e ‘para quem escrevo’ fiquem mais claras. E isso não é querer demais, mesmo que seja de um grupo de alunos que ainda está no terceiro semestre de jornalismo, até porque eles têm mais ousadia, dedicação e coragem do que muita gente que já está organizando a formatura. Parabéns, De Fatto!
sexta-feira, 19 de maio de 2006
O bom senso de Ferréz
Esse cara é, sem dúvida, um dos sujeitos mais sensatos e sensíveis deste País. O problema da violência no Brasil vai além desse meniqueísmo manifestado nas ruas e mostrado pela mídia (não sei com certeza em que ordem).
No dia em que quisermos transformar o Brasil numa Nação, numa Pátria, de fato, teremos que adotar como princípio a sensatez de que a solução dos nossos problemas não se resume a matar ou prender uns e deixar viver outros.
Não! Chega de hipocrisia. O bucaco é mais fundo. Há bandidos que são grandes empresários do crime e outros que entraram numa cadeia por terem tido a infelicidade de roubar um pote de margarina, por exemplo, e, em prisões que não recuperam ninguém, formaram-se no crime. Há também muitos policiais honestos e que cumprem seu papel, mas há também corrupção.
Parabéns, Ferréz, pelo bom senso.
quinta-feira, 18 de maio de 2006
PCC: Mais que duzentos reais
Toda a confusão causada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo teve um só estopim: duzentos reais pagos e recebidos com a idéia de que a corrupção no País é algo corriqueiro e impune. Segundo o jornal Folha de S.Paulo (18/06), o ex-funcionário da Câmara Arthur Vinicius Silva, que atuava na sala de áudio da CPI, teria vendido aos advogados do PCC Maria Cristina de Souza e Sérgio Wesley da Cunha a íntegra do depoimento sigiloso prestado pelos delegados da Polícia Civil de São Paulo Godofredo Bittencourt e Rui Ferraz Fontes, do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Tráfico de Armas.
A íntegra do depoimento, gravada em dois CDs pelo funcionário, foi vendida aos advogados pela modesta quantia duzentos reais, menos de um salário mínimo, mas cujas proporções assustariam se as conseqüências fossem medidas tomando essa mesma referência. O funcionário, técnico de som, disse que estava numa situação financeira difícil e que ganhava mal. Os dois advogados, suspeitos de terem repassado por audioconferência o depoimento a membros do PCC, podem ser presos.
No entanto, o que chama atenção nesses fatos é a ‘naturalidade’ como os acordos, as ilicitudes e os conchavos parecem ser feitos. Por trás de tudo isso, às vezes tenho a impressão de que há a certeza de que as coisas não terão maiores conseqüências e, sendo assim, a impunidade está garantida. Parece tratar-se apenas de mais um oportunismo, mais um ‘jeitinho’ para se resolver as coisas e se conseguir o que se quer – sejam os duzentos reais ou a informação sigilosa – mesmo que para isso se tenha que passar por cima da Justiça e pelos direitos dos cidadãos.
Corrupção e impunidade são como fogo e pólvora. Juntos, formam a química perfeita das explosões que há anos vêm acometendo a vida política brasileira. Licitações de obras públicas que privilegiam parentes, a naturalidade de caixas dois em eleições, vossas excelências rindo e dançando cinicamente aqui ou acolá etc.
São essas as referências que um funcionário – terceirizado – da Câmera tem para o que ele acha ser um pequeno delito. Não é isso que têm nos provado as CPIs de Brasília e parte das elites e das autoridades do País?
Ao lado de toda bandalheira instaurada pela impunidade existe muita pobreza, fome, miséria, e faltam escolas e saúde, por exemplo. Mas falta, sobretudo, exemplos a serem seguidos. Faltam homens e mulheres públicos a serem admirados. E não falo de heróis ou astros da TV, mas de instituições que estejam a serviço dos cidadãos; de pessoas que as representem.
Creio que parte dos crimes do PCC e dessas corruptelas – que são bombas que nos sobressaltam, produto do encontro inevitavelmente destrutivo da pólvora com o fogo, seja uma resposta formas de violência praticadas pelas elites econômicas nacionais e por suas representações políticas que reagem com o mais completo descaso ou faz-de-conta em relação a uma população cada vez mais miserável e sem referência de cidadania e punição. E assim dão o exemplo.
Numa sociedade onde imperam a miséria e a impunidade, esses duzentos reais pagos e recebidos valem mais que o dinheiro em si. Valem o sentimento de participar do jogo, de seguir o exemplo e por isso achar que somos tão espertos quanto aqueles que nos representam. Mesmo que não os admiremos.
quarta-feira, 17 de maio de 2006
O Brasil que tem fome
segunda-feira, 24 de abril de 2006
Formação Profissional: quanto custa ser jornalista
Sabendo que sou jornalista e professor de jornalismo, uma amiga que estava interessada em trabalhar na área perguntou se eu sabia quanto custava ser jornalista. Fiquei surpreso com a pergunta, especialmente pela crueza e sinceridade contida num enunciado aparentemente tão simples. Confesso que não soube responder. Rapidamente passaram pela minha cabeça alguns números, mas algo na formulação daquela questão me incomodava e achava que por mais precisa que pudesse ser a resposta, em cifras, algo estaria faltando.
Disse que pensaria a respeito e depois conversaríamos. Antes disso, fiz alguns cálculos: somando dez ou doze mensalidades de uma faculdade na faixa dos R$ 800, o ano sairia por volta dos R$ 8 mil, mas pensando em quatro anos, teríamos R$ 32 mil. Pensei na compra de dez ou vinte livros por ano, algo em torno de R$ 500, teríamos aí R$ 1,5 a 2,5 mil durante do curso. Somando transporte e lanches, chutei: R$ 2 a 3 mil. Mais uma ou outra assinatura de jornal ou revista, provedor de internet, um ou outro equipamento (como gravador, máquina fotográfica etc), um ou outro congresso: mais uns R$ 15 mil.
Como números nunca foram o meu forte, resolvi sintetizar: ser jornalista custa mais ou menos o preço de uma quitinete razoável no centro de São Paulo. Pronto! Mas havia algo na pergunta que ainda me deixava em dúvida. Alguns dias depois, minha amiga me procurou:
- E então, quanto custa ser jornalista? Estou perguntando porque, dependendo do valor, talvez eu faça outro curso...
Disse ainda que talvez cursasse Letras, Moda, Direito ou mais uma ou duas opções que não lembro agora. Fiquei surpreso com o leque de possibilidades e voltei atrás na resposta da quitinete. Observei que ao invés de perguntar “quanto custa”, deveria pensar em “o que custa”. E melhor ainda: em “o quanto vale um jornalista”.
Jornalista não se faz, apenas, jornalista principalmente se é. O sentimento de ser jornalista não se compra. Claro que a escola, a formação, o contato com as teorias e a prática laboratorial da profissão são fundamentais para o aprendizado, mas na sociedade de consumo, o sentimento da “venda” de tudo quanto é coisa conseguiu distorcer e fazer se perder, em nós, a verdadeira essência das coisas.
“Quanto custa” ser jornalista é a parte menos importante de “o que” é ser jornalista. Essa visão é importantíssima para que aqueles que pretendem seguir a carreira entendam o que estão fazendo na faculdade e possam tirar o maior proveito possível do curso, da formação e da profissão.
A primeira coisa que alguém interessado na área ou um aluno deve fazer, nesse sentido, é responder para si mesmo o que é jornalismo. Muita gente não sabe. Apesar de os diversos autores conceituarem o jornalismo de diferentes formas, cada indivíduo vai chegar ao seu próprio conceito levando em conta sua relação com seus conhecimentos de mundo, com o outro, suas experiências etc.
Pessoalmente, associo o jornalismo a um espaço de construção da cidadania em que os direitos e os deveres de cada indivíduo são preservados e defendidos. No meu entendimento, o jornalismo tem um aporte humano e ético indiscutíveis, mesmo que muito do que exista no mercado e se apresente como jornalismo tenha que ser jogado no lixo, abandonado, e pouco do que eu conceba e defenda seja efetivamente praticado.
Ainda que possa ser fomentada no espaço familiar, nas relações sociais e pelos veículos de comunicação, a cidadania tem na escola um importante campo de discussão. No caso da formação do jornalista, embora contemplada nos currículos universitários, um dos aportes mais importantes da formação cidadã está na relação que os professores estabelecem com os alunos. Foi isto, inclusive, que revelou a pesquisa de mestrado A Formação Cidadã do Jornalista no Brasil, que acabo de concluir na Escola de Comunicações e Artes – ECA – da Universidade de São Paulo. O estudo de caso da formação de estudantes de Jornalismo da ECA indicou que cidadania é mais que um conteúdo a ser ensinado curricularmente: ela é trabalhada principalmente nos referenciais pedagógicos, na didática e, enfim, na relação que o docente estabelece com seus alunos.
Respeitar o aluno como cidadão talvez seja o principal estímulo que o professor possa dar aos estudantes para que eles possam responsabilizar-se por suas vidas, por sua formação e por sua profissão. O papel do professor é fundamental para que o educando conquiste sua cidadania e saiba também o que é respeitar, do ponto de vista dessa mesma cidadania, o público da informação jornalística para o qual ele deve trabalhar e a quem, de fato, ele deve servir. Este aprendizado não pode ser expresso em valores, em cifras, mas em significado. Não há, portanto, como falar em “quanto custa”.
Nesse sentido, convenci minha amiga de que ser jornalista, empenhar-se em uma formação na área, implica num esforço permanente de respeito ao outro e ao mundo em que se vive. Implica em algumas noites sem dormir, leituras atentas – e não apenas de livros, mas das pessoas e da vida –, algumas doses de indignação, inquietação e esperança. Muitas vezes tudo isso numa quitinete – nem sempre razoável – no centro de São Paulo. Em todo caso, ser jornalista vale a pena, porque vale ‘o outro’ e um mundo melhor. Parodiando Fernando Pessoa: vale a pena, ‘a alma não fica pequena’.
quinta-feira, 13 de abril de 2006
Ensinar cidadania é ultrapassar as “grades” curriculares
O princípio da cidadania contemporânea está a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, produto das revoluções Inglesa, Americana e Francesa do século XVIII e fundamenta-se na formação dos Estados-nacionais. Hoje, no entanto, uma discussão que vem avançando diz respeito à cidadania planetária, que implica numa noção de comunidade e interação mundial em que todas as pessoas são responsáveis pelo futuro e pela vida do planeta. Assim, a cidadania ganha uma nova dimensão e passa, ainda que seja também nacional, a ser global, universal.
Ser cidadão não é apenas pertencer a uma nação, mas ter consciência de fazer parte do destino do mundo e, por isso, ter compromissos e responsabilidades com ele, seja em seus aspectos polícias, sociais ou ambientais. A cidadania implica, assim, numa interação constante e incessante entre direitos e deveres de cada indivíduo para consigo, para com o outro e para com o planeta.
Embora possa ser discutida e estimulada no espaço familiar, nas relações sociais, pelos veículos de comunicação etc., a cidadania tem na escola um importante campo de discussão. No caso específico da formação superior do jornalista, embora os currículos universitários contemplem o assunto e conceitos correlatos como direitos humanos, democracia, ética e responsabilidade social, um dos aportes mais importantes da formação cidadã está na relação que os professores estabelecem com os alunos. Foi isto que revelou a pesquisa que resultou na dissertação de mestrado A Formação Cidadã do Jornalista no Brasil, que acabo de concluir na Escola de Comunicações e Artes – ECA – da Universidade de São Paulo.
O estudo de caso da formação de estudantes de Jornalismo da ECA indicou que cidadania é mais que um conteúdo a ser ensinado curricularmente: ela é trabalhada principalmente nos referenciais pedagógicos, na didática e, enfim, na relação que o docente estabelece com seus alunos.
O cientista norte-americano Carl Rogers, que em suas pesquisas uniu psicologia e educação, já falava, nos anos 60, sobre o ensino centrado no estudante. Para ele, o aluno não poderia ser visto pelo professor como um copo vazio. Com uma clara sintonia com o pensamento de Paulo Freire, a educação rogeriana potencializa os conhecimentos e as experiências do educando.
Para Rogers, o processo de aprendizagem pode ser facilitado se o professor for ‘congruente’. Ou seja, implica que ele tenha uma consciência plena das atitudes que assume. Numa perspectiva rogeriana, portanto, o professor não seria um exercício abstrato das exigências curriculares ou um canal através do qual o saber passa através das gerações.
Tanto para Freire como para Rogers, o docente não pode ser um mero instrumento de aplicação do currículo, mas um sujeito ativo e coerente com o que ensina e comprometido com um projeto de formação que respeita o educando. A educação tomada nesse sentido tem potencializado a formação de jornalistas comprometidos com os direitos humanos, com o planeta e, sobretudo, responsáveis por sua formação e por sua carreira. Esse é, de forma geral, o melhor caminho para a formação de pessoas críticas e cidadãs.
O contrário disso seriam reprodutores das exigências de mercado incapazes de esboçar críticas à ideologia dominante e defender os interesses, de fato, públicos. Eis a pior prática do jornalismo: não aquela que corrompe propositalmente o sentido cidadão e público da profissão, mas aquela que age dessa forma por despreparo intelectual ou desaviso do jornalista.
A esse respeito o professor Manuel Carlos Chaparro, da USP, considera que, além do domínio técnico da profissão (boa redação, manuseio de equipamentos etc), o jornalista formado pelas universidades deve ser um profissional com aptidões intelectuais, “capaz de apreender, atribuir significados e dar exposição social confiável (isto é, independente, crítica e honesta) aos conflitos discursivos da atualidade”.
Se para Freire, a educação é elemento fundamental para a libertação de cada indivíduo e, para Rogers, ela é essencial na potencialização de cada educando, tratando especificamente do caso específico do Jornalismo, Chaparro conclui que uma boa formação une à técnica uma sólida base humanística e, portanto, compromisso e respeito por si e pelo outro. A pesquisa A Formação Cidadã do Jornalista no Brasil aponta que essa ação começa em sala de aula como compromisso do professor e é imprescindível para o papel cidadão que o jornalista passa a atribuir à sua profissão.
Na condição de professor, respeitar o aluno como cidadão é um estímulo fundamental para os estudantes aceitarem responsabilizarem-se por suas vidas, por sua formação e por sua profissão. O papel do professor tem sido fundamental, enfim, para que o educando conquiste sua cidadania e saiba também o que é respeitar, do ponto de vista dessa mesma cidadania, o público da informação jornalística para o qual ele deve trabalhar e a quem, de fato, ele deve servir.
segunda-feira, 13 de março de 2006
Jornalismo brasileiro é uma boa pauta para o cinema nacional
Eis um casamento que deu certo: jornalismo e cinema. Desnecessário faz-se falar de produções clássicas como “Cidadão Kane” (Citzen Kane, EUA/1941), que imortalizou o nome de Orson Wells, que produziu, dirigiu e protagonizou o filme baseado na vida do magnata e empresário de comunicações norte-americano William Randolph Hearst, e “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole, EUA/1951), produzido e dirigido por Billy Wilder e estrelado por Kirk Douglas no papel do ambicioso jornalista Charles Tatum, que transforma um pequeno incidente numa mina de carvão no Novo México (EUA) numa chance de ganhar dinheiro e prestígio.
No final dos anos 90, filmes como “O Informante” (The Insider, EUA/1999), de Michael Mann, e “O Quarto Poder” (Mad City, EUA, 1997), de Costa-Gravas, não deixam dúvidas sobre isto. O primeiro, baseado numa história real ocorrida em 1994 e com irrepreensíveis atuações de Al Pacino e Russel Crowe, conta o drama do jornalista Lowell Bergman (Pacino) e do ex-executivo da indústria de tabaco Jeff Wigand (Crowe) ao se verem envolvidos em conflitos morais e éticos ao tentar denunciar pela rede CBS que a empresa de cigarros está colocando substâncias cancerígenas em seus produtos.
“O Quarto Poder”, com o também sempre bom Dustin Hoffman e John Travolta, leva o telespectador até o museu de uma cidade do interior do EUA, Madeline, para mostrar como, para alguns profissionais da imprensa, um dia normal e sem novidades pode transformar-se num redemoinho quando um repórter – Max Brackett (Hoffman) – resolve usar um incidente na vida de um homem comum – Sam Baily (Travolta) – em benefício de sua carreira.
Neste início de 2006 o cinema americano nos brinda com outras duas boas pérolas da união jornalismo e cinema. “Capote” (Capote, Canadá - EUA/2005), de Bennet Miller, e “Boa Noite, Boa Sorte” (Good Night, Good Luck, EUA – Japão – França - Inglaterra/2005), de George Clooney. Ambos inscrevem-se numa leva de filmes que estão sendo produzidos em Hollywood e que sutilmente abordam uma marca constante entre os americanos nestes tempos pós-11 de setembro e “caça ao terror”. Há, nos EUA e no resto do mundo, uma questão no ar: será que estamos certos? Estamos, de fato, tornando o mundo melhor?
“Capote” e a excelente interpretação de Philip Seymour Hoffman permitem aos jornalistas colocar na balança o que é mais importante: seu compromisso consigo e com sua carreira ou com o interesse público? “Boa Noite, Boa Sorte”, uma prova da qualidade do trabalho de Clooney, vai na mesma linha apresentando os entraves da CBS contra o macartismo tendo à frente o jornalista Edward R. Murrow, reforçado por uma trilha sonora de alta qualidade.
A verdade é que tanto “Capote” quanto “Boa Noite”, ao trazerem à tona jornalistas, políticos e empresários, ressuscitam fantasmas e histórias parecidas com os de Kane (“Cidadão”) e Tatum (“Montanha”) também trazidos à baila pelos personagens Brackett e Baily (“Quarto”) e Bergman e Wigand (“Informante”). É como se as discussões sobre ética e dever da imprensa nunca tivesse abandonado o espaço privilegiado dos debates norte-americanos sobre a vida em sociedade.
Talvez se esse tipo de produção estrangeira inspirasse a levar às telas do cinema brasileiro as proezas e os conflitos do jornalismo nacional, a nossa sociedade se tornasse mais afinada e informada sobre o papel do jornalismo e, por outro lado, fizesse os jornalistas pensarem e ficarem em alerta sobre seus compromissos com o público. Ao longo desses séculos de jornalismo, temos muita coisa ruim a ser denunciada, mas ao mesmo tempo, muita coisa boa a ser mostrada.
Obviamente, existem algumas produções que podem ser aqui ser mencionadas. “Vlado – 30 Anos Depois” (Brasil, 2005), de João Batista de Andrade, é um exemplo. O filme tem, sem dúvida, um valor inestimável e no que pretende ser – documentário – funciona muito bem. Mas é o povo, a sociedade brasileira que precisa se ver na tela grande, interagida com o jornalismo.
Uma experiência neste sentido é o premiado “Cidade de Deus” (Brasil/2002), de Fernando Meirelles, que conta a história do jovem Buscapé (Alexandre Rodrigues) que encontra no fotojornalismo uma forma de sobreviver e denunciar as mazelas da violenta vida numa favela carioca. No entanto, os exemplos de roteiros baseados em fatos reais, ainda são raros e por isso, a força do debate sobre o jornalismo nacional, ainda é pouco expressiva.
Por outro lado, a literatura nacional parece que já há algum tempo se deu conta do espaço e da possibilidade dessa discussão. Só para citar alguns exemplos, “Minha Razão de Viver” (Ed. Record, 1987), de Samuel Weiner, que conta a trajetória do jornal Última Hora e suas relações com o governo Vargas na primeira metade do século XX e, mais recentemente, “10 Reportagens que Abalaram a Ditadura” (Ed. Record, 2005), organizado por Fernando Molica e com reportagens de jornalistas como Luiz Cláudio Cunha e Ricardo Kotscho, produzidas nos anos militares, mostra a corajosa luta travada pelo jornalismo investigativo contra a ditadura.
O livro “Dossiê Herzog: Prisão, Tortura e Morte no Brasil”, de Fernando Pacheco Jordão (Ed. Global, 2005), lançado inicialmente em 1979, pode ser uma interessante inspiração para adaptação de um roteiro sobre a vida e a luta do jornalista Vladimir Herzog, este iugoslavo naturalizado brasileiro morto covardemente aos 38 anos pela ditadura militar em 1975.
A literatura nacional tem nos contado muitas histórias sobre jornalistas e jornalismo. E o cinema brasileiro, a exemplo do que vem fazendo o cinema norte-americano, precisa cantá-las também, estimulando um debate sobre a imprensa local, seus nomes, seus acertos e seus erros. Neste último caso, esclarecer na telona o desleixo da imprensa no caso Escola Base poderia ser (entre outros) um bom começo. Alguém se habilita?
segunda-feira, 1 de setembro de 2003
Dos ‘tipos móveis’ às ‘fluidas letras do vídeo’’: ensaio
Introdução
Este ensaio tem por objetivo compreender o pensamento de alguns estudiosos formuladores do alicerce do que, a partir do século passado, passa a ser considerado, com maior clareza, o pensamento jornalístico brasileiro. Para isto, tomamos como referência o trabalho dos alemães Tobias Peucer, que desenvolve seus estudos na primeira metade do século XVII, e Otto Groth (1883 - 1965); dos norte-americanos Robert E. Park (1864-1944) e Walter Lippmann (1889-1974) e dos latino-americanos Gustavo Adolfo Otero (1896-1958) e Octavio De La Suarée (1903-1994), ao lado do brasileiro Carlos de Andrade Rizzini (1898-1972).
Embora as atividades de comunicação nas sociedades sempre tenham sido uma referência da história e dos estudos dos grupos sociais, a atividade jornalística tal como a conhecemos hoje data de um período posterior à Revolução Francesa. É, portanto, a partir daí, que podemos falar numa atividade jornalística propriamente dita, já que a nova sociedade capitalista é que vai forjar as condições para o desenvolvimento e sedimentação das empresas de comunicação.
Ainda que os clássicos da Antiguidade ocidental já tivessem estudado e formulado considerações sobre a Oratória e a Retórica, somente algum tempo depois, com a consolidação dos Estados nacionais e o estabelecimento do poder burguês, no cenário do novo modo de produção, os estudos sobre o jornalismo começam - pela sua própria natureza política - a despertar maior atenção.
É a partir das três últimas décadas do século XIX que começa a ser elaborada, de forma sistematizada, uma formulação para as questões comunicacionais. (1) Apesar de, como observa Marques de Melo (1983: 07-8), todo este tempo de estudo não ser "suficiente para permitir uma precisão conceitual sobre essa atividade da comunicação coletiva", muitas contribuições significativas foram forjadas em diversas regiões do planeta influenciaram os estudos que hoje se consubstanciam no pensamento jornalístico brasileiro.
Raízes Européias
Ao tentar entender a natureza do jornalismo, o alemão Otto Groth, discípulo de Max Weber, produziu, nos anos 60, um relevante trabalho, ainda que se atendo - como seria natural, aliás, para sua época - a análises e considerações sobre a mídia impressa. Na Alemanha de sua época, a partir do âmbito da Publicística, Groth procura desvincular a Periodística, dando a esta última uma referência específica. (2) A contribuição do autor vem no sentido de elaborar um arcabouço teórico para formular e sistematizar as concepções de uma "ciência do jornalismo".
Para o autor, no momento cultural de sua época caracteriza-se a aparição da nova ciência que, para ser reconhecida "como nova e independente", deve ter seu próprio objeto e métodos.
Groth estabelece, então, que o objeto da "ciência do Jornalismo" seriam os jornais e as revistas . Com relação ao método, para Groth, "(...) determinado o objeto, estabelecida a área de estudo, o método surja espontaneamente como um imperativo e uma necessidade do próprio processo de investigação" (BUENO, 1972: 09).
Ao apontar o Jornalismo como uma ciência, Groth descarta a possibilidade que ele seja tratado como uma técnica e aponta quatro elementos como característicos do Periodika: periodicidade, atualidade, universalidade e difusão. Para ele, a periodicidade não se refere apenas à freqüência rigorosa com que uma determinada edição da publicação é lançada, mas significa, sobretudo, como o jornalismo interfere no "ritmo de vida" das pessoas nas comunidades, representando, inclusive, comportamentos e padrões econômicos, políticos, sociais, culturais e psicológicos de cada grupo.
A universalidade diz respeito à abrangência e, conseqüentemente, à heterogeneidade com que o jornalismo seleciona e apresenta os fatos. No entanto, "(...) la Universidad tiene sus peligros. Lo mismo que puede hacer superficial al periodista, puede hacerlo con al lector", adverte Groth (BUENO, 1972: 17).
A atualidade, considerada a grande característica do jornalismo, diz respeito aos fatos, para o conjunto dos leitores, novos. Neste sentido, o autor deixa claro que ela se diferencia da novidade, já que esta é um aspecto subjetivo; individual.
Finalmente, a difusão corresponde ao acesso do público à informação. Para Groth, a difusão pode assumir um caráter preferencialmente vertical (difusão intensiva) ou horizontal (difusão extensiva). No primeiro caso, ela é "social" e diz respeito às camadas sociais que atinge a publicação. No segundo, é "temporal ou geográfica" e leva em conta as regiões atendidas pela publicação. Importante notar que, com respeito a estes dois modelos de difusão, o autor considera que elas são inversamente proporcionais: quanto mais circula um jornal numa dada região, mais ele tende a concentra-se em determinadas classes sociais e vice-versa.
Dos quatro conceitos desenvolvidos por Groth, talvez a periodicidade mereça algumas ressalvas já que, o rádio e a TV e, mais recentemente, a Internet, trabalhem em função da instantaneidade. É o acontecimento em real time, sem uma periodicidade definida para ira ao ar, mas ao sabor dos acontecimentos que interessam ao público.
Somado a isto, alguns estudiosos que entende o jornalismo no âmbito da linguagem apontam algumas lacunas nesta linha de pensamento. Mayra Rodrigues Gomes (2000: 19) observa que "antes de registrar, informar, antes de ser colocado pelas condições que o caracterizam, por exemplo, periodicidade, universalidade, atualidade, difusão, categorias que nos são dadas por Otto Groth, o jornalismo é ele próprio, um fato de língua".
De todo modo, as considerações do autor alemão continuam exercendo forte influência no pensamento comunicacional. Para Marques de Melo (3) (1983: 14) "(...) continuam atualíssimas as diretrizes estabelecidas por Otto Groth para comprovar a identidade teórica e a autonomia metodológica da ciência do Jornalismo, não obstante toda sua argumentação tenha tomado como ponto de referência o jornalismo impresso, ou melhor, o Periodik".
Se estabelecermos um diálogo com Groth e outro estudioso alemão, Tobias Peucer, que viveu no século XVII, portanto, quase 300 anos antes, podemos pensar numa possibilidade da atemporalidade da obra deste último.
Na verdade, Groth, assim como Weber, teve em Peucer um precursor de seu pensamento. Peucer e outros estudiosos da Periodística da época colocam a Alemanha como precursora dos estudos da comunicação e da informação. O autor, em sua tese de doutorado defendida na Universidade de Leipzig, em 1690, apresenta um verdadeiro tratado de jornalismo que pouco - ou nada - fica a dever aos manuais de redação e estilo que proliferam a partir de meados do século XX.
O autor aponta que "a matéria" com a qual devem se preocupar os periódicos "são as coisas singulares, fatos realizados por Deus através da natureza, ou pelos anjos, ou pelos homens na sociedade civil ou pela Igreja" (2000: 206). Ora, aí o autor começa a apresentar e caracterizar a notícia jornalística. E aponta mais adiante: "(...) como estes fatos são quase infinitos cabe estabelecer uma seleção de modo que seja dada preferência aos axiomneunóneuta, ou seja, àqueles que merecem ser recordados ou conhecidos" (2000; 206). Ora, eis o princípio da edição.
E mais adiante observa: "(...) tudo isto costuma ser narrado de forma embaralhada nos periódicos, como uma história confusa, para que a alma do leitor receba o impacto de uma amena variedade" (2000; 207). Desta forma, o autor introduz o conceito de mosaico que vai caracterizar a disposição do material jornalístico na mídia impressa e mais, o caráter comercial e "impactante" que deve ter a informação.
Além disso, Peucer aborda também questões relativas à ética, à censura, à redação e à linha editorial das publicações impressas. E mais: ao apontar a utilidade e a amenidade como finalidades do jornalismo, antecipa o conceito que mais tarde viria a ser retomado por autores como Marques de Melo (1983), Juarez Bahia (1990) e Mário Erbolato (1991) para caracterizar e discutir as categorias do jornalismo, mais precisamente o jornalismo informativo e diversional.
Raízes Norte-Americanas
Apesar da relevância e primazia dos estudos alemães, não são só os pensamentos europeus, mas também os norte-americanos, vão plasmar a cultura e o pensamento jornalístico no Brasil.
Com uma grande influência alemã sobre seus padrões acadêmicos, (4) sobretudo de pós-graduação, é nos primeiros anos do século XX que surgem as primeiras escolas de Jornalismo norte-americanas: a Escola de Jornalismo de Missouri, em 1908, e a Escola de Jornalismo de Columbia, em 1912.
O ensino do jornalismo nos EUA tem início, vale ressaltar, estimulado pela crescente demanda da informação jornalística como mercadoria, onde ganhava terreno, inclusive, o sensacionalismo. A preocupação de conter e de limitar a explosão comercial dos jornais e lhe dar as centelhas da responsabilidade social estimulam o aparecimento das escolas. Por outro lado, há quem aponte também, neste quadro, a intenção de se formar profissionais que, imbuídos pela ideologia dominante, fossem capazes de exercer o controle político dos meios.
É, no entanto, a década de 20 que marca um período de franca expansão do ensino de jornalismo na América. Neste momento aparecem também as contribuições e os estudos dos funcionalistas sobre o fenômeno da comunicação. Afinal, este é um período de acelerado desenvolvimento da cultura e da sociedade de massa. Nos Estados Unidos, Hollywood sedimenta-se, com o cinema, como grande produtora ideológico-cultural e surgem as grandes corporações comunicacionais. Na Europa, ao mesmo tempo em que prolifera a indústria midiática, constroem-se as bases da Escola de Frankfurt, na Alemanha, que passa a difundir o conceito da indústria cultural.
Na primeira metade do século, uma contribuição importante para os estudos do jornalismo vem do norte-americano Robert E. Park, que trabalha a notícia como forma de conhecimento. Tomando como base os estudos do psicólogo William James e os conceitos de "conhecimento de" (intuitivo) e "conhecimento acerca de" (científico), Park conclui que este último, pela sua sistematização, é articulável e, portanto, comunicação. O autor, a partir desta análise situa aí a notícia, definida pelo interesse público, diferente de formas de comunicação persuasivas, que são assimiladas de forma intuitiva. Para ele, é a partir da notícia que surge a opinião pública (STEINBERG, 1966: 176):
"A primeira reação típica do indivíduo a uma notícia será, provavelmente, o desejo de repeti-la a alguém. Isso gera a conversação, desperta novos comentários e talvez uma discussão. Mas o que há nesse fato de singular é que, iniciada a discussão, o acontecimento discutido deixa de ser notícia e, sendo diferentes as interpretações de um acontecimento, as discussões se transferem do plano da notícia para o dos problemas que ela suscita. O choque de opiniões e pareceres, que a discussão invariavelmente evoca, termina, via de regra, numa espécie qualquer de consenso ou opinião coletiva - que nós denominamos opinião pública. É na interpretação dos acontecimentos presentes, ou seja, da notícia, que se funda a opinião pública".
Esta relação, no entanto, entre notícia e opinião pública, já havia sido estudada alguns anos antes pelo também norte-americano Walter Lippmann. Jornalista norte-americano de grande atuação em pesquisas de opinião nos Estados Unidos da primeira metade do século passado, Lippmann constituiu uma das mais respeitadas obras de estudos da cultura de massa e opinião pública da época, com ressonância até hoje.
A sua grande contribuição está na "desmistificação" da crença de que a mídia e, por extensão, o jornalismo, trabalha com a representação fiel dos acontecimentos e do mundo. Assim, para o autor, a mídia termina por determinar uma outra realidade.
A notícia seria, para o ele, definida pela relevância do acontecimento no contexto social. Para Lippmann "a notícia não é um espelho das condições sociais, mas o relato de um aspecto que se impôs". É seguindo esta linha de pensamento, que o autor aproxima os conceitos de notícia e opinião pública (STEINBERG, 1966: 197):
"A notícia que não oferece ao leitor a oportunidade de entrar na luta que ela descreve não pode interessar a um grande público. É preciso que o público participe da notícia, como participa do drama, pela identificação pessoal... Assim como toda a gente sustém a respiração quando a heroína está em perigo (...) assim, de maneira mais sutil, entra o leitor na notícia".
Em sua teorização, ele destaca o papel o assessor de imprensa e das relações públicas. Segundo ele (STEINBERG,1966: 194):
"A expansão do assessor de imprensa é um claro sinal de que os fatos da vida moderna não assumem espontaneamente uma forma em que possam ser conhecidos. Urge que alguém lhes dê essa forma, e como, na rotina cotidiana, os repórteres não podem dar forma aos fatos e existem poucas organizações informativas desapaixonadas, as partes interessadas estão provendo a necessidade de certa formulação".
Por conta destes estudos, Lippmann é também considerado um dos primeiros formuladores (senão, o primeiro formulador) dos estudos do que hoje conhecemos como a agenda-setting. No entanto, a formulação clássica do conceito surge nos Estados Unidos em finais da década de sessenta com Maxwell E. McCombs e Donald L. Shaw.
O enunciado abaixo, de autoria de Shaw, apresenta bem a essência do conceito:
"(...) em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendências para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas". (Wolf, 1994; 130).
O Pensamento Latino-Americano
O pensamento e o modelo acadêmico norte-americano, bem como os estudos produzidos na Europa, influenciaram também as análises da comunicação e do jornalismo na América Latina. Neste cenário, vale destacar o papel da Escola Latino-Americana de Comunicação (ELACOM) que, especialmente a partir de meados do século XX, tem aglutinado pensadores e discussões realizadas no continente.
Merecem menção especial três precursores do pensamento latino-americano que desenvolveram seus trabalhos e pesquisas entre os anos 30 e 50 do século XX. Neste sentido, o boliviano Gustavo Adolfo Otero, o cubano Octávio De La Suarée e o brasileiro Carlos Rizzini são aqui assinalados com o intuito de se construir uma síntese das origens e influências forâneas nas reflexões nacionais sobre o jornalismo.
Em recente estudo realizado e publicado, Paulo da Rocha Dias (2001: 125) parte da obra principal de cada um dos autores e busca estabelecer os pontos que possam apontá-los como precursores dos estudos latino-americanos na área de comunicação.
Para o autor, enquanto o grande mérito da obra de Rizzini e Otero são seus matizes historiográficos, o trabalho de La Suarée, a exemplo de Groth e Park, tem o grande mérito de propor um entendimento científico do jornalismo. Todos os três autores constituindo, portanto, importantes fontes para as pesquisas sobre comunicação e jornalismo que começar a ganhar corpo, especialmente na América Latina, a partir da segunda metade do século XX.
A obra de Otero - La cultura y el periodismo en America -, publicada inicialmente em 1953, corresponde a um estudo sobre o jornalismo em 21 países latino-americanos, inclusive o Brasil. No texto, o autor pretende incluir a evolução do jornalismo no próprio contexto do desenvolvimento e urbanização do continente. Eis aí a relevância e abrangência de sua obra.
De La Suarée, em Socioperiodismo, publicado em 1948, é o primeiro do grupo a apresentar um entendimento do jornalismo como ciência. E está aí a sua grande contribuição ao pensamento latino-americano. Na ciência socioperiódica, o autor toma como base a sociologia, apoiadas pela psicologia e pela ética, para compreender o jornalismo.
A grande contribuição de Rizzini aparece na obra O livro, o jornal e a tipografia no Brasil, 1500-1822: um breve estudo geral sobre a informação, publicada em 1946. Neste trabalho, é reputado ao autor o grande mérito de produzir uma obra pioneira na moderna bibliografia de comunicação que serve, até hoje, como referência histórica e analítica para discussões do tema. No entanto, como observa Rocha Dias (2001: 140), "O lugar de precursor que cabe a Rizzini para os estudos brasileiros de comunicação, cabe com mais propriedade a Otero e La Suarée para os estudos latino-americanos".
No Brasil, as pesquisas em Jornalismo têm origem nos institutos históricos, no final do século XIX. Nos periódicos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro da época constam "(...) os resultados das investigações realizadas por Moreira de Azevedo, Max Fleiuss, Vale Cabral, Alfredo de Carvalho, Barão de Studart, Craveiro Costa, Afonso de Freitas e tantos outros que resgataram o desabrochar da nossa imprensa e suas transformações" (MELO, 1985: 58). De qualquer forma, Rizzini constitui um caso a parte das pesquisas comunicacionais no país. Na medida em que, tendo o jornalismo como objeto próprio, o autor acende as primeiras centelhas para uma midiologia brasileira que ganha contornos acadêmicos nos anos 60.
Conclusão
"No alvorecer do século XXI, o campo brasileiro das ciências da comunicação precisa globalizar-se altaneiramente, proclamando aquela atitude de autonomia regional - nacional peculiar aos levantes emblemáticos do início do nosso século XX: o Movimento Regionalista, inspirado no Recife por Gilberto Freyre, e a Semana de Arte Moderna, liderada em São Paulo por Mário e Oswald de Andrade".
José Marques de Melo (2003: 243)
As raízes forâneas do pensamento comunicacional brasileiro constituem uma síntese do todo um pensamento forjado sobre a comunicação no mundo ocidental desde a Antiguidade. Os pensadores aqui trabalhados - os alemães Peucer e Groth; os funcionalistas norte-americanos Lippmann e Park e os latino-americanos Otero, De La Suarée e brasileiro Rizzini - produziram, sem dúvida, uma obra influente sobre o pensamento comunicacional brasileiro ao oferecer chaves para uma sistematização e um caminho para a ciência do jornalismo.
Ao lado de outros pensadores - como, por exemplo, os frankfurtianos Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamim, Hebert Marcuse e, mais recentemente, Jürgen Habermas - estes os autores compõem um cenário mais amplo sobre o pensamento comunicacional ocidental e que, por sua vez, tem forte ressonância sobre o pensamento comunicacional brasileiro.
Porém, retomando o início deste texto, observamos que, em todo o mundo, apesar de quase dois séculos de estudos, este tempo não se mostrou bastante para imprimir ao jornalismo uma precisão conceitual. Talvez, observa Marques de Melo (1983; 08):
"A justificativa não está apenas na circunstância de que são fenômenos sociais e, portanto dinâmicos, mas na essência mesma do jornalismo que se nutre do efêmero, do provisório, do circunstancial, e por isso exigem do cientista maior argúcia na observação e melhor instrumentação metodológica para que não caia nas malhas do transitório".
A isto pode ser acrescentado o acelerado ritmo com que se desenvolvem historicamente as tecnologias de comunicação. Especialmente o século passado representou, para muitos teóricos do comportamento e da comunicação, um período de franco desenvolvimento dos mass media. "(...) o traço distintivo do século XX é o fenômeno da comunicação de massa", afirma Charles Steinberg (1966: 11). O século XXI, ao que parece, não deve ser diferente.
Por paradoxal que seja, este quadro de incertezas mundial representa avanços que se caracterizam, especialmente, na união de estudiosos e pesquisadores da comunicação e do jornalismo em torno de seu objeto comum.
Nos diversos continentes, ao longo do século XX, eclodiram escolas, pesquisas e estudos sistemáticos destinados a lançar luzes sobre o fenômeno da comunicação. Ao mesmo tempo, a própria dinâmica do fenômeno e o surgimento de novas mídias - como a Internet - têm estimulado, em todo o mundo, novas e renovadas discussões não só sobre o conceito do jornalismo e da notícia a partir da própria cultura que emerge nas sociedades contemporâneas.
Parafraseando Pierre Lévy (1999: 247), não podemos considerar a Internet apenas "uma subcultura dos fanáticos pela rede". A cibercultura, mais que isto, é uma "mutação fundamental da própria essência da cultura". Neste sentido, cabe-nos refletir - ou melhor, continuar refletindo - sobre a interferência deste novo quadro no contexto do jornalismo e no conceito da sua matéria prima: a notícia. Afinal, a agilidade e as novidades da informática obrigam-nos a rever e reformular conceitos. É neste contexto que o professor Pedro Celso Campos (2001) aponta:
"(...) nos meios acadêmicos debate-se o papel do produtor de notícias dentro do contexto empresarial dos meios de comunicação. Num mundo eletronicamente globalizado, onde textos e imagens digitalizadas viajam vertiginosamente em torno do planeta através dos satélites e das fibras óticas, sendo "decodificadas" na outra ponta através das mais variáveis interfaces que tanto podem ser um minúsculo telefone celular, como uma enorme impressora de jornal comandada à distância, ou ainda um monitor de TV ou de computador, ou um aparelho de rádio, pergunta-se qual o espaço que sobra, afinal, para o jornalista, para o profissional encarregado de produzir, processar e emitir o discurso. Um discurso que já não pode ser meramente informativo porque também precisa ser interpretativo. Um discurso que envolve a necessidade de opinar - porque este é um dever do comunicador que deseja prestar serviço ao receptor. Um discurso que não pode descuidar, ainda, da sua finalidade lúdica, enquanto texto "recreativo" para amenizar o stress desse náufrago cercado de informação por todos os lados que é o homem do século XXI".
O novo contexto da economia mundial capitalista, que passa a sedimentar-se a partir de meados dos anos 80, reforça a ambigüidade da comunicação, cada vez mais identificada como mercadoria, como observa Miège (2000: 130). É exatamente neste contexto - em que "os pesados tipos móveis se converteram em fluidas letrinhas que piscam no vídeo" (CAMPOS, 2001) - que os estudos da comunicação do novo século, inclusive no Brasil, terão que apreender e sistematizar o funcionamento e o destino do jornalismo.
Notas
(1) Ainda que os estudos de jornalismo só fosse se estruturar a partir do final do século XIX, eles têm início em 1806, quando a Universidade de Breslau, na Alemanha, realiza o primeiro curso na área.
Para Groth, enquanto a Publiística abarcava, de modo geral, o conjunto da comunicação social (especialmente a Opinião Pública) a Periodística passa a tratar apenas do jornalismo.
(2) Na verdade, além dos jornais e revistas, o autor assinala também as 'blatter' (espécie de revistas típicas da Alemanha da época) como objeto dos estudos do Jornalismo.
(3) Para Marques, os quatro conceitos, na verdade se aproximam. No entanto, a periodicidade está mais diretamente relacionada à difusão e a univesalidade, à atualidade.
(4) Segundo Marques de Melo (1975: 12), "(...) o modelo alemão foi escolhido para as primeiras iniciativas do gênero dentro do sistema educacional dos EUA". Isto porque, para Marques, a Alemanha havia se convertido, "(...) pouco a pouco, na Meca dos schoolars norte-americanos, calculando-se que até fins do século passado (século XIX) cerca de 10.000 ali se matricularam, dos quais metade realizou estudos de pós-graduação".
Bibliografia
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